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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

Maurício sacudia os ombros. Ó, tudo isso pertencia a um passado arcaico, quase lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel remobiliara a sala com veludos Morris, grossas alcachofras sobre tons de Açafrão, já o Renanismo passara, tão esquecido como o Cartesianismo...

-Tu ainda és do tempo do culto do Eu?

O meu Príncipe suspirou risonhamente:

-Ainda o cultivei.

-Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o Nietzismo, o Feudalismo espiritual... Depois grassou o Tolstoísmo, um furor imenso de renunciamento neocenobítico. Ainda me lembro dum jantar em que apareceu um mostrengo dum eslavo, de guedelha sórdida, que atirava olhos medonhos para o decote da pobre condessa de Arche, e que grunhia com o dedo espetado: - “Busquemos a luz, muito pôr baixo, no pó da terra!” – e à sobremesa bebemos à delícia da humildade e do trabalho servil, com aquele Champanhe Marceaux granitado que a Matilde dava nos grandes dias em copos da forma do Sã-Graal! Depois veio Emersonismo... Mas a praga cruel foi o Ibsenismo! Enfim, meu filho, uma Babel de Éticas e Estéticas. Paris parecia demente. Já havia uns desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas nossas, coitadas, iam descambando para o Falismo, uma moxinifada místico-brejeira, pregada pôr aquele pobre La Carte que depois se fez Monge Branco, e que anda no Deserto... Um horror! E uma tarde, de repente, toda esta massa se precipita com ânsia para o Ruskinismo!

Eu, agarrado à bengala, bem no chão, sentia como um vendaval que redemoinhava, me torcia o crânio! E até Jacinto balbuciou, esgazeado:

-O Ruskinismo?

-Sim, o velho Ruskin... John Ruskin!

O meu ditoso Príncipe compreendeu:

-Ah, Ruskin!... As sete lâmpadas da Arquitetura, A Coroa de Oliveira Brava... É o culto da Beleza!

-Sim! O culto da Beleza – confirmou Maurício. Mas a esse tempo eu, enjoado, já descera de todas nuvens vãs... Pisava um chão mais seguro, mais fértil.

Deu um sorvo lento ao absinto, cerrando as pálpebras. Jacinto esperava, com o seu fino nariz dilatado, como para respirar a Flor de Novidade que ia desabrochar:

-E então? então?...

Mas o outro murmurou, dispersamente, pôr entre reticências em que se velava:

-Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de gênio, que percorreu toda a Índia... Viveu com os Toddas, esteve nos mosteiros de Grama-Khian e de Dashi-Lumbo, e estudou com Gengen-Chutu no retiro santo de Urga... Gengen-Chuty foi a décima Sexta encarnação de Guatama, e era portanto um Boddi-sattva... Trabalhamos, procuramos... Não são visões. Mas fatos, experiências bem antigas, que vêm talvez desde os tempos de Cristna...

Através destes nomes, que exalavam um perfume triste de vetustos ritos, arredara a cadeira. E de pé, deixando cair sobre a mesa, distraidamente, para pagar o absinto, moedas de prata e moedas de cobre, murmurava com os olhos descansados em Jacinto, mas perdidos noutra visão:

-Pôr fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade dentro da suprema pureza da Vida. É toda a ciência e força dos grandes mestres Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a luta, eis o obstáculo! Não basta mesmo o Deserto, nem o bosque do mais velho templo no alto Tibete... Ainda assim, meu Jacinto, já obtivemos resultados bem estranhos. Sabes as experiências de Tyndall, com as chamas sensitivas... O pobre químico, para demonstrar as vibrações do som, tocou quase às portas da verdade esotérica. Mas quê! homem de ciência, portanto homem de estupidez, ficou aquém, entre as suas placas e suas retortas! Nós fomos além. Verificamos as ondulações da Vontade! Diante de nós, pela expansão da energia do meu companheiro, e em cadência com o seu mandado, uma chama, a três metros, ondulou, rastejou, despediu línguas ardentes, lambeu uma alta parede, rugiu furiosa e negra, resplandeceu direita e silenciosa, e bruscamente abatida em cinza morreu!

E o estranho homem, com o chapéu para a nuca, ficou imóvel, de braços abertos e os olhares esgazeados, como no renovado assombro e no transe daquele prodígio. Depois, recaindo no seu modo fácil e sereno, acendendo devagar um cigarro:

-Uma destas manhãs, Jacinto , apareço no 202, para almoçar contigo, e levo o meu amigo. Ele só come arroz, um pouco de salada, e fruta. E conversamos... Tu tinhas um exemplar do Sepber-Zerijab e outro do Targun d’Onkelus. Preciso folhear esses livros.

Apertou a mão do meu Príncipe, saudou este assombrado Zé Fernandes, e serenamente seguiu pela quieta rua, com o chapéu de palha para a nuca, as mãos enterradas nas algibeiras, como um homem natural entre coisas naturais.

-Ó Jacinto! Quem é este bruxo? Conta!... Quem é ele, santíssimo nome de Deus?

Recostado na vitória, ajeitando o vinco das calças, o meu Príncipe contou, concisamente. Era um nobre e leal rapaz, muito rico, muito inteligente, da antiga casa soberana de Mayolle, descendente dos Duques de Septimania... E murmurou, através do costumado bocejo:

-Ó desenvolvimento supremo da vontade!... Teosofia, Budismo esotérico... Aspirações, decepções... Já experimentei... Uma maçada!

(continua...)

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