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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Com cuidado, tirou o casaco ao Desembargador, desabotoou-lhe com respeito as calças, as ceroulas de linho, e acocorando-se, examinou a parte ferida de onde corria um fio de sangue breve, como um pedacinho de retrós vermelho.

– É muito fundo? – gemeu o magistrado.

– Uma bagatela, Sr. Desembargador, uma arranhadura.

Limpou com a toalha o breve fio de sangue; encheu a bacia de água fresca, tomou a esponja e pedindo ao respeitável magistrado que se agachasse, ele mesmo, Alípio Abranhos, da casa dos Noronhas, esponjou com amor a nádega obesa de S. Exª!

– Que alívio! – roncava o magistrado, respirando com esforço.

– Fresquinho, hem, Sr. Desembargador?

E esponjava solícito, tomava mais água na cova da mão, chapinhava a carne mole.

– Melhor, Sr. Desembargador?

– Mais aliviado, amigo, mais aliviado...

Depois, com uma toalha limpa, secou a pele, repuxou a camisa, apertou as ceroulas de S. Exª, que o deixava fazer, com os braços moles, as pálpebras mórbidas, bufando, a face lívida, toda banhada de suores dolorosos.

Depois, deu-lhe um copo de orchata, acomodou-o no canapé, e agarrando no chapéu, correu a buscar uma tipóia.

Ele mesmo o acompanhou a casa – recomendando ao cocheiro que fosse devagar,.44 para que os solavancos não irritassem a parte ferida.

O Desembargador esteve uma semana no leito: e ao médico que o vinha ver, ao padre Augusto, a D. Laura, a Virgínia, a todos os amigos da casa, repetia:

– Aquilo foi o meu Anjo salvador!

Referia-se a Alípio, que, dois meses depois, numa manhã de Outubro, casava com D. Virgínia Sarmento Amado, encantadora herdeira de doze mil cruzados de renda.

Foram passar a lua de mel para a casa de Campolide. Porém, deste período de felicidade profunda, nada deve escrever a minha pena. A alcova nupcial tem o augusto recato de um templo, e à sua porta o anjo dos amores delicados vela com as asas abertas, o olhar risonho, e o dedo sobre os lábios.

Deixemos, pois, este par enamorado passear sob os murmurosos arvoredos da quinta, ao rítmico som das águas que cantam nas bacias de mármore – e vejamos o que a essa hora se passava na terra.

Para qualquer nação que volvamos os nossos olhos, vemos, sob a aparente tranquilidade, fazer-se uma muda transformação interior.

É este realmente o momento em que se preparam os factos que deram à história do século XIX o seu carácter grandioso.

Ali vemos, no pequeno Estado da Prússia, um militar com cara de freire velho, sob um capacete de forma bárbara, preparar ocultamente, por desconhecidos processos científicos, a destruição infalível dos antigos exércitos, comandados pelos métodos antigos da inspiração e da bravura; e ao lado, um grosso diplomata de cachaço de touro, tão seguro de si como se tivesse na mão o dado de ferro do destino, tramando apoderar-se da Europa Central, dilatando o pequeno Estado do Brandeburgo até às proporções de um Império Germânico, e soprando um esguio Hohenzollern devoto, até lhe dar a corpulência heróica de um César gótico.

Na Itália, vemos a sinistra matilha republicana e mazinista, a que se aliou, ai! uma dinastia gloriosa alucinada de ambição, arremessar-se, aos clamores fanfarrões de um Garibaldi, contra o trono de S. Pedro – onde um velho sublime ora imperturbavelmente, e aos que lhe arrancam a posse de algumas léguas de terra, responde pela voz de um concílio, apoderandose do domínio ilimitado da alma universal.

Na Espanha, vemos generais despeitados e insensatos, sôfregos de honras, tramar contra o princípio de que emanam e o trono que lhes dá significação; e decerto veremos mais tarde as paixões plebeias, soltas por eles do garrote providencial que as mantinha, precipitarem-se através da nação espanhola, destruindo tudo sem discernimento, como touros devastadores à solta numa horta bem plantada.

Olhemos para a Inglaterra, esse disforme império artificial, maior que nenhum império clássico, feito de continentes distantes ligados entre si por fios telegráficos que pousam no fundo dos mares. Essa imensa mole mal equilibrada ameaça a cada momento dessoldar-se, aqui e além, na Índia, na África, na Oceânia; uma oligarquia, mais orgu-lhosa do seu domínio universal que o patriciato romano, mal a pode manter unida pelo ferro e pelo ouro; e no entanto a revolução social, com um movimento preciso, compassado, geométrico, automático, vai preparando o fim dessa oligarquia obsoleta e a dissolução do imenso Império balofo.

Na Rússia autocrática, a só vontade de um homem, do Homem, do Czar, realiza com uma palavra o que a América do Norte só pode conseguir dispendendo milhares de milhões e regando o solo de sangue: na Rússia e na América os escravos são livres. No império, uma assinatura consegue o que na república só pode alcançar-se com uma guerra civil – profunda lição que nos dá o poder social concentrado nas mãos de um eleito.

(continua...)

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