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#Romances#Literatura Brasileira

Diva

Por José de Alencar (1864)

De ordinário, vendo-me chegar obediente, se demudava por tal forma, que estupidava-me; era então fria e glacial, como uma estátua de gelo. Já não me via, nem me ouvia: eu voltava tragando em silêncio a minha vergonha. 

Outras vezes, não: recebia-me risonha e amável. 

—Julinha está zangada! Vá dançar com ela! dizia-me então. 

Enfim, Paulo, essa mulher escarnecia de mim, a fazer pena. 

Tratava-me como ao cão da Terra-Nova que havia em sua chácara, e com o qual a vira tantas vezes brincar. Enxotava-me com a ponta do pé, para ter o prazer de me fazer voltar, lambendo o chão por onde ela passava. 

E eu vivia, espremendo em minha alma o fel dessas humilhações a ver se irritava aí a dignidade abatida. 


XVI 

TINHA caído numa tal prostração de ânimo, que Emília se comiserou de mim. 

Uma noite veio sentar-se a meu lado, e seu olhar envolveu-me daquela ternura compassiva e protetora, que dava à sua virgem beleza um perfume de ideal maternidade. 

—Como eu o tenho feito sofrer, não é verdade? me disse ela compungida. Também eu sofro! Que natureza é a minha? Parece que tenho prazer em me contrariar e afligir a mim mesma. Mas não me queira mal, Augusto. Eu lhe prometo ser outra daqui em diante; o que perturbou nossa amizade não sucederá nunca mais. 

—Deveras!... Promete repelir os seus adoradores! —Eu os afastarei tanto de mim, que nem a sombra deles se possa interpor entre nós. 

—Obrigado, D. Emília! Obrigado pela senhora, unicamente; não por mim. —Então isso lhe é indiferente. 

—Vem tarde! O mal está, feito. 

Emília teve um dos seus gestos de rainha. 

—Ah! se eu houvesse profanado a minha alma nesses arremedos de amor com que as moças se divertem antes de casar; se eu estivesse em meu quarto ou quinto namoro quando o senhor me conheceu, talvez me julgasse digna de sua afeição. Mas eu, que procuro preservar minha alma dessa profanação, mostrandolhe ao vivo o egoísmo, a cupidez e a baixeza que escondem as paixões improvisadas numa noite de baile e calculadas friamente no dia seguinte. Eu, que me guardo para aquele a quem amar, virgem de amor e imaculada... 

Sim! imaculada até dos olhares que resvalam sem penetrar-me!... 

Eu, não sou digna de sua estima, Augusto! Para mim, é tarde! —Perdão, Mila!... Eu sou um insensato! Mas meu amor é uma tão pura adoração, eu a coloquei tão alto na minha veneração, que as palavras apaixonadas desses homens me pareciam denegri-la como o fumo de um torpe incenso... Loucura!... Eu devia saber que elas não chegavam ao seu coração, como não chegam a Deus as blasfêmias do ímpio!... 

Emília respondeu-me com um sorriso delicioso, pousando a mão sobre a minha: 

—Não me eleve tanto, para que outra vez não me deixe cair de tão alto!... Esses homens eram apenas livros para mim; às vezes tinha lido na véspera sua cópia impressa. Terá ciúmes, Augusto, dos romances que eu leio? Sofreu vendo-me no teatro assistir à, representação de uma comédia? —Já lhe supliquei meu perdão. Eu estava louco! Ela foi nessa noite e nos dias seguintes de uma bondade inexaurível para mim. Voltamos aos nossos antigos passeios e às conversas íntimas. Eu estava outra vez terno e amante a seus pés, mas orguIhoso e contente do meu triunfo. 

Emília cumprira sua palavra de um modo que eu não ousaria esperar. Apareceu ainda algumas noites em casa de D. Matilde, como para mostrar-me o modo significativo por que despedia os seus adoradores; realmente soube arredá-los a tal distância que nem um deles se animou a voltar. As horas que ali passou esteve completamente isolada, ou perto de mim e ao meu braço. 

Por fim deixou de sair, e fez que cessassem as reuniões em sua própria casa, até nos domingos. Desde então parecia que ela se poupava ao mundo, e guardava toda, para entregar-se sem reserva às expansões de meu amor. 

Assim voaram dous meses de felicidade. 

Durante todo esse tempo, Emília foi de uma submissão e docilidade que me punha sempre atônito, e muitas vezes afligia. 

Tomava para comigo uma atitude de vitima resignada e contrita; parecia que minha vontade a tiranizava, quando era eu mísero quem suportava a tirania de seus caprichos. Mas ela sentia não sei que íntimo prazer em humilhar-se aos meus olhos; e tinha o talento de, cativando-me o coração e o pensamento, insinuar que obedecia ao mínimo aceno meu. 

Sucederam muitos acidentes, como o que te vou referir. 

Encomendava ela à sua modista algum elegante vestido, ou comprava qualquer novidade parisiense recentemente chegada. A primeira vez que nos víamos logo me fazia alguma pergunta neste gênero: 

—Qual é a cor mais de seu gosto? Ou então: 

(continua...)

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