Por Adolfo Caminha (1895)
D. Carolina vestia camisa e saia curta que lhe dava pelo joelho; a cabeça estava coberta com um grande lenço de chita amarrado por baixo do pescoço.
— Não venhas, meu pequeno, disse ela, percebendo as intenções de Aleixo. Olha, deixa-me acabar isto, sim?
O grumete formalizou-se: — “Oh! podia acabar podia acabar...” E logo, aproximando-se:
— Vim apenas vê-la de perto...
— Estás caçoando, hein! estás caçoando com a tua velha... — Caçoando, não. Estou falando sério.
A portuguesa desatou numa risada límpida e gostosa, de uma sonoridade vibrante, sacudindo os quadris, cabeceando histericamente:
— Ora o meu pimpolho! Ora o rico pimpolhozinho!
E ria, ria num desespero. Aleixo encavacou:
— Está bom, vou-me embora.
— Oh! não, não... Brincadeira! Se vais, fico zangada. Vê lá, hein! vê lá...
E com fingida ternura, ameigando a voz:
— Fica, meu bonitinho, fica, junto à tua negra...
Ele sorriu vagamente e entraram a conversar como bons amigos.
Estiveram ali, debaixo do telheiro de zinco, um ror de tempo — o grumete sentado à beira do tanque, perna trançada, a portuguesa muito açodada na faina de concluir a lavagem.
Fora daquele pequeno espaço refrescado pela água, brilhava o sol com uma intensidade rútila e abrasadora. O capim seco do coradouro ardia, muito raso, muito desolado e outoniço. Na vizinhança, um papagaio de estima berrava estridentemente. Havia grande calma. A água da bica não cessava de cantar no tanque, escorrendo, escorrendo...
Aleixo dependurou a jaqueta de flanela azul e deixou-se ficar em camisa de meia, ouvindo cantar a água, enquanto D. Carolina ia enxaguando a roupa.
Falaram em Bom-Crioulo e riram à custa do negro, baixinho, à socapa.
— Boa criatura! sentenciou a portuguesa com um quê de ironia. — Para o fogo! acrescentou Aleixo.
Não sabiam do “rolo”. A portuguesa disse apenas que o outro saíra na véspera, depois do meio dia, e não regressara. — Naturalmente fora preso... Um relógio deu horas.
— Quantas? perguntou a mulher.
— Quatro, disse o grumete.
— Jesus! Vou acabar, vou acabar! Fica pr’amanhã o resto.
— É! Basta de trabalho, isso não vai a matar, disse Aleixo erguendo-se.
E seus olhos pousavam traiçoeiramente sobre o colo nu, sobre a espádua nua de D. Carolina, cheios de desejo, ávidos de gozo.
Ela, como se sentisse no próprio corpo as ferroadas daquele olhar, como se lhe experimentas e o calor vivo, a força magnética, o poder físico, material e irresistível, chegou-se ao grumete e disse-lhe ao ouvido estas palavras, que produzira, nele o efeito indizível e vago de um estremecimento nervoso: — Vamos tomar banho?...
— Aqui?
— Por que não?
— Podem ver...
— Fecha-se a porta da rua. Não tenho inquilinos agora...
Aleixo não disse que sim nem que não. Espreguiçou-se todo, contorcendo-se num espasmo incompleto, sentindo um friozinho bem, extraordinariamente bom, uma comoçãozinha maravilhosa percorrer-lhe as fibras, descendo pelo espinhaço e espalhando-se por todo o organismo.
A portuguesa foi depressa lá cima, ao sobrado, e voltou, sem demora, com a face radiante.
Quis ela mesma despir o rapaz, tirar-lhe a camisa de meia, tirar-lhe as calças, pô-lo nu a seus olhos. Bom-Crioulo já lhe havia dito que Aleixo “tinha formas de mulher”.
Depois começou a se despir também...
O tanque estava cheio a transbordar. Via-se-lhe o fundo claro através da água límpida e fresca.
Ninguém os via naquela nudez primitiva, frente a frente — o corpo largo e mole da portuguesa em contraste com as formas ideais e rijas do efebo —, escandalosamente nus, pecadoramente bíblicos no silêncio do quintalejo ao abrigo do sol que vibrava em torno do pequeno alpendre a sua luz de ouro fulvo!
O que eles fizeram, antes e depois do banho, ninguém saberá nunca. Os muros do quintal abafaram toda essa misteriosa cena de erotismo consumada ali por trás da Rua da Misericórdia num belíssimo dia de novembro.
D. Carolina realizara, enfim, o seu desejo, a sua ambição de mulher gasta: possuir um amante novo, mocinho, imberbe, com uma ponta de ingenuidade a ruborizar-lhe a face, um amante quase ideal, que fosse para ela o que um animal de estima é para o seu dono — leal, sincero, dedicado até ao sacrifício.
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.