Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)

Informado el-rei D. Sebastião, que glória haja, do Rio de Janeiro, e do muito para que estava disposto, ordenou de partir este Estado do Brasil em duas governanças, e deu uma delas ao Dr. Antônio Salema, que estava na capitania de Pernambuco por mandado de S. A., com alçada, a qual repartição se estendia da capitania de Porto Seguro até São Vicente. Essa repartição se fez no ano de 1572; começava no limite em que partem as duas capitanias dos Ilhéus e do Porto Seguro, e dali tudo para o sul; e a outra, do dito limite até tudo que há para o norte, deu a Luís de Brito de Almeida. E era cabeça desta governança a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde o governador assistiu; e começou um engenho, que lhe S. A. mandou fazer, para o que lhe mandou dar quatro mil cruzados, o qual se não acabou, sendo mui necessário para os moradores fazerem suas casas, e para a terra ir em grande crescimento. No tempo que Antônio Salema governou o Rio de Janeiro, iam cada ano naus francesas resgatar com o gentio ao Cabo Frio, onde ancoravam com suas naus na baía que atrás fica declarado, e carregavam de pau de tinta à sua vontade; e vendo Antônio Salema tamanho desaforo, determinou de tirar essa ladroeira desse lugar, e fez-se prestes para ir fazer guerra ao gentio de Cabo Frio, para o que ajuntou quatrocentos homens brancos e setecentos índios, com os quais, por conselho de Cristóvão de Barros, foram ambos em pessoa ao Cabo Frio, que está dezoito léguas do Rio, onde acharam os tamoios com cercas muito fortes, recolhidos nelas com alguns franceses dentro, onde uns e outros se defenderam valorosamente às espingardadas e flechadas; e, não podendo os franceses sofrer o aperto em que estavam, se lançaram com o governador, que lhes desse a vida, com que os tamoios foram entrados, mortos infinitos, e cativos oito ou dez mil almas. E com essa vitória, que os portugueses alcançaram, ficaram os tamoios tão atemorizados, que despejaram a ribeira do mar, e se foram para o sertão, pelo que não tornaram mais naus francesas a Cabo Frio a resgatar. E porque deste sucesso fez Antônio Salema um tratado, havemos por escusado tratar mais deste caso neste capítulo.

C A P Í T U L O LVI

Em que se conclui com o Rio de Janeiro com a tornada de Salvador Correia a ele.

Vendo el-rei D. Sebastião, que haja glória, o pouco de que lhe servira dividir o Estado do Brasil em duas governanças, assentou de o tornar a ajuntar, como dantes andava, e o de mandar por capitão e governador ao Rio de Janeiro somente a Salvador Correia de Sá, e que viessem as apelações à Bahia, como dantes era; onde o dito Salvador Correia foi e está hoje em dia, onde tem feito muitos serviços a S. Majestade, do modo como procede na governança e defensão desta cidade, e no fazer da guerra ao gentio, de que tem alcançado grandes vitórias, e também serviu a S. Majestade em pelejar com três naus francesas, que queriam entrar pela barra do Rio de Janeiro, o que lhe defendeu às bombardadas, e não quis consentir que comunicassem com a gente da terra, por se dizer trazerem cartas do senhor D. Antônio. E foi esta cidade em tanto crescimento em seu tempo, que pela engrandecer ordenou de fazer um engenho de açúcar na sua ilha, que faz muito açúcar; e favoreceu a Cristóvão de Barros para mandar fazer outro, que também está moente e corrente, com os quais esta cidade está muito avante, e com um formoso colégio dos padres da Companhia, cujas obras Salvador Correia ajudou e favoreceu muito. Neste Rio de Janeiro se podem fazer muitos engenhos por ter terras e águas para isso, no qual se dão as vacas muito bem, e todo o gado de Espanha; onde se dá trigo, cevada, vinho, marmelos, romãs, figos e todas as frutas de espinho; e muito farto de pescado e marisco, e de todos os mantimentos que se dão na costa do Brasil; onde há muito pau do Brasil, e muito bom.

C A P Í T U L O LVII

Em que se declara a costa do Rio de Janeiro até São Vicente.

Da ponta da Cara de Cão do Rio de Janeiro à ponta do rio de Marambaia são nove léguas, onde se faz uma enseada; e defronte dessa enseada está uma ilha de Arvoredo, que se chama a Ilha Grande, a qual faz de cada banda duas barras com a terra firme, porque tem em cada boca um penedo no meio, que lhe faz duas abertas, e navega-se por entre esta ilha e a terra firme com navios grandes e naus de todo o porte. Ao mar desta ilha está um ilhéu, que se chama Jorge Grego. Esta Ilha Grande está em vinte e três graus, a qual tem sete ou oito léguas de comprido, cuja terra é muito boa, toda cheia de arvoredo, com águas boas para engenhos. Quem vem do mar em fora parece-lhe esta ilha cabo de terra firme, por estar chegado à terra.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3031323334...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →