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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

Atravessamos, calados, o rumor de Paris, sob a moleza abafada do crepúsculo de Verão, para jantar no Bosque, no Pavilhão de Armenoville, onde os Tziganes, avistando Jacinto, tocaram o Hino da Carta com paixão, com langor, numa cadência de czarda dolorosa e áspera.

E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo:

-Pois venha agora para a minha rica sede esse vinhozinho gelado! E creio que estabeleci definitivamente no espírito do Sr. D. Jacinto o salutar horror da Cidade!

O meu Príncipe percorria, catando o bigode, a Lista dos Vinhos, enquanto o Copeiro esperava com pensativa reverência:

-Mande gelar duas garrafas de champanhe St. Marceaux... Mas antes, um Barsac velho, apenas refrescada...

Água de Evian... Não, de Bussang! Bem, de Evian e de Bussang! E, para começar, um bock.

Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca cinzenta:

-Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de Montmartre, com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para descansar de tarde e dominar a Cidade...

VII

Julho findara com uma chuva refrescante e consoladora: - e eu pensava em realizar finalmente a minha romagem às cidades da Europa, sempre retardada, através da Primavera, pelas surpresas do Mundo e da Carne. Mas, de repente, Jacinto começou a rogar e a reclamar que o seu Zé Fernandes o acompanhasse, todas as tardes, a casa de Madame de Oriol! E eu compreendi que o meu Príncipe (à maneira do divino Aquiles, que, sob a tenda, e junto da branca, insípida e dócil Briseida, nunca dispensava Pátroclo) desejava Ter, no retiro do Amor, a presença, o conforto e o socorro da amizade. Pobre Jacinto! Logo pela manhã combinava pelo telefone com Madame de Oriol essa hora de quietação e doçura. E assim encontrávamos sempre superfina Dama prevenida e solitária naquela sala da rua de Lisbonne, onde Jacinto e eu mal cabíamos, sufocávamos na confusão, entre os cestos de flores, e os outros rocalhados, e os monstros do Japão, e a galante fragilidade dos Saxes, e as peles de feras estiradas aos pés de sofás adormecedores, e os biombos de Aubusson formando alcovas favoráveis e lânguidas... Aninhada numa cadeira de bambu lacada de branco, entre almofadas aromatizadas de verbena da Índia, com um romance pousado no regaço, ela esperava o seu amigo numa certa indolência passiva e mansa que me lembrava sempre o Oriente e um Harém. Mas, pelas frescas sedinhas Pompadour, parecia também uma marquesinha de Versalhes cansada do grande século; ou então, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era como uma veneziana, preparada para um Doge. A minha intrusão, na intimidade daquelas tardes, não a contrariava – antes lhe trazia um vassalo novo, com dois olhos novos para a contemplar. Eu era já o seu Cher Fernandez!

(continua...)

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