Por José de Alencar (1870)
"Quando o carro partiu, arrebatando-a a meus olhos, conservei sua imagem gravada em minha alma. Não penses, porém, que eu revia a sua figura, os seus traços. Não: era uma forma imaterial, uma visão vaga e indistinta. Não me lembrava como eram suas feições; qual era a cor de seus olhos ou de seus cabelos; mas parecia-me que eu via sua alma refletida na minha.
"Senti que amava essa moça, e afaguei este sentimento, que enchia meu ser de alegrias inefáveis. Bastava-me ver de tempos a tempos a minha desconhecida e trocar com ela um olhar, ou beber-lhe de longe nos lábios o sorriso, que era emanação de seu ser.
"Estava-me reservada uma dura provança. Um dia vendo a minha desconhecida entrar no carro, descobri que ela tinha um defeito... um aleijão, é preciso dizer a palavra. A fímbria do vestido roçagando mostrou-me um pé deforme."
— Ah! exclamou Horácio, não podendo reprimir um sorriso.
— O acaso tornou-se nesse dia de uma previdência cruel. O que eu tinha visto de relance era um vulto confuso, um volume exagerado talvez pela imaginação. Podia acariciar essa ilusão, e desvanecer a impressão desagradável que sofrera; mas o desengano não se demorou. Passando nessa mesma hora pela loja onde compro calçado, vi sobre o mostrador uma botina, verdadeiro contraste da que tu achaste, Horácio!
— É curioso!
— Não havia que duvidar; era o molde do pé deforme que eu acabava de ver, mas o molde fiel!... Todos os traços fisionômicos do aleijão ali estavam bem debuxados, sobretudo na fôrma que servira para o calçado, e que ali se achava ao lado dele. Poupa-me a descrição do que vi. Era repulsivo; isto basta.
"Imagina o que devia sofrer! Não era o feio, não; era o horrível, o estupendo, que de repente caíra como um peso enorme sobre meu coração, para espremer dele, com o último soro, um amor profundo e veemente.
"A luta foi terrível, mas breve. O amor triunfou, porque era o afeto d'alma, e não o culto plástico da beleza. Hoje, se alguma vez me lembro do que vi, entristeçome pelo desgosto que ela há de ter de sua deformidade; mas sinto que por isso mesmo a amo, e a devo amar ainda mais.
"Compara agora o teu com o meu amor, e dize em consciência se tenho ou não razão. Para aniquilar o teu, não era preciso um aleijão; bastava substituir por uma forma comum esse primor que tu sonhaste, esse pezinho de silfo ou de deusa, que talvez não passe de uma ilusão."
— Ilusão!... Se eu tive a mesma prova que tu! Mas demos a questão por finda. Nem tu conseguirás me convencer, nem eu quero reviver lembranças que te pesam; Desculpa-me ter falado nisto. Como podia eu imaginar uma tal coincidência!
— É verdade!
Os dois amigos deram algumas voltas no jardim, falando de coisas indiferentes, e entrando nas salas, separaram-se.
Horácio procurou Amélia durante algum tempo; afinal, passando pela porta do toucador, viu a mão da moça que entreabria a cortina de veludo verde.
— Está triste, disse-lhe o mancebo conduzindo-a ao salão.
— Estou fatigada, respondeu a moça com frio desdém.
Horácio conhecia profundamente a fisiologia da mulher que ama; tantas vezes tinha lido e relido o livro misterioso do coração feminino, que não podia escapar-lhe a menor alteração do texto. O tom de Amélia o surpreendeu; alguma coisa havia. O que era? O que podia ser?
Poucos momentos antes ele a deixara amável e terna; uma hora depois vinha encontrá-la desdenhosa e fria.
— Ciúmes, naturalmente! pensou o leão com certo desvanecimento. Contaram-lhe alguma ou ela imaginou!
O moço resolveu sondar o coração da noiva:
— A senhora tem mais alguma coisa além da fadiga, confesse.
— Ilude-se!
— Talvez! Concordo, para não contrariá-la ainda mais.
Deram alguns passos silenciosos.
— Vá amanhã jantar conosco, sim? disse Amélia voltando-se para o cavalheiro com um sorriso inefável.
A transição não podia ser mais brusca: uma aurora no seio da noite, tal era aquele sorriso orvalhado de meiguices e graças encantadoras.
Outro, que não fosse Horácio teria respondido sem a menor hesitação o sim, que suplicavam lábios tão mimosos. Mas esse astuto César dos salões, perito na tática da guerra à mulher, não era homem que perdesse tão bom ensejo de alcançar o triunfo completo. O adversário lhe dera a vantagem da posição: cumpria aproveitála.
— Amanhã?
A moça fez com a cabeça um gentil aceno.
— Não irei.
— Obrigada.
— Não devo ir.
— Por quê?
— Se eu fosse, pediria ainda uma vez aquilo que lhe tenho pedido tantas, e que a senhora me tem recusado tão cruelmente.
— Ah!
— Bem vê!... Iria contrariá-la, aborrecê-la...
— Cuida?...
Esta palavra tinha uma reticência, e essa reticência era um sorriso que entreabria o céu de uma alma cândida.
— Então amanhã?... disse Horácio.
— Vai?
— E se eu pedir?
— Experimente!
Amélia sentou-se, e Horácio, ébrio de ventura, desceu outra vez ao jardim para desafogar as exuberâncias de sua alma.
(continua...)
ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.