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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Por isso todos tinham pelo senhor do engenho Bujari profundo respeito; e se seu nome não vem apontado nas incompletas chronicas do tempo, como muitos outros, que não obstante pertencerem a notáveis sujeitos, ficaram inteiramente esquecidos, a tradição ainda o não deixou desaparecer de todo no pó onde jazem sepultados os que por circunstancias inexplicáveis não puderam sobreviver aos acontecimentos.

Recebendo a influencia do tempo, da educação, dos preconceitos inveterados e dos exemplos de todo o dia, a mulher de João da Cunha, d. Damiana, que procedia, como seu marido, de troncos limpos, não lhe cedia a palma em altivez, posto que de seu natural era branda e benévola.

Até a idade de 12 anos, D. Damiana morou, para assim escrevermos, em casa dos pais de João da Cunha. Sua mãe era parenta muito chegada do casal fidalgo, e costumava passar tempos no engenho onde moravam.

Quando ela morreu, d. Damiana não contava mais do que 15 anos. O pai desta tinha falecido dez anos atrás. Circunstancias especiais influíram diretamente para que, sendo ele um dos mais abastados agricultores do termo de Goiana, só deixasse por morte á mulher um nome honrado e ilustre, herança que esta transmitiu mais aumentada, porém ainda muito menos brilhante do que a recebera, á sua filha.

Dos cinco anos até casar-se pode dizer que a jovem senhora viveu á sombra do rico fidalgo, pai do João e de Amador, de quem oportunamente se tratará. Por esse tempo João da Cunha já tinha contraído o seu primeiro casamento. Enviuvando anos depois, contraiu o segundo com d. Damiana, que, já se achando presa á família pela gratidão que lhe devia, entrava agora em suas relações intimas e começava a fazer parte dela por laços mais perduráveis.

O senhor de engenho achou em d. Damiana afeições duplas – as de esposa e as de filha. Sua mulher, que já tinha para ele respeito, votava-lhe agora estima conjugal, que trouxe ao senhor de engenho uma reprodução da felicidade que gozara na constância do primeiro matrimonio.

Quando d. Damiana punha sobre ele seus grandes olhos negros e ternos, João da Cunha sentia no intrínseco de sua alma uma impressão de brandura, que era talvez o reflexo da benevolência da esposa penetrando na dureza natural do coração do marido, como raio de luar em profunda e escura caverna.

Então o porco selvagem fazia-se escravo da juruti meiga e naturalmente elegante. Voltava-se todo para ele e ficava como em contemplação ascética. Os cabelos abundantes e pretos, a rosto emoldurado em oval corretíssima, a cútis morena, fina e rosada, o nariz levemente erguido na ponta, a boca representante de altivez e bondade ao mesmo tempo, faziam de d. Damiana um como centro luminoso diante do qual o orgulhoso e duro João da Cunha sentia deslumbramentos.

A influencia, porém, que a mulher exercitava sobre o senhor de engenho, não era absoluta.

Quando João da Cunha tomava uma resolução sobre objeto grave; quando seu orgulho exigia dela o preenchimento de um dos seus caprichos, leis do seu caracter, nem o olhar, nem o sorriso, nem a meiguice, nem as lagrimas dela venciam a dureza marmórea do espirito, que de outras vezes parecia de cera.

XII

O engenho Bujari estava situado em um ponto de que inteiramente se perdeu a memória. O que se sabe ainda, pela tradição oral, é que, tendo ele ficado, pelo tempo adiante, todo em capoeira em conseqüência do longo desamparo, veio a confundir-se com a mata virgem. O engenho que traz hoje esse nome, fundou-se muito depois do desaparecimento do primeiro.

Nesse tempo – áureo período da vida do respectivo proprietário – era ele uma das mais importantes propriedades rústicas de Goiana, e a sua situação uma das mais formosas do termo.

(continua...)

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