Por Lima Barreto (1909)
Havia trechos em que ele insistia com particular agrado. Via-se que neles repousava a conversão dos espíritos. Não me esqueci que ele amava repetir que a Física, a Química, a Biologia, a Sociologia, todas as ciências e todo o esforço humano de qualquer ordem tinham preparado lentamente e tendiam para a religião da humanidade; era ela como a coroação, a cúpula do edifício do pensamento e dos sentimentos da humanidade. Citava trechos de grandes poetas nesse sentido, e procurava dados históricos. Quando se oferecia ocasião, esboçava a ordem futura, cotejando-a com a presente. O médico, o professor e o sacerdote estariam juntos em um mesmo homem, cujos serviços seriam gratuitos; todos exerceriam um ofício manual e os capitais acumulados em poucas mãos seriam empregados em beneficio social. A quantas necessidades presentes daquele auditório não iria dar remédio a promessa daquela sociedade a vir?! Os homens têm amor à utopia quando condensada em fórmulas de felicidade; e aqueles militares, funcionários, estudantes, encontravam naquelas afirmações, repetidas com tanta segurança e cuja verdade não procuravam examinar, um alimento para a fome de felicidade da espécie e um consolo para os seus maus dias presentes.
Pelo caminho, ouvi repetirem as palavras do Mestre e apoiarem-se nelas para criticar atos do Governo, projetos da Câmara — esse viveiro de bacharéis ignorantes que não sabem Matemática.
Observei que o meu próprio amigo Leiva partia também dessa crença pitagórica das virtudes da Matemática para condenar e criticar o governo e os governantes; entretanto, além daquelas explicações filosóficas do Senhor Teixeira Mendes, ele sabia pouco mais do que as quatro operações na ciência divina.
— Vê tu, dizia-me ele, quem no Brasil tem conhecimentos mais seguros que o T. Mendes? E acrescentava logo: como se pode acreditar que, na nossa época científico-industrial, um homem que não conhece como se fabricam os encanamentos d'água, as propriedades do ferro e o seu tratamento industrial, as teorias hidráulicas, poderá aquilatar e dirigir os serviços de uma cidade moderna, cuja primeira necessidade é um seguro e farto abastecimento d'água?
Leiva gostava de falar; e, quando a matéria lhe agradava, o cansaço dificilmente vinha. Eu amava ouvi-lo, pois tinha uma bela voz, acariciante e de agradável timbre, e que vibrava musicalmente ao chegar-lhe a paixão. Continuou:
— Antigamente, todos os governantes tinham, ou antes, estavam ao par do saber de seu tempo, e só com a necessidade do estabelecimento de novas ciências—o que fez a especialização dos conhecimentos — deixaram tão salutar regra. Hoje porém, graças ao sobre-humano cérebro de Comte — o maior talvez depois de Aristóteles — o saber voltou à unidade útil e moral dos outros tempos. A síntese foi feita e os estadistas verdadeiramente dignos, servidores práticos da Humanidade, poderão encontrar nela um seguro farol para guiá-los.
Não me animei a perguntar-lhe se a síntese de que falava continha também a questão do abastecimento d'água. Senti a sinceridade momentânea de suas palavras, ditas até com certo entusiasmo; e quando alguém me fala desse modo, encho-me de respeito e de amizade. Vínhamos descendo a rua e assim continuamos um instante calados. Houve uma ocasião, em que, quase sem refletir, perguntei ao Leiva:
— Como você é ao mesmo tempo anarquista e positivista — uma doutrina de ordem, de submissão, que espera a vitória pelo resultado fatal das leis sociológicas?
— Ora você! Eu quero uma confusão geral, um abalo completo desta ordem iníqua, para então... O Mendes é simples, e bom, pensa que isso vai como ele quer: mas é preciso... Olhe, o Cristianismo...
Olhei um instante a seda azul do mar levemente enrugada e sorvi um pouco da viração que soprava da barra; depois perdemo-la de vista e a viração deixou de açoitar-nos com força e fomos descendo a Rua da Lapa, transitada, ladeada de sobrados, donde pendiam mulheres públicas em peignoir, como descoradas orquídeas de milionário europeu, cujo brilho natural o ambiente de estufa lhes tirou ou não soube dar. Nós olhamo-las com um pouco da nossa mocidade e com um pouco das preocupações que trazíamos; e caminhamos para o Passeio Público, onde íamos esquecer que não jantávamos, olhando a turba resignada que aproveitava o domingo.
Uma banda de música enchia o jardim com os seus estridentes compassos. Nas proximidades do coreto, Leiva encontrara um conhecido com quem ficara a conversar. Eu não me detive; avancei vagarosamente para o terraço que deita para o mar. O meu companheiro veio ter comigo meia hora depois e vinha acompanhado de um outro rapaz. Apresentou-nos. Um instante, contemplei a angustiada cabeça do desconhecido, o seu ar orgulhoso e todo ele esguio e alto, ligeiramente curvado como um teimoso caniço que não se pôde erguer completamente depois das muitas tempestades que suportou.
— O Plínio, Caminha, disse Leiva, vinha-me contando o seguinte: há dias, o Florêncio — conheces? Fiz sinal que não e ele insistiu: o Florêncio que redige a seção do Jornal do Rio — conheces, não é? Pois bem; o Florêncio entrou na Portier e pôs-se a ler um livro. De quando em quando mudava de lugar, aproximando-se da porta. Assim leva hora e tanto. Ele, porém, não tinha reparado que os empregados vigiavam-no. Num dado momento, meteu a brochura debaixo do paletó e encaminhou-se para a porta. Os caixeiros cortaram-lhe os passos, intimando-o a entregar a obra. Florêncio ataranta-se, prontifica-se a pagar, o dinheiro cai e...
— Pagou? perguntei.
(continua...)
BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.