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#Romances#Literatura Brasileira

O triste fim de Policarpo Quaresma

Por Lima Barreto (1915)

O desconhecido entrou e sentou-se. Era um tipo comum, mas o que havia nele de estranho era a gordura. Não era desmedida ou grotesca, mas tinha um aspecto desonesto. Parecia que a fizera de repente e comia, a mais não poder, com medo de a perder de um dia para outro. Era assim como a de um lagarto que entesoura enxúndia para o inverno ingrato. Através da gordura de suas bochechas, via-se perfeitamente a sua magreza natural, normal, e se devia ser gordo não era naquela idade, com pouco mais de trinta anos, sem dar tempo que todo ele engordasse; porque, se as duas faces eram gordas, as suas mãos continuavam magras com longos dedos fusiformes e ágeis.

O visitante falou:

- Eu sou o Tenente Antonino Dutra, escrivão da coletoria...

- Alguma formalidade? indagou medroso Quaresma.

- Nenhuma, major. Já sabemos quem o senhor é; não há novidade nem nenhuma exigência legal.

O escrivão tossiu, tirou um cigarro, ofereceu outro a Quaresma e continuou:

- Sabendo que o major vem estabelecer-se aqui, tomei a iniciativa de vir incomodá-lo... Não é cousa de importância... Creio que o major...

- Oh! Por Deus, tenente!

- Venho pedir-lhe um pequeno auxílio, um óbulo, para a festa da Conceição, a nossa padroeira, de cuja irmandade sou tesoureiro.

- Perfeitamente. É muito justo. Apesar de não ser religioso, estou...

- Uma cousa nada tem com a outra. É uma tradição do lugar que devemos manter.

- É justo.

- O senhor sabe, continuou o escrivão, a gente daqui é muito pobre e a irmandade também, de forma que somos obrigados a apelar para a boa vontade dos moradores mais remediados. Desde já, portanto, major...

- Não. Espere um pouco...

- Oh! major, não se incomode. Não é para já.

Enxugou o suor, guardou o lenço, olhou um pouco lá fora e acrescentou:

- Que calor! Um verão como este nunca vi aqui. Tem-se dado bem, major?

- Muito bem.

- Pretende dedicar-se à agricultura?

- Pretendo, e foi mesmo por isso que vim para a roça.

- Isto hoje não presta, mas noutro tempo!... Este sítio já foi uma lindeza, major! Quanta fruta!

Quanta farinha! As terras estão cansadas e...

- Qual cansadas, Seu Antonino! Não há terras cansadas... A Europa é cultivada há milhares de anos, entretanto...

- Mas lá se trabalha.

- Por que não se há de trabalhar aqui também?

- Lá isso é verdade; mas há tantas contrariedades na nossa terra que...

- Qual, meu caro tenente! Não há nada que não se vença.

- O senhor verá com o tempo, major. Na nossa terra não se vive senão de política, fora disso, babau! Agora mesmo anda tudo brigado por causa da questão da eleição de deputados...

Ao dizer isto, o escrivão lançou por baixo das suas pálpebras gordas um olhar pesquisador sobre a ingênua fisionomia de Quaresma.

- Que questão é? indagou Quaresma.

O tenente parecia que esperava a pergunta e logo fez com alegria: - Então não sabe?

- Não.

- Eu lhe explico: o candidato do governo é o doutor Castrioto, moço honesto, bom orador; mas entenderam aqui certos presidentes de Câmaras Municipais do Distrito que se hão de sobrepor ao governo, só porque o Senador Guariba rompeu com o governador; e - zás - apresentaram um tal Neves que não tem serviço algum ao partido e nenhuma influência... Que pensa o senhor?

- Eu... Nada!

O serventuário do fisco ficou espantado. Havia no mundo um homem que, sabendo e morando no município de Curuzu, não se incomodasse com a briga do Senador Guariba com o governador do Estado! Não era possível! Pensou e sorriu levemente. Com certeza, disse ele consigo, este malandro quer ficar bem com os dous, para depois arranjar-se sem dificuldade. Estava tirando sardinha com mão de gato... Aquilo devia ser um ambicioso matreiro; era preciso cortar as asas daquele “estrangeiro”, que vinha não se sabe donde!

- O major é um filósofo, disse ele com malícia.

- Quem me dera? fez com ingenuidade Quaresma.

Antonino ainda fez rodar um pouco a conversa sobre a grave questão, mas, desanimado de penetrar nas tenções ocultas do major, apagou a fisionomia e disse em ar de despedida: - Então o major não se recusa a concorrer para a nossa festa, não é?

- Decerto.

(continua...)

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