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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

Palmira tinha inteira razão em chamá-lo e desejá-lo com tamanho amor: um homem perfeito como aquele é a melhor obra de Deus. A mulher, essa lhe é tão inferior, em todos os sentidos, que não chega a ser o seu par, mas um simples complemento dele. A perfeição da mulher não é absoluta, como a do homem, é relativa. Se o homem tivesse sempre a compreensão justa do seu próprio valimento e da superioridade, havia de ser para a pobre mulher muito melhor do que é com efeito; seria verdadeiramente o seu protetor moral, o seu bom e paternal amigo, e não o seu egoísta e sensual adversário. E quando um homem se colocasse, como muita vez sucede, ao nível da fraqueza de uma mulher, para enganá-la de igual a igual, teria vergonha e remorsos de haver com isso cometido a mais degradante

covardia que é possível no seu sexo. Se esse poderoso, belo e adorado animal, que tem forma de Deus, e que nos governa brutalmente, compreendesse a responsabilidade da sua força — quando um homem de trinta anos conseguisse iludir uma rapariga de quinze, ele, e não ela, é que ficaria desonrado.

— Minha senhora... balbuciou Leandro, afinal, vergando-se para falar-me de mais perto.

E eu interrompi meus pensamentos, para escutá-lo. E inclinei-me também, dizendo a meia voz:

Estou às suas ordens, amável senhor. Pode dizer qual é o motivo da sua visita...

CAPÍTULO XIII

— Antes de falar, minha senhora, no delicado objeto que aqui me traz...

principiou Leandro, com a voz um pouco alterada, preciso da prévia garantia do seu perdão, sem o que não teria ânimo de cometer semelhante atrevimento...

Autorizei-o a que falasse e prometi a minha indulgência.

— Imagine, minha generosa senhora, continuou ele, imagine como devo tremer em sua presença... Juro-lhe que, se o meu amor não me merecesse todos os sacrifícios e não me tivesse roubado a razão, não cometeria eu a loucura, a temeridade, o crime talvez, que estou agora perpetrando...

— Continue, acudi, sem modificar a minha fisionomia.

— Imagine, minha senhora: eu, que nada sou; um pobre diabo sem passado e sem futuro, filho de uma união irregular, atrevo-me a vir pedir-lhe me conceda tudo o que há de melhor no mundo; tudo o que há de mais puro, de mais belo, de mais ideal! Imagine que eu, um desgraçado, tenho o desvairamento de pedir-lhe a mão de...

Hesitou, abaixando os olhos. Compreendi que, a menor palavra de recusa, o pranto rebentaria deles com violência.

— O senhor está autorizado por minha filha a fazer-me semelhante pedido?

perguntei-lhe depois de uma pausa, em que ouvia a larga respiração dele.

— Sim, minha senhora.

— E, no caso que obtenha o meu consentimento, estará o senhor disposto a fazê-la feliz, como eu o entendo?

— Juro! exclamou o rapaz.

— Não! não jure ainda, sem primeiro responder-me, se já sabe como é que tem de a fazer feliz...

— Minha senhora, volveu Leandro, reanimado por estas palavras e aproximando a sua cadeira para mais perto da minha, ainda há pouco não pude entrar em pormenores, nem disse quase nada do que trago a intenção de dizer... V. Ex.a compreenderá sem dúvida o meu estado de comoção...

— Sim. Fale.

— Minha senhora, eu adoro sua filha, e sei, e sinto, e afianço, que nunca mais amarei assim outra pessoa em toda a minha vida! Juro que...

— Não! — interrompi. — Não prometa coisa nenhuma! Fale só do presente; deixe lá o futuro que a Deus pertence! Quem pode nesta vida determinar com segurança alguma coisa futura?... Pois se pelo passado, que já está vivido, nem sempre podemos responder, porque ele às vezes nos foge da memória, como quer o senhor legislar sobre o porvir, ainda todo incerto? Fale-me do presente!

— Tem razão, minha senhora, e consinta que eu prossiga: Amo loucamente a senhora sua filha e só com ela posso compreender uma união eterna... Mas, V. Ex.as são ricas e eu sou pobre... ganho pouco; esse pouco, porém, chega com economia para duas pessoas resignadas... Entretanto, se ela própria me não tivesse jurado aceitar com satisfação o sacrifício de partilhar da minha pobreza, não faria a V. Ex.a, nem por pensamento, o temerário pedido que acabo de fazer. Desejo que V. Ex.a me conceda sua filha, sem outro dote além das virtudes que a enobrecem e além dos seus encantos pessoais...

Eu sorri. Não sei se era sincero o que ele dizia. Talvez fosse, porque a mocidade é quase sempre generosa e o primeiro amor é leal e adora o sacrifício. Mas a idéia, de consentir que minha filha partilhasse do magro ordenado de um amanuense de secretaria, pareceu-me infinitamente extravagante.

Já se vê que entrava no meu sorriso um pouco de vaidade; qual é, porém, o nosso ato social em que a vaidade não entre em grande ou pequena dose?

(continua...)

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