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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)

Não é bem que passemos avante sem primeiro se dar conta da muita que os anos passados se teve com o Rio de Janeiro. E como el-rei D. João III, de Portugal, fosse informado como os franceses tinham feito neste Rio uma fortaleza na ilha de Vira-galham, que foi o capitão que nela residia, que se assim chamava, mandou a D. Duarte da Costa, que neste tempo era governador deste Estado, que D. Duarte fez com muita diligência, e avisou disso a S. A. a tempo, que tinha eleito para governador-geral deste Estado a Mem de Sá, a quem encomendou particularmente que trabalhasse por pôr esta ladroeira fora deste Rio. E falecendo el-rei neste conflito, sucedendo no governo a rainha D. Catarina, sua mulher, que está em glória, sabendo da vontade de S. A., escreveu ao mesmo Mem de Sá, que com a brevidade possível fosse a este Rio e lançasse os franceses dele, ao que, obedecendo o governador, fez prestes a armada, que do reino para isso lhe fora, de que ia por capitão-mor Bartolomeu de Vasconcelos; à qual ajuntou outros navios de el-rei, que na Bahia havia, e dez ou doze caravelões; e feita a frota prestes, mandou embarcar nela as armas e munições de guerra e os mantimentos necessários, na qual se embarcou a maior parte da gente nobre da Bahia, .e os homens de armas que se puderam juntar, com muitos escravos e índios forros. E indo o governador com esta armada correndo a costa, de todas as capitanias levou gente que por sua vontade o quiseram acompanhar nesta empresa; e, seguindo sua viagem, chegou ao Rio de Janeiro com toda a armada junta, onde o vieram ajudar muitos moradores de São Vicente. E foi recebido da fortaleza de Viragalham, que neste tempo era ido à França, com muitas bombardadas, o que não foi bastante para Mem de Sá deixar de se chegar à fortaleza com os navios de maior porte a varejar com artilharia grossa; e com os navios pequenos mandou desembarcar a gente numa ponta da ilha, onde mandou assestar artilharia, donde bateram a fortaleza rijamente. E como os franceses se viram apertados, despejaram o castelo e fortaleza uma noite, e lançaram-se na terra firme com o gentio tamoio, que os favorecia muito; e entrada a fortaleza, mandou o governador recolher a artilharia e munições de guerra, que nela havia; e mandou-a desfazer e arrasar por terra, e avisou logo do sucedido à Rainha, numa nau francesa, que neste Rio tomou, e como houve monção se recolheu o governador para a Bahia (visitando as capitanias todas) aonde chegou a salvamento. Mas não alcançou esta vitória tanto a seu salvo, que lhe não custasse primeiro a vida de muitos portugueses e índios tupinambás, que lhe os franceses mataram às bombardadas e espingardadas; mas, como a Rainha soube desta vitória, e entendendo quanto convinha à coroa de Portugal povoar-se e fortificar-se o Rio de Janeiro, estranhou muito a Mera de Sá o arrasar a fortaleza que tomou aos franceses, e não deixar gente nela que a guardasse e defendesse, para se povoar este Rio (o que ele não fez por não ter gente que bastasse para poder defender esta fortaleza); e que logo se fizesse prestes e fosse povoar este Rio, e o fortificasse, edificando nele uma cidade, que se chamasse de São Sebastião; e para que isto pudesse fazer com mais facilidade, lhe mandou uma armada de três galeões, de que ia por capitão-mor Cristóvão de Barros, com a qual, e com dois navios del-rei que andavam na costa, e outros seis caravelões, se partiu o governador da Bahia com muitos moradores dela, que levavam muitos escravos consigo, e partiuse para o Rio de Janeiro, onde lhe sucedeu o que neste capítulo se segue.

C A P Í T U L O LIV

Que trata de como Mem de Sá foi povoar o Rio de Janeiro.

Partindo Mem de Sá para o Rio de Janeiro, foi visitando a capitania dos Ilhéus, Porto Seguro e a do Espírito Santo, das quais levou muitos moradores, que como aventureiros os foram acompanhando com seus escravos, nesta jornada; e como chegou ao Rio de Janeiro viu que lhe havia de custar mais do que cuidava, como lhe custou; porque o achou fortificado dos franceses na terra firme, onde tinham feito cercas mui grandes e fortes de madeira, com seus baluartes e artilharia, que lhes umas naus que ali foram carregar de pau deixaram, com muitas espingardas. Nestas cercas estavam recolhidos com os franceses os índios tamoios, que estavam já tão adestrados deles, que pelejavam muito bem com suas espingardas, para o que não lhes faltava pólvora nem o necessário, por de tudo estarem bem providos das naus acima ditas. Desembarcando o governador em terra, tiveram os portugueses grandes escaramuças com os franceses e tamoios; mas uns e outros se recolheram contra sua vontade para as suas cercas, que logo foram cercadas e postas em grande aperto; mas, primeiro que fossem entradas, custou a vida a Estácio de Sá, sobrinho do governador, e a Gaspar Barbosa, pessoa de muito principal estima, e a outros muitos homens e escravos, e, contudo, foram as cercas entradas, e muitos dos contrários mortos e os mais cativos. E como os tamoios não tiveram entre si franceses, se recolheram pela terra adentro, donde vinham muitas vezes fazer seus saltos, do que nunca saíram bem. E como Mem de Sá viu que tinha lançado os inimigos da porta, ordenou de fortificar este Rio, fazendo-lhe uma estância ao longo da água para defender a barra, a qual depois reedificou Cristóvão de Barros, sendo capitão deste Rio; e assentou a cidade, que murou com muros de taipas com suas torres, em que pôs artilharia necessária, onde edificou algumas igrejas, com sua casa de Misericórdia e hospital, e um mosteiro de padres da companhia, que agora é colégio, em que os padres ensinam latim, para o que lhe faz S. A. mercê cada ano de dois mil cruzados. E acabada de fortificar e povoar essa cidade, ordenou o governador de se tornar para a Bahia, deixando nela por capitão a seu sobrinho Salvador Correia de Sá, com muitos moradores e oficiais de justiça e de fazenda, convenientes ao serviço del-rei e ao bem da terra, o qual Salvador Correia defendeu esta cidade alguns anos mui valorosamente, fazendo guerra ao gentio, de que alcançou grandes vitórias, e dos franceses, que do Cabo Frio os vinham ajudar e favorecer, aos quais foi tomar, dentro do Cabo Frio, uma nau que passava de duzentos tonéis, com canoas que levou do Rio de Janeiro, com as quais a abalroou e tomou à força de armas. A esta cidade mandou depois el-rei D. Sebastião por capitão e governador Cristóvão de Barros, que a acrescentou, fazendo nela em seu tempo muitos serviços a S. A., que se não podem particularizar em tão pequeno espaço.

C A P Í T U L O LV

Em que se trata de como foi governador do Rio de Janeiro Antônio Salema.

(continua...)

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