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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Luísa sentiu todo o sangue abrasar-lhe o rosto. Davam onze horas quando entrou em casa.

Juliana veio alumiar. - O chá estava pronto, quando a senhora quisesse...

Luísa subiu daí a pouco com um largo roupão branco, muito fatigada; na voltaire; sentia vir-lhe uma sonolência; a cabeça pendia-lhe; cerravas as pálpebras... E Juliana tardava tanto com o chá! Chamou-a. Onde estava? Credo!

Tinha descido, pé ante pé, ao quarto de Luísa. E aí tomando o vestido, as saias engomadas que ela despira e atirara para cima da causeuse, desdobrou-as, examinou-as, e com uma certa idéia, cheirou-as! Havia o vago aroma de um corpo lavado e quente, com uma pontinha de suor e de água-de-colônia. Quando a sentiu chamar, impacientar-se em cima, subiu, correndo. - Fora abaixo dar uma arrumadela. Era o chá? Estava pronto...

E entrando com as torradas:

- Veio aí o Sr. Sebastião, haviam de ser nove horas...

- Que lhe disse?

- Que a senhora tinha saído com a senhora D. Felicidade. Como não sabia, não disse paraonde.

E acrescentou:

- Esteve a conversar comigo, o Sr. Sebastião... Esteve a conversar mais de meia hora!...

Luísa recebeu, na manhã seguinte, da parte de Sebastião, um ramo de rosas, magenta-escuro, magníficas. Cultivava-as ele na quinta de Almada, e chamavam-se rosas D. Sebastião. Mandouas pôr nos vasos da sala; e como o dia estava encoberto, de um calor baixo e sufocante:

- Olhe - disse a Juliana - abra as janelas.

- "Bem" - pensou Juliana - "temos cá o melro."

O melro veio com efeito às três horas. Luísa estava na sala, ao piano.

- Está ali o sujeito do costume - foi dizer Juliana.

Luísa voltou-se corada, escandalizada da expressão:

- Ah! Meu primo Basílio? Mande entrar.

E chamando-a:

- Ouça, se vier o Sr. Sebastião, ou alguém, que entre.

Era o primo! O sujeito, as suas visitas perderam de repente para ela todo o interesse picante. A sua malícia cheia, enfunada até aí, caiu, engelhou-se como uma vela a que falta o vento. Ora, adeus! Era o primo!

Subiu à cozinha, devagar - lograda.

- Temos grande novidade, Sra. Joana! O tal peralta é primo. Diz que é o primo Basílio.

E com um risinho:

- É o Basílio! Ora o Basílio! Sai-nos primo à última hora! O diabo tem graça!

- Então que havia de o homem ser senão parente? - observou Joana.

Juliana não respondeu. Quis saber se estava o ferro pronto, que tinha uma carga de roupa para passar! E sentou-se à janela, esperando. O céu baixo e pardo pesava, carregado de eletricidade; às vezes uma aragem súbita e fina punha nas folhagens dos quintais um arrepio trêmulo.

- "É o primo!" - refletia ela. - "E só vem então quando o marido se vai. Boa! E fica-se toda no arquando ele sai; e é roupa branca e mais roupa branca, e roupão novo, e tipóia para o passeio, e suspiros e olheiras! Boa bêbeda! Tudo fica na família!"

Os olhos luziam-lhe. Já se não sentia tão lograda. Havia ali muito "para ver e escutar". E o ferro, estava pronto?

Mas a campainha embaixo, tocou.

- Boa! Isto agora é um fadário! Estamos na casa do despacho!

Desceu; e exclamou logo, vendo Julião com um livro debaixo do braço:

- Faz favor de entrar, Sr. Julião! A senhora está com o primo, mas diz que mandasse entrar!

Abriu a porta da sala bruscamente, de surpresa.

- Está aqui o Sr. Julião - disse com satisfação.

Luísa apresentou os dois homens.

Basílio ergueu-se do sofá languidamente, e, num relance, percorreu Julião desde a cabeleira desleixada até às botas malengraxadas, com um olhar quase horrorizado.

- "Que pulha!" - pensou.

Luísa, muito fina, percebeu, e corou, envergonhada de Julião.

Aquele homem de colarinho enxovalhado e com um velho casaco de pano preto malfeito - que idéia daria a Basílio das relações, dos amigos da casa! Sentia já o seu chique diminuído. E instintivamente, a sua fisionomia tornou-se muito reservada - como se semelhante visita a surpreendesse! Semelhante toalete a indignasse!

Julião percebeu o constrangimento dela; disse, já embaraçado, ajeitando a luneta:

- Passei por aqui por acaso, entrei a saber se há algumas notícias de Jorge...

- Obrigada. Sim, tem escrito. Está bem...

Basílio, recostado no sofá, como um parente intimo, examinava a sua meia de seda bordada de estrelinhas escarlates, e cofiava indolentemente o bigode, arrebitando um pouco o dedo mínimo - onde brilhavam, em dois grossos anéis de ouro, uma safira e um rubi.

A afetação da atitude, o reluzir das jóias irritaram Julião.

Quis mostrar também a sua intimidade, os seus direitos; disse:

- Eu não tenho vindo fazer-lhe um bocado de companhia, porque tenho estado muito ocupado...

Luísa acudiu para desautorizar logo aquela familiaridade:

(continua...)

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