Por Eça de Queirós (1870)
O capitão fez-se todo vermelho. Ela folheou o livro e de repen te deu um pequeno grito, corou, e ficou com o álbum aberto, os olhos húmidos, risonhos, os lábios entreabertos.Olhei: na página estava desenhada uma mulher com um penteador branco, debruçada a uma janela, tendo defronte um horizonte com montanhas e o mar. Era o retrato perfeito dacondessa. Ele tinha-a visto assim na véspera, ao luar, à janela do Club-House.O conde tinha-se, aproximado.
— Como! Como! És tu, Luísa! Mas que talento! É um homem adorável, capitão. Quedesenho!
Que verdade! — Oh! Não! Não! — disse o capitão. — Ontem estava no meu quarto, em ClubHouse;instintivamente tinha o álbum aberto, e o lápis, sem eu querer, sem intenção minha, espontaneamente, fez este retrato. É um lápis que deve ser castigado!
— O quê! — gritou o conde. — É um lápis encantado. Capitão, está decidido que vaijantar comigo, logo que cheguemos a Malta. Já o não largo, meu caro! Há-de ser o nosso cicerone em Malta. Mas que talento! Que verdade!E falando em português para a condessa: — É um bebedor de cerveja, hem? Nesse momento uma sineta tocou: era o almoço.
III
Talvez estranhe, senhor redactor, a escrupulosa minuciosidade com que eu conto estes factos, conservando-lhes a paisagem, o diálogo, o gesto, toda a vida palpável do momento.Não se admire. Nem tenho uma memória excepcional, nem faço uma invenção fantasista.
Tenho por costume todas as noites, quando fico só, apontar num livro branco os factos, as ideias, as imaginações, os diálogos, tudo aquilo que no dia o meu cérebro cria ou a minhavida encontra. São essas notas que eu copio aqui.
A mesa do almoço estavam já sentados os passageiros. O nosso lugar era ao pé docapitão. O comandante do Ceilão era um homem magro, esguio, com uma pele muitovermelha, de onde saíam com a hostil aspereza com que as urzes saem da terra, duas suí ças brancas.Ao seu lado sentavam-se duas excêntricas personalidades de bordo: o Purser, que é o comissário que vela pela instalação dos via jantes e pelos regulamentos de serviço, e Mr.Colney, empregado do correio de Londres. O
Purser era tão gordo que fazia lembrar umgrupo de homens robustos metidos e apertados numa farda de ma rinha mercante. Mr.
Colney era alto e seco com um imenso nariz agudo e enristado em cuja ponta repousavapedagogicamente o arco de ouro dos seus óculos burocráticos. O Purser tinha uma fra queza que o dominava — era o desejo de falar bem brasileiro. Ti nha viajado no Brasil, admirava oMaranhão, o Pará, os grandes recursos do Império. A todo o momento se aproximava de mim pa ra me perguntar certas subtilezas da pronúnc ia brasileira. Mister Colney, esse, era gago e tinha a mania de cantar cançonetas cómi cas. Os outros passageiros eram oficiais, queiam tomar serviço na Índia, algumas misses alegre e louras, um clergyman com doze fi lhos, e duas velhas filantrópicas, pertencentes à Sociedade educadora dos pequenos patagónicos.Logo que Captain Rytmel entrou na sala, seguindo a condessa, um homem que se debatia gulosamente no prato com a anatomia de uma ave fila, encarou-o, ergueu-se, e com uma alegria ruidosa gritou:
— Viva Dios! É Captain Rytmel! Eh! Querido! Mil abraços! Es tá gordo, hombre, estámais gordo!
Envolvia-o nos abraços robustos, olhava-o ternamente com dois grandes olhos negros.Captain Rytmel depois do primeiro instante de surpresa, em que se fez pálido, apressou-se a ir apertar a mão a uma senhora, extremamente bela, que estava sentada ao pé daquele homem guloso e expansivo, o qual era um espanhol, ne gociante de sedas, e se chamavaNicazio Puebla.
A senhora, que se chamava Cármen, era cubana, e segunda mulher de D. Nicazio; eraalta, deformas magníficas, com uma car nação que fazia lembrar um mármore pálido, uns olhos pretos que pareciam cetim negro coberto de água, e cabelos anelados, abun dantes, desses a que Baudelaire chamava tenebrosos. Vestia de seda preta e com mantilha.- Estavam em Gibraltar? — perguntou Captain Rytmel.
— Em Cádis, meu caro — disse D. Nicazio. — Viemos ontem. Vamos a Malta. Voltapara a Índia? Ah! Captain Rytmel, que saudade de Calcutá! Lembra-se, hem? — Captain Rytmel — disse sorrindo friamente Cármen — esquece depressa, e bem! No entanto, nós olhávamos curiosamente para Cármen Puebla. O conde achava-a sublime. Eu, admirado também, disse baixo à condessa:
— Que formosa criatura!- Sim! Tem ares de uma estátua malcriada — respondeu ela secam ente
Olhei para a condessa, ri: — Ó prima! É uma mulher adorável, que devia ser em minia tura para se poder trazernos berloques do relógio; uma mulher que decerto vou roubar, aqui no alto mar, num escaler; uma mulher cujos movimentos parece m música condensada! Ó prima! Confesse que é perfeita... Menino! — acrescentei para o conde — passa-me depressa a soda, precisocalmantes...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.