Por Inglês de Sousa (1891)
— Olá, este rato de sacristia por cá! Então, seu Macário, que faz aí que não vem tirar a sua dama? Tinha graça, saias com saias!
Os olhares apontaram para o Macário, numa corrente elétrica o riso disparou pelas bocas.
Macário quis responder com um desaforo àquele desacato, mas não valia a pena! o Manduquinha era um criançola a quem puxaria as orelhas na primeira ocasião.
Grave e digno, o sacristão afastou-se sem dizer palavra, e meteu-se pelo corredor. Um homem de sobrecasaca de brim branco, e chapéu de manilha na cabeça, passava sobraçando botijas de cerveja Bass. Era o dono da casa, o Bernardino Santana. Macário parou e cumprimentou.
— Oh, quem é você?
— Sou o Macário de Miranda Vale, sacristão da Matriz.
— Ah, meu filho me disse que havia convidado a você para espiar o baile. Que diz, hein? Está de arromba! Eu quis que tudo ficasse decente, por causa das más línguas. Tem muita cerveja, licor, vinho do Porto, chá e café. Pela madrugada há de haver chocolate. Não faça cerimônia. Eu não sou soberbo...
Macário começou um cumprimento. Não faltava ninguém, estava ali toda a gente de Silves!
— Quais, não me diga isso, retorquiu o Bernardino, são bondades que não mereço. De mais a mais falta muita gente. O diacho da pândega dos castanhais chama muito povo. Se não fossem os castanhais a casa não chegava!
— Com licença... acrescentou, seguindo o seu caminho. A orquestra dava o sinal duma contradança. Macário continuou pelo corredor até à sala de jantar, transformada em sala de palestra e de jogo. A uma mesa pequena o capitão Fonseca e o Neves Barriga jogavam o pacau, a grão de milho. A uma outra mesa, maior, jogavam o três-sete o Valadão, o Costa e Silva, o Mapa-Múndi e o Regalado, a grão de milho também. Estavam na sala, além desses, o José Antônio Pereira, o professor Aníbal e outras pessoas gradas. A um canto, solitário e sarcástico, o Chico Fidêncio rola as unhas, chupando de vez em quando o cigarro.
A sala de jantar estava cheia de fumo, havia copos de cerveja, a meio vazios, sobre as mesas. Da cozinha vinha um cheiro forte de café e de peixe frito.
— Um de rei! bradava triunfante o Neves, na ocasião em que Macário chegava. Tome lá para o seu tabaco, compadre.
Sereno e grave, o coletor respondeu:
— São coisas da sorte, felicidades de cada um. A vaza é nossa, compadre.
— Leve lá, que essa não me faz falta, acudiu generosamente o Neves. E metendo a mão no bolso traseiro da sobrecasaca tirou a caixa de couro e abriu-a, magnânimo:
— Vá lá uma pitada de amigo, compadre.
— Estou encaiporado hoje, exclamou o Mapa-Múndi, esfregando o lenço no rosto, no pescoço, nas mãos, para enxugar o suor em bica. Começou por aquela estopada do sermão, e acaba por esta infelicidade ao jogo. Macacos me comam, se eu não largo isto já.
— Tenha paciência, Guimarães, a roda anda e desanda. Não há meia hora que estamos jogando, e já você está desesperado. Tenha paciência, homem.
E o Costa e Silva baralhava as cartas, judicioso e satisfeito.
— Isto de sorte é assim mesmo, opinou o Valadão, tossindo. É como as mulheres, muda.
O Regalado aplaudiu. O Valadão tinha boas saídas! O diabo era aquela tosse, mas também porque o Valadão não deixava as xaropadas e não se tratava pela homeopatia? A homeopatia era o único sistema verdadeiro, isso estava mais que provado.
O coletor voltou-se para a mesa do três-sete, e aprovou a opinião do Regalado; ele em pessoa, era a melhor prova da excelência do sistema. Curara-se dum ar de vento pela homeopatia, depois de desenganado, mas entendia que além das doses se devia usar o Óleo de mamona.
— E o leite de maçarunduba para o peito, acrescentou o Neves intervindo. É muito bom para abertura do peito.
Para o peito, não há como o peitoral de cereja de Ayer, disse o Costa e Silva. Tenho lá na loja uma porção de caixas, é bom e barato.
— Nada de misturas! exclamou o Regalado, largando as cartas. A homeopatia só, sem mais nada! Ou bem que samos, ou bem que não samos...
Quem quiser beber as xaropadas do Felício, lá se avenha, mas por mim, fiquem certos, morria de fome ou ia plantar batatas.
— O Felício é um moço honrado, protestou o Neves, sem tirar os olhos das cartas que baralhava. Conheci o pai dele, era um bom homem, e foi muito meu amigo.
E narrou, interrompendo-se a miúdo para prestar atenção ao jogo.
— Quando a filha casou com o Joaquim Feliciano, eu disse logo:
mau casamento. E acertei, infelizmente... Quando houve a história do padre José, o velho ficou tão apaixonado que nunca mais veio à vila. E também não quis mais saber da filha, mas o Felício, não, é um moço honrado.
E acrescentou:
— Cinco, seu compadre, marco cinco!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.