Por Eça de Queirós (1870)
Eu tinha simpatizado com aquele oficial, já pelo seu perfil al tivo e delicado, já pela feição original do seu pensamento, já por uma gravidade triste que havia na sua atitude. Eramoço, capitão do artilharia, e batera-se na Índia. Era louro e branco; mas o sol do Indostão tinha amadurecido aquela carnação fresca e clara, aprofundado a luz dos olhos, e dado aoscabelos uma cor fulva e ar dente.
Passeávamos, conversando na esplanada, quando, repentinamente, se abriu uma janela, e uma mulher com um penteado bran co apoiou-se levemente na varanda, e ficou olhando ohorizonte luminoso, a melancolia da água. Era a condessa.
O luar envolvia-a, empalidecia-lhe o rosto, adelgaçava-lhe o corpo, dava à sua formatoda a espiritualização de uma figura de antiga legenda: o seu penteador caía largamente ao redor dela, em grandes pregas quebradas.
— Que linda! — disse o oficial parando, com um olhar admira do e profundo. — Quem será? — Somos um pouco primos — disse eu rindo. — É casada. É a condessa de W. Parte para Malta amanhã no paquete. A bordo le var-lhe-ei o meu amigo para a entreter contandolhehistórias da Índia. Adora o romanesco, aquela pobre condessa! Em Portugal, nem nos romances o há, Caçou o tigre, capitão?
— Um pouco. Fala o inglês sua prima?Como uma portuguesa, mal; mas ouve com os olhos, e adi vinha sempre.
Separámo-nos.- Arranjei-lhe um romance, um lindo romance, prima — dis se eu entrando na sala, onde o conde escrevia cartas, cachimbando: — um romance onde se caçam tigres com rajás, onde há bayaderas, florestas de palmeiras, guerras inglesas e elefantes...- Ah! como se chama?
— Chama-se Captain Rytmel, oficial de artilharia, 28 anos, em viagem para Malta,bigode louro, um pouco da Indianos olhos, muito da Inglaterra na excentricidade, um perfeito gentleman.
— Um bebedor de cerveja! — disse ela, desfolhando a flor de cactos.- Um bebedor de cerveja! — gritou o conde erguendo a cabe ça com uma indignação cómica. — Minha querida, diante de mim, pelo menos, não digas isso se não queres fazer-mecabelos brancos! Estimo os Ingleses e respeito a cerveja. Um bebedor de cerveja! Um moço daquela perfeição!... — murmurava ele, fazendo ranger a pena.
Ao outro dia subíamos para bordo do paquete da Índia: o Cei lão. Eram 7 horas d amanhã. O morro de Gibraltar, mal acordado, tinha ainda o seu barrete de dormir feito de nevoeiro. Havia já via jantes e oficiais sobre a tolda. O chão estava húmido, havia uma confusão violenta de bagagens, de cestos de fruta, de gaiolas de aves; a escada de serviçovia-se cheia de vendedores de Gibraltar. A condessa recolheu-se à cabina para dormir um pouco. Às 9 ho ras quase todos os passageiros que tinham entrado em Gibraltar e os quevinham de Southampton estavam em cima; o vapor fume gava, os escaler es afastavam-se, o nevoeiro estava desfeito, o sol dava uma cor rosada às casas brancas de Algeciras e de S. Roque, e ouvia-se em terra o rufar dos tambores.A condessa, sentada numa cadeira indiana, olhava para as pe quenas povoações espanholas que assentam na baía.O oficial inglês, Captain Rytmel, conversava a distância com o conde, que adorava já a sua figura cativante e altiva, as suas aventuras da Índia, e a excêntrica forma do seu chapéu, que ele trazia com uma graça distinta e audaz. O capitão tinha na mão um álbum e um lápis.- Captain — disse-lhe eu tomando-lhe o braço -, vou levá-lo a minha prima, a senhora condessa. Esconda os seus desenhos, ela é implacável e faz caricaturas.A condessa estendeu ao inglês uma pequena mão, magra, ner vosa, macia, com umas unhas polidas como o marfim de Diepa.
— Meu primo disse-me, Captain Rytmel, que tinha mil histó rias da Índia para mecontar. Já lhe digo que lhe não perdoo nem um tigre, nem uma paisagem. Quero tudo! Adoro a Índia, a dos Índios, já se vê, não a dos senhores Ingleses. Já esteve em Malta? É bonita?- Malta, condessa, é um pouco de Itália e um pouco do Orien te. Surpreende por isso. Tem um encanto estranho, singular. De resto é um rochedo.
— Demora-se em Malta? — perguntou a condessa.- Uma semana.
A condessa estava torcendo a sua luva; ergueu os olhos, pousou-os no oficial, tossiubrandamente, e com um movimento rápido: — Ah! Vai deixar-me ver o seu álbum. — Mas, condessa, está branco, quase branco; tem apenas de senhos lineares, apontamentos topográficos. — Não creio; deve ter paisagens da Índia, há-de haver aí um tigre, pelo menos, a não ser que haja uma boyadera!E, com um gesto de graça vitoriosa, tomou o álbum da mão do oficial.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.