Por Visconde de Taunay (1871)
A não serem tantas precauções, a fumaça nos asfixiaria, depois, quando o fogo nos chegou, quando folhas e galhos, amontoados em torno de nosso refúgio, acabaram, apesar de todas as precauções, por inflamar-se, a seu turno, dali saíram imensas línguas de fogo que como nos lambiam, ora alçando-se ao céu, ora deprimidas pelas correntes de ar variáveis e rápidas, que as impeliam, silvando furiosamente por cima de nossas cabeças. Vários homens sofreram queimaduras profundas e um até caiu morto, asfixiado.
Afinal este inimigo, esgotado pela própria violência e não achando mais alimento perto de nós, começou a afastar-se, continuando o caminho para o norte.
Quando a nossa gente, extenuada e morrendo de sede, após esta luta acrescida à fadiga da marcha, correu à fonte vizinha do acampamento, ali já achou os paraguaios emboscados. Nada menos de duas companhias foram precisas para os desalojar.
Aos últimos clarões do dia vimos este destacamento que se formara a certa distancia, juntar-se ao grosso dos esquadrões inimigos, que em boa ordem desfilavam, bandeiras desfraldadas, ao toque dos clarins, evidentemente para nos provocar e, apressando-se, ao que nos pareceu, em ocupar o local exatamente onde a princípio quisera Lopes acampar. Algumas balas que lhes despejamos vieram distender a animosidade dos nossos, exasperados pela sua cruel e covarde tentativa de queimar-nos vivos. Foi com verdadeira satisfação que verificamos quanto os nossos projetis aceleravam a marcha destes adversários odiosos.
Todavia a provação por que acabáramos de passar, naquele campo convertido em fornalha, era das que sobre o homem exercem irresistível ação física. A enorme elevação de temperatura, subitamente ocorrida, bastava para explicar o acabrunhamento em que caímos e o des" falecimento moral que se lhe seguiu. Não sabíamos, aliás, como seria possível avançar. Estavam os animais de tiro de nossos canhões esfalfados , sobretudo os bois mais ainda que as mulas, e incapazes de dar um passo. No entretanto era mais que urgente não perdermos um instante em recomeçar a marcha. Entre uma infinidade de razões não devíamos deixar tempo ao inimigo, que agora nos precedia para fortificar algum ponto à nossa frente,
impedindo-nos a passagem. Sabe-se quanto os paraguaios são aptos em movimento de terra, cavar fossos e levantar redutos. Vem-lhes a tradição dos seus mestres, os padres da Companhia de Jesus, que cultivavam todas as artes, sobretudo a arquitetura e a engenharia militar.
Este imenso perigo de nossa situação inspirou ao comandante a idéia imediata de ainda diminuir a bagagem para reforçar as juntas e parelhas das peças e carros manchegos.
Entendeu-se com os oficiais, a quem competia tal providência, e estes nada lhe objetaram.
Ficando reduzidos ao que sobre 0 corpo traziam, queimaram algumas últimas e míseras superfluidades, uma outra mala e barraca. Desde o combate de 8 nada mais tinham os soldados que carregar ou que perder; haviam atirado fora até os capotes que os embaraçavam, quando perseguiam os inimigos. As bestas, libertas da carga foram destinadas ao transporte do cartuchame
Para maior desgraça nossa tivemos, essa noite, uma chuva torrencial, verdadeiro dilúvio, que nos pôs atônitos, embora já houvéssemos experimentado outra e terrível, e, desde pela manhã, lhe víssemos os prenúncios, o acúmulo de imensas nuvens bronzeadas, constantemente sulcadas pelos relâmpagos, por entre contínuo trovejar. Durante toda a noite mantiveram-se de pé os nossos soldados encostados às espingardas que haviam fincado no solo pela baioneta. Esta vigília assinala-se em nossas reminiscências não menos penosamente do que a de 5, entre tantos outros pousos desastrosos. 1t preciso haver alguém assistido, com a alma tomada de tristeza, a estas tremendas crises da natureza, para poder avaliar exatamente a extensão de sua influência sobre o organismo humano. Recursos não os tínhamos. Não havia em todo o acampamento uma só gota de álcool capaz de entreter o calor interno que nos fugia. O fogo, última esperança, não podíamos acendê-lo sob tamanho temporal.
Foi neste estado de universal desfalecimento que ainda nos veio acabrunhar a confirmação de quanto declarara o ferido paraguaio. Curupaiti e Humaitá resistiam sempre e a guerra estava longe do seu término.
Soubemo-lo por um número de Semanário, hebdomadário de Assunção, que acabava de ser encontrado sobre um inimigo morto numa escaramuça. Espalhou-se o boato, com a rapidez de propagação das más notícias, extinguindo as últimas centelhas da confiança e da coragem: foi-nos impossível marchar a 13.
No dia seguinte caía a chuva, ainda ao alvorecer, mas já um tanto mitigada, quando deixamos este inóspito acampamento para entrar em cerrada mata que o nosso guia, com grande sagacidade, julgara propício escolher. Ali caminhamos durante mais de duas horas e não sem muitas dificuldades. Assim evitávamos, porém, o desfiladeiro que os paraguaios ocupavam e onde, sem dúvida, supunham aniquilar-nos.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. A Retirada da Laguna. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17499 . Acesso em: 28 fev. 2026.