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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

Mas, vendo uma barcaça escura remar para o Caimão, baixei depressa ao beliche a pôr o meu capacete de cortiça, calçar luvas pretas, para pisar decorosamente a terra do meu Salvador. Ao voltar, bem escovado, bem perfumado, achei a lancha atulhada. E descia, com alvoroço, atrás de um franciscano barbudo, quando o amado embrulhinho da Mary escapou dos meus braços carinhosos, rolou em saltos pela escada como uma péla, raspou a borda do bote... Ia sumir-se nas águas amargas! Dei um berro! Uma das religiosas apanhou-o, ligeira e cheia de misericórdia.

Agradecido, minha senhora! - gritei, enfiado. - E um pacotezinho de roupa! Seja pelo sagrado amor de Maria!

Ela refugiou-se modestamente na sombra do seu capuz; e como eu me acomodara, mais longe, entre Topsius e o franciscano barbudo que cheirava a alho - a santa criatura guardou o embrulho sobre o seu puro regaço, deitou-lhe mesmo por cima as contas do seu rosário.

O arrais, empunhando o leme, bradou: "Alá é grande, larga!" Os árabes remaram cantando. O sol surgiu por trás de Jafa. E eu, encostado ao meu guarda-chuva, contemplava a pudica religiosa que assim levava, ao colo, para a terra de castidade, a camisinha da Mary.

Era nova; e entre o bioco triste de lustrina preta parecia de marfim o seu rosto oval, onde as pestanas longas punham a sombra de uma dolente melancolia. Os beiços tinham perdido toda a cor e todo o calor, para sempre inúteis, destinados somente a beijar os pés arroxeados do cadáver de um deus. Comparada com Mary; rosa de Iorque aberta e sensual, perfumando Alexandria, esta pendia como um lírio ainda fechado e já murcho na umidade de uma capela. Ia certamente para algum hospício da Terra Santa. A vida para ela devia ser uma sucessão de chagas a cobrir de fios e de lençóis, a estender por cima de faces mortas. E era decerto o medo do Senhor que a tornava assim tão pálida.

- Bem tola! - murmurei eu.

Pobre e estéril criatura! Percebeu ela por acaso o que continha aquele embrulho pardo? Sentiu ela subir de lá, e espalhar-se no escuro do seu capuz, um perfume estranho e enlanguescedor de baunilha e de pele amorosa? A quentura do leito revolto, que ficara nas rendas da camisa, atravessou por acaso o papel e veio aquecer-lhe brandamente os joelhos? Quem sabe! Durante um momento pareceu-me que uma gota de sangue novo lhe roseou a face desmaiada, e que debaixo do hábito, onde brilhava uma cruz, o seu seio arfou, perturbado; mesmo julguei ver lampejar, por entre as suas pestanas, um raio fugitivo e assustado, procurando as minhas barbas cerradas e pretas... Mas foi só um relance. Outra vez, sob o capuz, o rosto recaiu na sua frialdade de mármore santo; e sobre o seio submetido, a cruz pesou, ciumenta e de ferro. Ao seu lado, a outra religiosa, rechonchuda e de lunetas, sorria para o verde-mar, sorria para o sábio Topsius - com um sorriso claro que saía da paz do seu coração e lhe punha uma covinha no queixo.

Apenas saltamos na areia da Palestina, corri a agradecer, de capacete na mão, garboso e palaciano.

- Minha irmã, estou muito penhorado.. Grande desgosto se se perdesse o pacotezinbo!... E de minha tia, uma encomenda para Jerusalém... Lá lhe contarei... A Titi é muito respeitadora de cousas santas; pela-se pela caridade...

Muda, no refolho do seu capuz, ela estendeu-me o embrulhinho com a ponta dos dedos, débeis e mais transparentes que os de uma Senhora da Agonia. E os dous hábitos negros sumiram-se, entre muros faiscantes de cal nova, numa viela em escadas onde apodrecia o cadáver de um cão sob o vôo dos moscardos. Eu murmurei ainda: "Bem tola!"

Quando me voltei, Topsius, à sombra do seu guarda-sol, conversava com o homem prestante, que foi nosso guia através das terras da Escritura. Era moço, moreno, espigado, com longos bigodes esvoaçando ao vento; usava jaqueta de veludilho e botas brancas de montar; as coronhas prateadas de duas pistolas, emergindo de uma faixa de lã negra, armavam-lhe heroicamente o peito forte; e trazia amarrado na cabeça, com as pontas e as franjas atiradas para trás, um lenço rutilante de seda amarela. O seu nome era Paulo Pote; a sua pátria o Montenegro; e toda a costa da Síria o conhecia pelo alegre Pote. Jesus, que alegre matalote! A alegria faiscava-lhe na pupila azul-clara; a alegria cantava-lhe nos dentes incomparáveis; a alegria estremecia-lhe nas mãos buliçosas; a alegria ressoava-lhe no bater dos tacões. Desde Áscalon até aos bazares de Damasco, desde o Carmelo até aos pomares de Engada - ele era o alegre Pote. Estendeu-me rasgadamente a bolsa de tabaco perfumado. Topsius maravilhou-se do seu saber bíblico. Eu, com palmadas pelo ventre, gritei-lhe logo - meu gajo! E, depois de valentes apertos de mão, fomos para o Hotel de Josafate firmar o nosso contrato, bebendo vasta cerveja.

(continua...)

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