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#Contos#Literatura Brasileira

As joias da Coroa

Por Raul Pompéia (1882)

— São gravíssimas... Eu pretendia dirigir-me a V.Exa., logo que soubesse da sua chegada de Anatópolis... Soube que não tinha partido hoje, mas não me foi possível sair... Deus quis que a caridade de V.Exa. a trouxesse ao nosso casebre...

— Vim passear...

— ... Não quero guardar comigo um segredo que pode causar uma desgraça terrível... A minha fraqueza me faz recear...

A duquesa, até então interessada por uma curiosidade simplesmente generosa, sentiu-se presa de uma necessidade imprescindível de conhecer o segredo de Emília...

A sua imaginação desprendida pôs-se a criar castelos de sangue, mistérios trágicos, crimes ocultos, coisas hediondas de que fora vítima, ou quem sabe? autora aquela mulher calada e sombria...

A duquesa teve medo; mas sentia ao mesmo tempo a vertigem da curiosidade, que arrastava-a para aquele segredo formidável... Além disso, que desgraça era esta que a doente temia?... Seria tudo aquilo delírio. Mas não! A enferma apresentava uma firmeza de idéias que não fazia supor que delirasse...

— A senhora revela o segredo... não é? — perguntou a duquesa, para ver se a resposta da doente destoava das suas primeiras palavras.

— Revelo, senhora duquesa — respondeu serenamente Emília — mas somente quando aqui não houver gente demais...

A mulher de Januário não ouviu o que disse a enferma, ou fez-se desentendida...

A duquesa voltou-se para ela e disse:

— Tenha a bondade de retirar-se, porque a senhora Emília precisa falar-me em particular...

— Pois não! pois não, senhora duquesa!... Já que ela não quer que esta pobre velhinha lhe conheça os segredos...

— Estamos agora sós — falou a duquesa, vendo sair a velha —, pode contar...

Emília fez um grande esforço e sentou-se na cama.

— Quero falar sentada, sim.

A duquesa amontoou alguns travesseiros, e a doente encostou-se neles, olhando para a janela. Esteve por momentos perdida numa espécie de abstração, sem dar mostras de que lhe fosse pelo cérebro o menor pensamento tempestuoso.

A duquesa encarava religiosamente aquela mulher de faces lívidas, escavernadas, e olhos cheios de um brilho forte, mas calmo como o luar. Parecia-lhe que ia ouvir uma moribunda. A sra. de Bragantina aguardou em silêncio que Emília quisesse começar...

A doente sorriu, como se ouvisse alguma palavra agradável, e perguntou:

— A sra. duquesa não ignora talvez, que há nesta casa uma linda mocinha, afilhada de meus sogros...

— Sei... A Conceição? não?... E onde está ela?... não a via hoje...

— Está fora... V.Exa. não simpatiza com ela?... Oh! Aquela menina é uma pérola... tão boazinha!... tão alegre... Leva sempre a rir... alegrando a gente... Pois não há quem saiba a verdadeira origem desta criança encantadora...

— Ninguém?!...

— Ninguém... menos eu e um indivíduo que mora aí na quinta... Ai! meu Deus, aquilo não é um homem, é pior do que o sapo, é pior do que a víbora...

Emília passou a mão pela fronte e continuou:

— Ninguém mais sabe; ninguém mais pode saber!... É o segredo de uma vergonha... É uma história que arrasta na lama o nome de uma miserável...

A duquesa percebeu que Emília se fatigava, falando...

— Olhe... a senhora está se cansando... não fale mais... quando estiver melhor, a senhora conta...

— Não, sra. duquesa... não paro... Vou contar toda a história... Não me canso, porque, juro-lhe que o peso do meu segredo é mil vezes maior... Quero revelá-lo para ver se durmo... se fico ao menos aliviada... Há mais de quatorze anos que esta história esmaga-me a vida dia por dia, hora por hora...

... Havia em ***, uma moça, filha de pais remediados, donos de um pequeno sítio fora da cidade... Um dia passou pelo lugar um grande fidalgo cuja chegada foi ansiosamente esperada na cidade, e chegou no meio de festas e foguetaria... Era um grande fidalgo brilhantemente acompanhado... Um homem maduro, forte, corado de vida, ardente como um mancebo... Uma jovem de populaça, uma louquinha sorriu para o fidalgo ao vê-lo passar na cidade... julgou-se feliz, vendo que não ficara sem ser notado o seu sorriso...

Emília fez uma pausa, e respirou largamente como quem acaba de escalar um monte. Depois, prosseguiu:

... Essa louquinha era a filha dos donos do sítio... Fora à cidade por causa da festa... Não me demorarei nas minúcias... Na mesma noite da chegada do fidalgo a moça teve um sonho horrível... Fora deitar-se pensando na atenção que lhe dera o fidalgo... Muita gente dizia-lhe que ela era bonita... aquela atenção parecia confirmar... A vaidade da pobrezinha fora lisonjeada... Adormeceu...: via no sono dois olhos do fidalgo fitando-a como de dia na cidade, fitando com uns olhos que pareciam bocas abertas para devorar...

(continua...)

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