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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Nessa aflição foi até a porta do gabinete para escutar, e volveu mais tranqüila lembrando-se de que o marido lhe falara em uma demora de alguns dias. Tornou, porém, assaltada de novos terrores, e chegou a bater.

Hermano abriu. Encontrando Amália, saiu, fechou vivamente a porta sobre si, e dirigiu-se com a moça para a sala próxima. Sua expressão era calma e natural; ninguém diria que ele ocultava um desígnio funesto.

Essa placidez aquietou a agitação da moça, que para não toldar novamente o ânimo do marido absteve-se de revelar o seu terror. Hermano, como se nada houvesse ocorrido entre ambos, passou a conversar acerca de coisas indiferentes, lembrando à mulher vários divertimentos, que ela recusou.

Na continuação da conversa, Amália, confiada nessa tranqüilidade, e querendo de uma vez acabar com a sua inquietação, perguntou ao marido de que meio se tinha lembrado para realizar a separação.

— O meio? disse ele. Só há um, Amália.

— Qual?

— A morte.

— Então, é verdade, quer matar-se? exclamou a moça com desespero, e travando das mãos do marido, como para retê-lo junto a si.

— Já sou um morto. Metade do meu ser há cinco anos desceu à sepultura. A outra metade que ficou neste mundo, para expiação de suas culpas, não teria perturbado a sua felicidade, se estivesse reunida àquela e restituída ao pó.

— Mas eu não quero que morra, Hermano! Deu-me sua vida; ela me pertence; a mim também.

— Não a podia dar, Amália! Não lhe confessei já que sou um indigno, que a enganei?

— Pois bem! Esta união é nula; não existe. Mas a culpa é toda minha: carregarei com ela. Direi a minha mãe que arrependi-me, que não tinha propensão para o casamento, que não sei fazer a felicidade de meu marido... Direi o que for preciso, contanto que viva, Hermano!

— Para que, Amália, se a amo, e não posso e não devo amá-la! respondeu o marido.

— Também eu o amo; mas não penso em matar-me!

Hermano sorriu:

— Não preciso matar-me; basta morrer.

— Jura-me que não atentará contra sua vida?

— Já disse, Amália. Não careço do suicídio. Para que soprar a luz, se ela apaga-se por si?

— Mas dê-me sempre esse juramento para sossegar o meu coração.

— Juro.

— Por ela?... Por Julieta?

— Sim.

Estas cenas abalaram profundamente o espírito de Amália, que abandonou a idéia de separar-se do marido, naquelas circunstâncias, deixando-o sob a influência de tão sinistros pensamentos. Apesar da confiança que sempre tivera na lealdade de Hermano, o juramento deste não lhe dissipara as apreensões. Não suspeitava um ardil; mas temia uma fatalidade.

Até ali, o recato tão natural em uma noiva, e ainda aumentado pela reserva do marido, lhe tolhia a liberdade na própria casa em que devia ser dona. Nunca se animara a penetrar no aposento de Hermano, nem se lembrara disso.

Agora, porém, sua posição mudara. Tinha o dever de guardar e defender a vida do marido; e para isso carecia de toda sua vigilância e solicitude. Era mais que tempo de assumir a sua autoridade doméstica, sem a qual não poderia isentar-se da grave responsabilidade de esposa.

Assim, quando no dia seguinte Hermano foi à cidade, ela, depois de haver obtido dele a promessa de voltar cedo e de o ter acompanhado com os olhos até perdê-lo de vista, saiu da janela resolvida a ensaiar o seu papel de dona de casa.

Abreu, conforme o costume, acabava de arranjar o aposento do amo, e ia sair fechando a porta para guardar a chave no bolso, quando Amália entrou. Passado o seu espanto, o velho decidiu-se a ficar de guarda à moça, que se sentara em uma cadeira de balanço.

Esse intento, porém, frustrou-se

— Pode retirar-se, Abreu, disse a senhora com um tom brando, mas firme.

O ex-furriel estremeceu, como se outrora o seu capitão lhe desse uma ordem contrária ao detalhe; e ficou imóvel.

— Não ouviu?

Aquela interrogação e o olhar que a acompanhara expulsaram o criado do gabinete. Ficando só, Amália fechou-se por dentro e começou a sua investigação.. Temia que o marido tivesse armas ocultas ou veneno. O que achou foram algumas chaves de aço dourado, enfiadas em um aro de prata.

Adivinhou de que aposentos eram estas chaves, e abrindo com uma delas a porta de comunicação, passou ao toucador de Julieta. As janelas cerradas deixavam o interior em um tênue crepúsculo.

Ao dar o primeiro passo, Amália recuou, e presa de súbita vertigem cairia, se as mãos não agarrassem convulsivamente as cortinas da porta.

Instantes depois, recolhendo-se precipitadamente ao seu quarto, a moça caía de joelhos, banhada em lágrimas e murmurando:

— Louco!.. Louco, meu Deus!...

Capítulo 18

Entrando no toucador de Julieta, escassamente alumiado pela claridade que filtrava entre as lâminas das rótulas, Amália tinha visto, ali sentada junto à mesa de charão, tal como lhe aparecera três meses antes, a desconhecida.

Fora o abalo dessa visão que lhe causara a vertigem.

(continua...)

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