Por Adolfo Caminha (1896)
Na sua simplicidade provinciana a jovem esposa do bacharel começava a compreender o papel inferior da mulher na civilização, e traçava mentalmente um programa de vida, uma linha de conduta humilde e utilitária sobre as bases que lhe fornecera a experiência de alguns meses. O Rio de Janeiro aparecia-lhe agora sob um aspecto novo e convencional. Furtado representava, a seus olhos, o homem moderno, capaz de todas as perversões, de todas as hipocrisias, colocando acima da dignidade própria, o sensualismo, os gozos inconfessáveis, a luxúria sob todas as formas e as exibições públicas de toilettes à última moda. Notara, no piquenique, a insistência com que o visconde de Santa Quitéria se dirigia a D. Branca, levando-a pelo braço a passear no Jardim, fora das vistas do secretário, enquanto este, por seu turno, ia maquinando o melhor meio de pôr em prática uma traição ao amigo... e essas e outras coisas enchiam-lhe o coração de descrença e de pesar. O verdadeiro — a prudência lho dizia — era fechar os olhos a tudo e esperar que Evaristo se convencesse da asquerosa realidade... Ela nunca o havia de trair, isso nunca! Preferia morrer, preferia suicidar-se... Queria-o muito, orgulhava-se em o ter como esposo de sua alma. Ou a mulher ama o homem com quem vive e, se o ama, não o pode trair, ou não o ama e, neste caso, é a pior de todas as mulheres de vida fácil, porque diz hipocritamente que o ama para, à sombra de um responsável. cometer infâmias. Não, ela havia de respeitar seu maridinho enquanto Deus lhe desse juízo.
Arrumou a casa, espanou os móveis, passou uma vista nos jornais e sentouse entregue às suas reflexões, o espírito alvoroçado pelo enxame das idéias, num grande silêncio de tugúrio que nenhum estalido quebrava.
D. Branca, pé ante pé, foi encontrá-la na cadeira de balanço, a olhar o teto, numa abstração infinita, rodeada de jornais.
— Boa vida! — exclamou, com um sorriso afetuoso, a mulher de Furtado.
Adelaide teve um pequeno sobressalto: "— Oh!... Estava pensando..."
— Estava pensando! Isso é grave... Cai ou não cai o ministério! O imperador vai ou não vai à Europa?
A outra endireitou-se na cadeira, passou a mão nos olhos, como quem acorda, e suspirou de leve.
— Olhe que a vida é curta, menina, olhe que a vida é curta — repetiu a amiga em tom conselheiro.
— E os desgostos são muitos...
— Qual desgostos, criatura! Uma mulher nova e bonita não pode queixar-se.
E sem transição, D. Branca aludiu ao piquenique. Adelaide gabou a festa, para não contrariar a esposa do secretário, recordou o champanha, os ditos espirituosos do senhor Furtado e, propositalmente, não falou no visconde.
D. Branca, então, sem estranhar o silêncio de Adelaide, fez o elogio de Santa Quitéria, enaltecendo-lhe os modos, "a impecável distinção com que ele tratava uma senhora, a extrema delicadeza que punha nas palavras e nos menores gestos", concluindo que o visconde era, na sua opinião, "o que se podia desejar de tout à fai chic".
— Ele parece simpatizar muito com a senhora.
— Comigo? Oh não, nem diga tal coisa!
— Por quê?
— Porque não é bom, pode alguém ouvir e eu não quero — Deus me livre — uma questão com o Furtado ...
O certo, porém, é que D. Branca exultou intimamente com as palavras de Adelaide. — "Era, então, verdade que o visconde parecia Simpatizar com ela... Que lembrança?..."
Ia animada a palestra, quando a campainha soou embaixo e vozes repercutiram na escada.
Eram os dois amigos que voltavam juntos do Banco.
À noite ainda se falou no piquenique, tema inesgotável das conversações daquele dia. Ninguém se lembrava de outra coisa; o piquenique no Jardim Botânico era a grande novidade, o grande acontecimento.
Adelaide estava mais expansiva; trocou algumas palavras, diretamente com o secretário, emitiu opiniões, teve risos gostosos; enfim, já não era a mesma que D. Branca surpreendera com os olhos no teto, a pensar e que se conservara silenciosa ao almoço, enquanto as outras pessoas comentavam o piquenique.
As noites eram mais frescas então; respiravam-se as primeiras brisas do equinócio das flores, o sol ia perdendo a intensidade abrasadora e caniculante que afugentara para Petrópolis e Friburgo os satélites imperiais do monarca. A vida fluminense, por assim dizer interrompida com a ausência da aristocracia palaciana, voltava a funcionar, é verdade que sem o estímulo habitual, porque a sabedoria de Hipócrates ordenava ao imperador uma retirada para o outro continente, e os olhos do povo e da nobreza cedo começavam a chorar a ida inevitável do augusto e perpétuo defensor do Brasil. Voltavam tristes as andorinhas de Petrópolis, e essa tristeza comunicava-se ao meigo rebanho que atravessara dezembro e janeiro ao sol, enquanto a asa negra da febre amarela estendia-se pavorosa, sobre a heróica cidade.
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.