Por Adolfo Caminha (1893)
O quarto era pequeno, mas arranjado com certo decoro e bom gosto. O Zuza herdara essa qualidade característica dos Souza Nunes — o amor à ordem. Tudo dele era arrumado e limpo. Adorava a boemia, mas a boemia que não cospe no assoalho e que toma banho ao menos uma vez por dia. Nisto de asseio, como em muitas outras coisas, era correto e o pai o louvava por essa qualidade especial de se portar com a máxima inteireza, no asseio do corpo, como no das ações. Toda a mobília do pequeno compartimento consistia numa estante envidraçada, cadeiras, um sofá e uma mesinha redonda, colocada no centro e coberta com um pano azul, de lã. Comunicava com outro quarto menor onde estava a cama de ferro e uma rede. Ma cabine à coucher, dizia o Zuza mostrando aos amigos esse interior confortável de boêmio rico. A claridade entrava pela varanda e ia morrer em penumbra lá dentro no segundo quarto. No papel claro das paredes destacavam litografias encaixilhadas de poetas célebres e o retrato de Gambeta na postura habitual em que o grande orador falava ao povo. Em política era o seu ídolo, dizia o estudante, e no auge do entusiasmo, colocava-o acima de Mirabeau. Em cima da mesa números avulsos da Revista Jurídica confundindo-se com jornais ilustrados, e um porta-retratos com as fotografias do coronel e da esposa, olhando para os lados, em sentidos opostos. Tal o “gabinete” do Zuza, o seu remanso de estudante cuidadoso.
Tinha aberto ao acaso o seu romance querido, A Casa de Pensão. Um livro importante, gabava; um livro que revelava o grau de adiantamento da literatura brasileira, não deixando a desejar os melhores dos escritores naturalistas portugueses. Este exagero do Zuza deve se levar em conta do ódio injusto que ele votava a tudo quanto cheirasse a lusitanismo.
O estudante, porém, nunca passara a vista sequer num romance de Eça ou numa crítica de Ramalho. — “Não queria, não podia tragar coisas que lhe provocassem vômitos.” Preferia um churrasco à baiana ao “tal” Sr. Camilo Castelo Branco, um sujeito inimigo do Brasil, que não perdia ocasião de nos ridicularizar. De Portugal, Camões exclusivamente, isso mesmo porque o grande épico era uma “glória universal”. Certas palavras tinham um encanto particular a seus ouvidos. Gostava de frases cheias e retumbantes. Os Lusíadas? eram uma “epopéia imortal”, dizia ele. Pronunciava a palavra epopéia com a boca cheia, a acentuando muito o é. Uma obra de arte reconhecidamente boa era a seu ver uma epopéia, fosse qual fosse o gênero — O Cristo e a Adúltera, de Bernardelli? Uma epopéia nacional!!!
Começou a ler A Casa de Pensão em voz alta, em tom de recitativo, pausadamente, repetindo frases inteiras, aplaudindo o romancista com entusiasmo, exclamando de vez em vez: — Bonito, seu Zuza! como se fosse ele próprio o autor do livro. Depois sacudindo o romance sobre uma cadeira, levantou-se espreguiçando-se com estalinhos nas articulações, escancarando a boca num bocejo largo. Que horas seriam? O despertador de níquel marcava quatro e meia. Ó diabo! tinha-se descuidado. Estava convidado para jantar com o presidente às cinco pontualmente. Começou a vestir-se assobiando trechos de música seródia. De repente: “— E a normalista que não lhe tinha respondido a carta!” Muito atrasadinhas as cearenses, pensava. Que mais queria ela? E defronte do espelho, pondo a gravata: — “Era um rapaz chique, dava muita honra à Sra. D. Maria do Carmo escrevendo-lhe uma carta amorosa, pois não? Era o que faltava, a Sra. D. Maria do Carmo não lhe dar atenção! Mas havia de cair por força. Era uma questão de tempo.”
Cinco horas. O Zuza enfiou a sobrecasaca às pressas, perfumou-se, endireitou a gravata e — até logo — foi-se como um raio.
CAPÍTULO VII
À proporção que se aproximava o dia do casamento da Lídia com o guardalivros, as visitas deste à casa da viúva Campelo iam-se tornando de mais a mais freqüentes. A Campelinho não cabia em si de contentamento; pudera! ia enfim verse livre do perigo de ficar para tia. De resto o Loureiro era um ótimo rapaz, excelente empregado, natural de bom gênio, tolerante em extremo e senhor de seu nariz. Era como se fosse de casa, como se já fizesse parte da família, surdo como uma pedra aos boatos mais ou menos mentirosos que corriam sobre a vida privada de D. Amanda. Nunca se dera ao trabalho de averiguar se efetivamente o procedimento de sua futura sogra merecia censuras da gente honesta, mesmo porque o seu emprego não lhe deixava tempo para isso.
Não senhor, dizia ele, se porventura alguém procurava abrir-lhe os olhos; a viúva era um modelo de mãe de família, coitada, vivendo modestamente do minguado montepio de seu finado marido, afora um negociozinho de rendas, que tinha no Pará, e que lhe deixava para mais de cinqüenta por cento. O mais eram palavrórios, e ele no caráter de futuro genro da viúva, não podia consentir que ninguém a difamasse impunemente.
João da Mata lhe dissera uma vez, ao ouvido, batendo-lhe amigavelmente no ombro, que não se iludisse, que a Campelo recebia fora de hora o Batista da Feira; que ele, João da Mata, vira muitas vezes, com os próprios olhos, o negociante entrar cosido à parede alta noite, como um gato.
Histórias. O amanuense fazia mal andar propalando suspeitas que podiam prejudicar, muito, os créditos da pobre senhora. Absolutamente não acreditava em tais boatos. Conhecia bem o gênio e a vida de D. Amanda para desprezar semelhantes falsidades. Em suma, era da escola de S. Tomé: ver para crer.
Até então só tinha motivos para louvar o procedimento da sua futura sogra. E concluía: “— Por amor de Deus não falassem mais em tais coisas... Tinha olhos para ver.”
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.