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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Voltemos, enfim, os olhos para a França – a Mater-Gália: nunca mais alta a vimos, gloriosa e firme resplandecendo sob os Napoleões. Nunca a sua homogeneidade pareceu mais sólida e o seu messianismo mais penetrante. Paris reedificado, arejado, verdejante, rectilíneo, resplandece. As suas modas são por um momento dogmas, como as suas filosofias: dela o mundo recebe com devoção a Crinoline e o Positivismo. A tra-dição galante das classes fidalgas permanece tão inalterável, que um descendente dos La Trémouille, que tinham precedência sobre o Rei, paga por 25000 cruzados as botinas de cetim com que M.lle Cora Pearl se estreia no teatro.

O formoso desdém gaulês que inspirava calembours aos que subiam à guilhotina, conserva-se tão brilhante que, na suave praia de Biarritz, coronéis elegantes, ouvindo o Sr. de Bismark desenvolver os seus planos, murmuram com graça: «Que idiota!» A salutar influência religiosa penetra por tal forma a vida social, que, mesmo nas figuras de cotillon, as marcas mais delicadas representam mitrazinhas episcopais e pequenos báculos de chocolate.

A galantaria francesa está tão rediviva, que um letrado da Academia não hesita em assinar os seus escritos: Merimée, bobo de S. M. a Imperatriz. O luxo, que promove a prosperidade industrial, é tão refinado, que custam contos de réis as robes de chambre do Sr. Duque de Morny e a dívida de uma virtuosa dama, à sua costureira de roupa branca, ultrapassa a soma fabulosa de noventa e seis mil cruzados!

Formoso espectáculo de um país próspero! – direis. Ai! Ai de nós! – Nesta formosa harmonia se percebem sintomas sinistros: já o imortal Cousin jaz no seu leito de dor, com a sua doença de fígado; já um Thiers ousa condenar a soberba expedição do México; já o espírito frondista das salas aplaude os epigramas de um Prévost-Paradol e os boulevards riem quando um garoto, Rocheforte, injuria a cuia de S. M. a Imperatriz; e, suprema dor, já César, devorado pela doença pertinaz, passa os seus dias em banhos de sal, a pálpebra mórbida, o pulso, que um dia salvara a ordem e a sociedade, abandonado entre os dedos do especialista Ricord. E no entanto, de um rochedo do mar da Mancha, um personagem lendário, um S. Paulo romântico da Santa Democracia, tão extraordinário de génio e tão alucinado de orgulho que se confunde a si mesmo com Deus e se crê no segredo da Natureza, escreve Os Miseráveis, As Contemplações, A Lenda dos Séculos, e profetisa, em atitudes teatrais, a monstruosa desforra da plebe e uma vaga fraternidade dos homens reconciliados.

Tal é a Europa – enquanto o nosso Alípio murmura ao ouvido de Virgínia aquelas palavras eternas que há três mil anos saem dos lábios dos amantes.

E agora volvamos os olhos para Portugal. Em Portugal, nessa época, não vejo que se passe coisa alguma, a não ser que o Ministério Cardoso Torres acaba de declarar que o seu programa será: Ordem, Moralidade e Economia.

É pois nesta serena e calma unidade nacional que Alípio Abranhos aparece e entra a passos largos nos umbrais da História.

A maneira como Alípio Abranhos foi eleito deputado, parece inteiramente providencial. O ministério Cardoso Torres tinha, como é sabido dos que conhecem a história política dessa época, dissolvido as câmaras. O ministério antecedente, denominado Ministério Bexigoso (de cinco ministros, coincidência singular, três eram picados das bexigas) não caíra segundo os métodos parlamentares: aluíra, sumira-se. Em plena maioria, sem razão, sem discussão, de repente, desaparecera –caso singular, depois, muitas vezes repetido, e comparável à conhecida catástrofe da corveta Saragoça. A Saragoça, num dia delicioso de Junho, num mar tão calmo como uma larga taça de leite, sem borrasca, sem vento, caiu no fundo do mar. O casco, parece, estava tão podre que se dissolveu como açúcar numa xícara de chá. Um indivíduo que.46 estava na esplanada vendo-a dar uma curva magnífica sob um sol resplandecente, abaixara-se para apertar um atilho do sapato, e, ao erguer-se, não viu mais a corveta: sondou ansiosamente com o óculo o horizonte azul-ferrete; olhou aflito em redor, pela praia; mesmo, num gesto grotesco mas muito naturalmente instintivo, apalpou sofregamente as algibeiras: – nada! O mar brilhava sereno, azul, imóvel, coberto de sol.

O Ministério Bexigoso acabou como a corveta Saragoça. O novo ministério foi portanto tirado do mesmo grupo da maioria – e, consequentemente, dissolveu as câmaras, precaução exagerada, porque os chefes da maioria afirmavam ao ilustre Dr. Cardoso que dariam ao novo governo – se ele, como o governo anterior, fosse pela Ordem, pela Moralidade e pela Economia – um apoio eficaz e homogéneo.

(continua...)

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