Por Bernardo Guimarães (1872)
Quando voltou a si e abriu os grandes e negros olhos, encontrou o rosto de Eduardo que, bem próximo ao seu, quase que a bafejava, observando-a com ansiosa inquietação enquanto o pai com os braços a sustinha sobre a cadeira.
– Ah! o senhor ainda está aqui! – exclamou ela, tapando os olhos com a mão. Sr. Eduardo... por piedade! fuja, fuja... não posso vê-lo!...
– Desastrado aparecimento o deste homem hoje! – refletia o amargurado velho. – Mas porventura posso me queixar dele?... tem ele a culpa de nada?... Infeliz Paulina!...pobre de minha filha! tão boazinha, tão linda, tão criança, e já sabendo o que é a desgraça... e mais desgraçado de mim ainda, que nada posso fazer por ela!... Só esse homem, que já uma vez salvou-a, poderia salvá-la ainda, pois não há a menor dúvida, a pobrezinha tem uma paixão louca por esse moço... ah!... se fosse possível... que me importa o Roberto?... tratei com ele, é verdade; mas será ele tão bruto e tão desalmado, que não tenha pena desta infeliz?... será tão estúpido, que não veja que não deve, nem pode casar-se com Paulina?... mas que loucura a minha!.., ele não pode – já está comprometido e quem sabe se já casado com outra... Pobre da minha Paulina!... é agora que sinto a falta, que te faz tua mãe... só ela poderia entrar no segredo desse coração tão maltratado, e dar-lhe algum conforto e consolação... mas, eu... pobre de mim! que posso eu fazer senão chorar contigo, filha de minha alma!...
E as lágrimas corriam em fio pelas faces do velho na solidão da noite, cujo silêncio só era interrompido pelos delírios de Paulina, que entregue a um sono letárgico, murmurava sons confusos entre os quais vinha freqüentemente o nome de Eduardo.
Este, por seu lado, também se recolhera ao aposento que lhe fora destinado, com o coração transido de angústias, e passou a noite nas mais cruéis tribulações de espírito. Ele passara como o sopro do gênio do mal junto daquela formosa e interessante menina, e lhe fizera entrever um paraíso de amor e de ventura para abismá-la imediatamente num pego de amarguras. Aquela mimosa flor do deserto, que havia encontrado em seu caminho, de tão belo e puro matiz, tão rica de seiva e de perfume, vinha encontrá-la agora raquítica e pálida como goivo despencado de uma grinalda mortuária. E essa flor, que risonha e louçã se havia espanejado a seus olhos ofertando-lhe todo o perfume de seu cálix, ele a havia desdenhado e passado além com os olhos embebidos em não sei que falsa miragem... e fora esse desdém, que lhe mirrara o seio entornando nele o gérmen da destruição. E agora que desiludido e arrependido voltava sobre seus passos em busca da flor, cujo perfume lhe ficara guardado no coração, ainda seria tempo? poderia ele ainda com o bafejo de seu amor restituir-lhe o alento e a vida?... Quem sabe?
Eduardo, cujas pálpebras ardentes não se cerraram essa noite, esperava ansioso o alvorecer do dia. Paulina amanheceu mais tranqüila, posto que extremamente abatida e em tal estado de fraqueza, que não lhe permitia levantar-se da cama.
Eduardo quando saiu de seu quarto encontrou já na varanda o dono da casa debruçado ao parapeito e com os olhos na estrada de Uberaba, à espera de Roberto com o médico. Em sua impaciência não calculava que era ainda muito cedo para poderem chegar.
– Bom-dia, senhor Ribeiro; – disse-lhe cumprimentando-o... Como passou a senhora sua filha?
– Ah! já está de pé, senhor Eduardo?... replicou o fazendeiro voltando-se para ele. – Paulina... eu sei... teve ainda muita febre e delírio; mas agora está mais sossegada. Todavia acho que não está nada boa.
– Não faz idéia quanto me dói no fundo da alma o incômodo dela, senhor Ribeiro.
– Muito agradecido, senhor Eduardo... mas enfim... é vontade do céu... que se há de fazer... Deus que tenha piedade de nós.
– Mas ah! senhor Ribeiro, quando penso, – e tenho motivos muito fortes para pensar assim, quando penso, que sem o querer e por desgraça minha sou a causa dos sofrimentos de sua filha e de todos os seus incômodos, minha aflição toca ao desespero.
– Bem o compreendo, senhor Eduardo; e eu também... para que negar-lhe? penso do mesmo modo...
– Portanto já vê o senhor que não devo me demorar mais um instante em sua casa, visto que não lhe posso dar remédio nem alívio algum. Minha presença lhe faz mal, e antes que ela me veja outra vez, é meu dever retirarme.
– Pelo contrário; agora já que aqui veio, tenha paciência, há de ficar; o senhor é o único que poderá salvá-la nesta cruel conjuntura; perdoe esta franqueza de um pobre pai desatinado pela dor e em risco de perder sua única filha. Ela tem pelo senhor uma paixão louca, estou disso bem persuadido; aquele sucesso da onça a fez enlouquecer...
– Também assim o creio, senhor Ribeiro; porém... desgraçadamente em nada lhe posso valer.., tenho as mãos atadas...
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.