Por Eça de Queirós (1887)
O alegríssimo Pote depressa organizou a nossa caravana para a cidade do Senhor. Um macho levava as bagagens; o arrieiro árabe, embrulhado num farrapo azul, era tão airoso e lindo que eu, irresistivelmente e sem cessar, procurava o negro afago do seu olhar de veludo; e, por luxo oriental, como escolta, seguia-nos um beduíno, velho, catarroso, com o albornoz de lã de camelo listrado de cinzento, e uma forte lança ferrugenta toda enfeitada de borlas.
Guardei num alforje, desveladamente, o embrulhinho mimoso da camisinha de Mary; depois, já na sela, alongados os loros do pernudo Topsius, o festivo Pote, floreando o chicote, lançou o antigo grito das Cruzadas e de Ricardo-Coração-de-Leão - Avante, a Jerusalém; Deus o quer! E a trote, com os charutos em brasa, saímos de Jafa pela porta do Mercado - à hora em que suavemente tocava a vésperas no Hospício dos Padres Latinos.
Na luminosa meiguice da tarde, a estrada alongava-se através de jardins, hortas, pomares, laranjais, palmeirais, terra de promissão, resplandecente e amável. Por entre as sebes de mirtos perdia-se o fugidio cantar das águas. O ar todo, de uma doçura inefável, como para nele respirar melhor o povo eleito de Deus, era um derramado perfume de jasmins e limoeiros. O grave e pacífico chiar das noras ia adormecendo, ao fim do dia de rega, entre as romãzeiras em flor. Alta e serena no azul, voava uma grande águia.
Consolados, paramos numa fonte de mármore vermelho e negro, abrigada à sombra de sicômoros onde arrulhavam rolas; ao lado erguia-se uma tenda, com um tapete na relva coberto de uvas e de malgas de leite; e o velho de barbas brancas que a ocupava saudou-nos em nome de Alá, com a nobreza de um patriarca. A cerveja tinha-me feito sede; foi uma rapariga bela como a antiga Raquel, que me deu a beber do seu cântaro de forma bíblica, sorrindo, com o seio descoberto, duas longas argolas de ouro batendo-lhe a face morena, e um cordeirinho branco e familiar preso da ponta da túnica.
A tarde descia, muda e dourada, quando penetramos na planície de Sáron, que a Bíblia outrora encheu de rosas. No silêncio tilintavam os chocalhos de um rebanho de cabras negras, que um árabe ia pastoreando, nu como um São João. Lá ao fundo, os montes sinistros da Judéia, tocados pelo sol oblíquo que se afundava sobre o Mar de Tiro, pareciam ainda formosos, azuis e cheios de doçura de longe, como as ilusões do pecado. Depois tudo escureceu. Duas estrelas de um resplendor infinito apareceram; e começaram a caminhar adiante de nós para os lados de Jerusalém.
O nosso quarto, no Hotel do Mediterrâneo, em Jerusalém, com a sua abóbada caiada de branco, o chão de tijolo, semelhava uma rígida cela de rude mosteiro. Mas, fronteira à janela, um tabique delgado, revestido de papel de ramagens azuis, dividia-o do outro quarto, onde nós sentíamos uma voz fresca cantarolar a Balada do Rei de Tule; e aí, exalando conforto e civilização, brilhava um guarda-roupa de mogno, que eu abri, como se abre um relicário, para encerrar o meu embrulhinho bendito.
Os dous leitozinhos de ferro desapareciam sob as pregas virginais dos cortinados de cambraia branca; e ao meio havia uma mesa de pinho, onde Topsius estudava o mapa da Palestina, enquanto eu, de chinelos, passeava, limando as unhas. Era a devota sexta-feira em que a cristandade comemora, enternecida, os santos mártires de Évora. Nós tínhamos chegado nessa tarde, sob uma chuva triste e miúda, à cidade do Senhor; e de vez em quando Topsius, erguendo os óculos de cima das estradas de Galiléia, contemplava-me de braços cruzados e murmurava com amizade:
- Ora está o amigo Raposo em Jerusalém!
Eu, parando ao espelho, dava um olhar às barbas crescidas, à face crestada, e murmurava também, agradado:
- E verdade, cá está o belo Raposo em Jerusalém!
E voltava, insaciado, a admirar através dos vidros baços a divina Sião. Sob a chuva melancólica erguiam-se defronte as paredes brancas de um convento silencioso, com as persianas verdes corridas, e duas enormes goteiras de zinco a cada esquina, uma escoando-se ruidosamente sobre uma viela deserta, a outra caindo no chão mole de uma horta plantada de couves, onde omeava um jumento. Desse lado, era uma vastidão infindável de telhados em terraço, lúgubres e cor de lodo, com uma cupulazinha de tijolo em forma de forno, e longas varas para secar farrapos; e quase todos decrépitos, desmantelados, misérrimos, pareciam desfazer-se na água lenta que os alagava. Do outro, elevava-se uma encosta atulhada de casebres sórdidos, com verduras de quintal, esfumadas, arrepiadas na névoa úmida; por entre eles, torcia-se uma viela esgalgada, em escadinhas, onde constantemente se cruzavam frades de alpercatas sob os seus guarda-chuvas; sombrios judeus de melenas caídas, ou algum vagaroso beduíno arregaçando o seu albornoz... Por cima pesava o céu pardacento. E assim da minha janela me aparecia a velha Sião, a bem edificada, brilhante de claridade, alegria da terra, e formosa entre as cidades.
- Isto é um horror, Topsius! Bem dizia o Alpedrinha! Isto é pior que Braga, Topsius! E nem um passeio, nem um bilhar, nem um teatro! Nada! Olha que cidade para viver Nosso Senhor!
- Sim! No tempo dele era mais divertida - resmungou o meu sapiente amigo.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.