Por Aluísio Azevedo (1895)
— Senhor José Leandro de Oviedo, declarei-lhe formalmente — o dote de minha filha pertence a minha filha. Dele partilhará a pessoa que se casar com ela; e se dela tiver filhos, herdará de mim, como a esposa, o que eu por minha vez herdei de meus pais, de meu sogro e de meu marido. Isso é questão assentada e nem é disso que convém tratar aqui. Entendo que tanto pode dignamente um moço pobre casar com uma moça rica, como um rico dar a mão de esposo a uma pobre, desde que essa união seja inspirada no interesse do amor e não no interesse do dinheiro. As idéias a isso contrárias são cópia de mal-entendido orgulho do homem. Entendem eles que uma mulher deve aceitar tudo das mãos do marido, e que este no entanto fica humilhado recebendo iguais benefícios da mão da consorte. Não é má essa moral! Que o homem faça do casamento um meio de enriquecer, acho indigno, como igualmente acho se o fizer a mulher; se o consórcio, porém, não for obra do dote e sim do amor, nada mais curial que os dois dividam amigavelmente entre si o que um deles possua, e que vivam felizes. Mas, graças a Deus, tanto minha filha como eu, somos bastante ricas para nos não preocuparmos em saber se o noivo dela traz ou não traz bens de fortuna; mesmo porque o casamento de Palmira não será um casamento vulgar, e coisas muito mais sérias que o dinheiro têm de ser discutidas nesta ocasião, aqui entre nós dois. Ponhamos pois de parte a questão pecuniária. Não se persuada, todavia, o senhor de que, por não trazer dote, esteja dispensado de dotá-la. A retribuição que exijo é de outra espécie, mas não é por isso menos valiosa que o dote dela...
— V. Ex.a tenha a bondade de dizer o que exige de mim. Seja o que for, estou pronto a cumprir! E o que não faria eu para alcançar tão grande e sublime prêmio?
Pois responda às perguntas que lhe vou fazer...
Estou inteiramente às suas ordens, minha senhora.
O senhor ama minha filha tanto quanto diz?
Juro que a amo tanto quanto é possível!
E será capaz de um grande sacrifício para obtê-la em casamento?
Desde que não seja um sacrifício de honra... estou disposto a tudo!
— Não, não é um sacrifício de honra, e antes de prosseguir, declaro-lhe que minha filha é pura, perfeitamente pura!
— Posso então jurar que, seja qual for o sacrifício, eu o farei, minha senhora!
— E como me provará o senhor que é um homem de honra, para que sua palavra me sirva de garantia?
— Pode V. Ex.a indagar a meu respeito de todas as pessoas que me conhecem. Até hoje tenho sido um homem honrado: nunca faltei à minha palavra, nem cometi ação que pudesse desdourar o meu caráter...
— E como garantir a sua palavra?
— Posso assinar um documento, um título de honra. Aceito as condições que V. Ex.a exigir...
— Pois então o senhor assinará uma declaração, formal e precisa, dirigida à polícia, dizendo que a ninguém devem atribuir a autoria da sua morte, porque foi o senhor mesmo quem pôs termo aos seus dias. E empenhará comigo a sua palavra de honra em como a ninguém revelará a existência desse documento; documento que será reformado de três em três meses. Aceita?
E é esse o sacrifício que V. Ex.a exige de mim?... perguntou Leandro, a sorrir.]
— Não, respondi eu, muito séria — isso é apenas a garantia da sua palavra e da minha impunidade, caso tenha eu algum dia de eliminá-lo para sempre de minha família. Esse documento só servirá na hipótese de que o senhor falte ao cumprimento de sua palavra, porque então, juro-lhe que o farei matar...
Ah!
— Sem dúvida. E ainda está em tempo de voltar atrás. O senhor ainda se não comprometeu comigo a coisa alguma.
— Recuar? Acha V. Ex.a que eu possa recuar, desistir da única felicidade que ambiciono neste mundo?!
Pense bem, antes de responder...
— Não há que pensar! Uma recusa em nada me adiantaria; V. Ex.a dispõe já de minha vida; tem-na fechada na mão! Tanto vale dar-me a morte, negando-me sua filha, como me fazendo assassinar.
O senhor só será assassinado se não cumprir com a sua palavra. Tenha a bondade de dizer o que exige de mim.
— É pouco. O senhor, depois de casado com minha filha, não coabitará com ela; o senhor morará só, numa boa casa, bem servida e bem mobiliada, que porei às suas ordens; ao passo que Palmira continuará a residir em minha companhia e só estará com o marido o tempo e às vezes que eu consentir. Serve-lhe?
Mas eu terei então de viver separado de minha esposa?
— Separado totalmente, não. O senhor poderá vê-la e estar com ela freqüentemente, não digo todos os dias, mas quase todos. Prometo mesmo que minha filha passará ao lado do marido um ou mais dias; levo até a condescendência a tolerar que fiquem juntos uma ou outra noite. Mas, desde que eu a reclame ou vá buscá-la, o senhor não poderá opor-se a que ela venha para a minha companhia...
— V. Ex.a está gracejando com certeza... ou suporá que a minha intenção é privá-la de ver a senhora sua filha todas as vezes que quiser? Mas, se assim for, valha-me Deus! não vejo razão para não morarmos juntos!...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.