Por Adolfo Caminha (1896)
Adelaide é que não podia dormir, apesar de cansada também. Era maior a preocupação moral que o sono. Ouviu bater oito horas, nove, dez, onze, meia-noite, e o cérebro a trabalhar, a funcionar como uma máquina de alta pressão. Chocavamse nela as mais desencontradas idéias: ora Furtado parecia-lhe um homem sem caráter, indigno da amizade de Evaristo ou de quem quer que tivesse um bocado de vergonha, ora afigurava-se-lhe cavalheiro distinto, com todas as virtudes e defeitos (não há homem sem defeitos ...) da sociedade em que vive. Ao mesmo tempo que o condenava por lhe ter beijado a mão, ferindo-a no seu amor-próprio, intimamente o perdoava, lembrando-se de que talvez ele a amasse deveras e o amor é cego, o amor não quer saber de razões... Quem sabe? ele talvez a amasse, talvez lhe consagrasse alguma estima particular e fora de suspeitas criminosas. Beijou-a porque... porque não teve forças para se dominar...
A consciência, porém, dizia-lhe baixinho que uma mulher casada, uma mulher que se ligou a um homem para toda a existência, é objeto que outro homem não deve tocar nem de leve, ainda mesmo a pretexto de amizade fraternal ou de sagrada admiração; e a esposa que se deixa beijar por um homem, que não é o seu legítimo marido, tem na sociedade o feio nome de adúltera. Vinha-lhe, então, um arrepio nervoso, uma sensação de remorso por não ter energicamente repelido o secretário, mesmo com escândalo, embora caísse sobre ela todo o ódio de Furtado e de D. Branca; acima deles estava a sua dignidade e a honra de Evaristo. No meio dessas idéias, e como uma aparição bendita, surgiu-lhe a figura de Balbina, a preta velha de Coqueiros, e uma lágrima triste, uma lágrima de saudade embebeu-se no travesseiro da meiga esposa do bacharel.
Evaristo roncava.
No outro dia falou-se muito no piquenique; todos tinham gostado imenso. A correção do visconde, o ar fidalgo que ele não perdia mesmo entre amigos, a toilette com que se apresentava, as suas delicadezas mereceram especiais referências de D. Branca.
O secretário não esteve muito loquaz ao almoço; dava uns apartes tímidos e avançava um ou outro juízo irônico sobre o passeio da véspera, lamentando as dores de cabeça de Adelaide e a eterna circunspecção do visconde. — "Afinal, a verdade é que ninguém se divertira. Resultado: um passeio de burgueses, um piquenique fúnebre!"
— Fúnebre por quê? — saltou Evaristo. — Vocês é que não sabem se divertir; eu pelo menos fiz honra à confeitaria Pascoal e gozei o que há muito não gozava: o aspecto da nossa natureza, a sombra de uma árvore e a frescura de um veio d'água. Nesta imperial cidade, onde a vida do rei é o que de mais precioso existe, vale a pena um homem sair dos seus cômodos para respirar o ar livre do Jardim Botânico ou de outro jardim qualquer. Nós é que não sabemos gozar o que possuímos. O imperador absorve o cérebro e o coração deste povo...
— Deixe o velho, Sr. Evaristo, Sr. Evaristo ... — fez D. Branca. — O imperador é um bom homem.
— Ninguém diz o contrário; mas o Brasil ainda é melhor que ele...
— Aí vem política! — murmurou Adelaide, que até aí não dera palavra.
Furtado olhou-a e sorriu; ela abaixou os olhos gravemente.
O resto do dia passou calmo. Adelaide subiu, depois do almoço, como às vezes costumava, e foi ler os jornais. Estava resolvida a mudar-se daquela casa antes que estalasse algum escândalo.
Mas a insistente idéia de Furtado não a abandonava e todo o santo dia pensou nele, como num objeto querido, e nas histórias de amor que lhe contara D. Branca. Como exigir de Evaristo uma mudança brusca, ela que nenhuma razão podia alegar contra o sobrado ou contra a família do secretário? Dizer-lhe simplesmente que não estava bem ali era uma imprudência, tanto mais quanto as suas relações com a esposa de Furtado eram estreitíssimas e ela sempre fizera grandes elogios à casa e ao próprio marido de D. Branca. Antes esquecer, antes esquecer tudo e apresentar-se alegre, fazendo pela vida como os outros, não estorvando os projetos de Evaristo, aceitando os homens como eles são — desleais e corruptos... Que podia ela só contra uma sociedade inteira, contra milhares de pessoas? Nada, absolutamente nada. Homem e mulher vivem conforme a sociedade os obriga a viver, fingindo não perceberem aquilo que lhes está entrando pelos olhos; a mulher principalmente, a mulher é um ente nulo, uma criatura sem vontade, uma pobre máquina dos caprichos do homem. Triste daquela que, instigada pelo amor-próprio, arrebatada por um movimento de dignidade feminina, rebelar-se contra o jugo do meio em que vive! Não lhe faltarão apodos, nem grosseiras alusões...
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.