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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

"Pensem os fisiologistas como quiserem, o pé é a parte mais distinta do corpo humano; sem ele a estatura não teria a nobreza que Deus só concedeu à criatura racional.

"O pé revela o caráter, a raça e a educação. Cada uma das feições e dos gestos desse órgão de nossa vontade tem uma expressão eloqüente. Há quem não adivinhe em um pé delicado e nervoso a alma de fina têmpera? Ao contrário um pé chato e pesado é a prova infalível de um gênio tardo e pachorrento.

"Virgílio, o poeta mais elegante que tem existido compreendeu que Vênus ocultasse nos olhos do filho, na selva líbica, a beleza imortal de seus olhos, de seu sorriso, de suas formas sedutoras; mas não aquilo que era sua essência divina, sua graça olímpica. Foi pelo andar que ela revelou-se deusa; et vera incessu patuit dea.

"Nunca sentiste o doce contato do pé da mulher amada? É uma sensação deliciosa que penetra nos seios d'alma. Podes apertar-lhe a mão, cingi-la ao seio, beijá-la. Nada vale aquele toque sutil que abala até a última fibra.

"Faze pois idéia do que eu sentia. E a botina não era senão a estátua ou a efígie do pé encantador que a havia calçado. Ali estavam impressos seus graciosos contornos, sua forma suave.

"Apaixonei-me por esse pezinho, que eu nunca vira, que não conhecia. Sagrei-lhe minha alma como ao ignoto deo de minhas adorações."

Horácio exagerou então os esforços por ele empregados para descobrir o misterioso ídolo de suas adorações, e referiu os fatos que já conhecemos. Teve porém a discrição, rara em um leão, de não revelar os nomes; receava ainda que lhe arrebatassem a conquista.

— Finalmente, concluiu ele, o acaso me fez descobrir a dona do pezinho que em vão buscava. Hás de crer, Leopoldo? Conhecia essa moça, que é realmente encantadora; diversas vezes achei-me com ela em sociedade e nunca sentira à sua vista a menor comoção. Mas quando soube que a ela pertencia o tesouro, adorei-a. Para ver o pezinho que sonhei, estou disposto a fazer a maior das loucuras, casarme!...

— É esta a tua história?

— Dize antes meu poema. Sinto não ser poeta para escrevê-lo.

— Pois, se me permites franqueza, dir-te-ei que realmente o desenlace que lhe pretendes dar será uma loucura. O casamento, quando não une duas almas irmãs criadas uma para a outra, é uma espécie de grilheta que prende dois galés; o suplício de duas existências condenadas a se arrastarem mutuamente Tu não amas essa moça, Horácio.

— Não a amo?

— Não!

— Quando lhe vou fazer o sacrifício que nenhuma outra mulher obteve de mim?

— Não passa de um capricho. Essa moça é para ti um pé e nada mais.

— A mulher que amamos tem sempre um encanto, uma graça especial. Às vezes são os cabelos; outras os olhos; tu amas o sorriso; eu o pé.

Leopoldo levantou os ombros.

— Sem dúvida. A alma da mulher, como a do homem, se revela em cada pessoa por uma feição mais distinta, por uma expressão mais eloqüente. Mas não é isto que sucede contigo. Tu sentes a idolatria da beleza material; procuraste sempre na mulher a forma, o amor plástico; à força de admirar os mais lindos rostos e os talhes mais sedutores, ficaste com o sentido embotado, precisavas de algum sainete que estimulasse teu gosto. Viste ou imaginaste um pezinho mimoso e gentil: tornouse logo para ti o tipo, o ideal da beleza material, que te habituaste a adorar.

Horácio soltou uma risada:

— Olha, Leopoldo, cá para mim o platonismo em amor seria um absurdo incompreensível se não fosse uma refinada hipocrisia. Esses mesmos que adoram a mulher como um anjo, de que se nutrem senão da contemplação de beleza material que tratas com tamanho desprezo? É possível que uma mulher feia seja amada por aberração do gosto; mas fazer disso uma regra geral!...

— Ninguém pretende semelhante coisa. A beleza é um encanto, uma graça, um invólucro da mulher; mas não deve ser exclusivamente a mulher, como a pétala é a flor, e a centelha é a luz.

— Sofisma! Tira a beleza à mulher amada e verás o que fica; o mesmo que fica da flor que murcha e da chama que se apaga: pó ou cinza.

— Queres que te prove o contrário? Ouve a minha história.

— Ah! é verdade. A história de teu sorriso?

— Sim.


CAPÍTULO  XIV

O Almeida acendeu outro charuto.

— Meu romance, disse Castro, começou como o teu na Rua da Quitanda. Passando ali uma manhã, vi uma moça, que produziu em mim profunda impressão. Parei para contemplá-la; mas o que eu admirava nela, não era seu talhe elegante e seu rosto gracioso: era unicamente a emanação de sua alma pura, o seu casto e ingênuo sorriso.

(continua...)

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