Por Euclides da Cunha (1909)
A aritmética tornava-se quase lírica nesta dilatação de números maravilhosos. As medidas governamentais do grande Marechal tiveram para logo o alento dos mais enérgicos estímulos patrióticos, a par do anseio de fortuna dos mais desassombrados aventureiros.
Os peruanos, iludidos durante largo tempo no litoral estéril, viam pela primeira vez o novo mundo. E a conquista da terra, numa de suas fases mais agudas, desenrolou-se em toda a plenitude.
Então, contravindo a tantas esperanças sob o amparo das mais lúcidas resoluções governativas — leis, regulamentos e decretos enfeixando-se num volumoso compêndio de administração fecunda e militante — principiou uma fase desalentadora de brilhantes tentativas abortícias.
As colônias planeadas, e para logo erigidas, espelhavam por algum tempo naqueles rincões solitários a fantasmagoria de um progresso artificial; e extinguiamse prestes. Já em 1854 o governador de Loreto, pueblo obscuro cujo nome irradia hoje abrangendo aqueles lugares, ao informar do estado de duas colonizações sucessivas que ali se estabeleceram, centralizadas em Caballo-Cocha, próximas à fronteira do Brasil, indicava-as completamente extintas. E idênticos malogros generalizavam-se por toda a banda.
Eram naturais. As vagas humanas nas paragens virgens não se aquietam de súbito. Carateriza-as nos primeiros estádios a instabilidade inevitável imposta pela própria força viva adquirida no movimento da marcha. Precedendo ao equilíbrio das culturas, surge a pesquisa dos frutos ou das riquezas imediatas, como a permitir aos recém-vindos, na vida errante das colheitas, dos garimpos, dos pastoreios ou das caçadas, um reconhecimento imprescindível do seu novo habitat, antes da escolha de uma situação de descanso.
É a eterna função social do nomadismo, que mesmo no Peru já se manifestara na azáfama devastadora dos cascarileros, desvendando as paragens ignotas que vão dos cerros de Carabaya às vertentes mais afastadas do Beni.
Este incentivo, porém, ali, estava extinto.
Por aquele tempo, uma tenaz explorador, Marckam, comissionado pelo governo inglês, andava nas regiões da quina calisaya; e conseguira transplantar tão prontamente para as Índias aquele elemento da fortuna peruana que, já em 1862, mais de quatro milhões de árvores, em Darjeeling, com a produção extraordinária de 370 toneladas de quinino, iniciavam uma concorrência triunfante no primeiro assalto. Deste modo, as paragens tão ansiosamente apetecidas mostravam-se, ante os novos povoadores, desnudas desses recursos que em toda a parte se figuram adrede predispostos a que não se desenfluam as esperanças sempre exageradas dos que emigram.
Não lhes bastariam, certo, as bombonaças para os chapéus de palha oriundos da indústria graciosa das mulheres do Moyobamba, ou os cascalhos auríferos das vertentes do Pastaza guardadas pelos huambizas ferocíssimos.
Assim, todos os atos, e magníficos decretos, e lúcidos regulamentos, e generosas concessões de terras, do último governo de Castilla, desfechariam nos mais lastimáveis insucessos se, precisamente na derradeira quadra da sua presidência, e no mesmo ano (1862) em que a cultura indiana da quina arrebatava daqueles desertos o seu maior atrativo _ um anônimo, um outro imortal humílimo evadido da nossa História, não aparecesse, eclipsando de golpe os mais imponentes lances administrativos e oferecendo aos peruanos o reagente enérgico que os alentaria até aos nossos dias na rota da Amazônia.
Um brasileiro descobriu o caucho; ou, pelo menos, instituiu ali a indústria extrativa correspondente.
No reconstruir este trecho da nossa História, que versado mais tarde por um historiador merecerá o título de "Expansão Brasileira na Amazônia", não vamos desacompanhados.
Diz-nos um narrador sincero:
"Antes do ano de 1862, não tinha ainda sido explorada a incalculável riqueza da goma elástica... Depois da entrada de alguns brasileiros para o território do Departamento, principalmente do laborioso José Joaquim Ribeiro, começou este rico produto a figurar no catálogo dos que o Departamento exporta para o Brasil. A primeira quantidade exportada foi de 2.088 quilogramas, produto dos ensaios daquele brasileiro que muito teria contribuído para o desenvolvimento dessa indústria, se ao iniciá-la não encontrasse contrariedades nascidas do cupidismo de alguns agentes subalternos que contra ele exerceram todos os ardis..."
(continua...)
CUNHA, Euclides da. À Margem da História. 1909. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16624. Acesso em: 17 jun. 2026.