Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)
— Pois meu amigo, todos nós estamos derrotados: o diabinho da menina nos tem posto o coração em retalhos. Se, de novo, se fizer a saúde que hoje fizemos, todos, à exceção de Felipe, pronunciarão a letra C.
— Também Fabrício?
— Ora! Esse está doente... perdido... doido enfim! E ela?
— Zomba de todos nós; cada cumprimento que lhe endereçamos paga ela com uma resposta que não tem troco e que nos racha de meio a meio. Tu ainda lhe não disseste nada?
— Coisas vãs... e palavras da tarifa.
— E ela?
— Palavras da tarifa… e coisas vãs.
— Tanto melhor para mim.
— Pois é opinião geral que ela te prefere a todos nós.
— E pior para ela, mas... adeus! O meu lindo par se levanta do banco de relva em que descansava, vou tomar-lhe o braço; tenho-me singularmente divertido: a bela senhora é filósofa! ... Faze idéia! Já leu Mary de Wollstonecraft e, como esta defende o direito das mulheres, agastou-se comigo, porque lhe pedi uma comenda para quando fosse ministra de Estado, e a patente de cirurgião de exército, no caso de chegar a ser general; mas, enfim, fez as pazes, pois lhe prometi que, apenas me formasse, trabalharia para encartar-me na Assembléia Provincial e lá, em lugar das maçadas de pontes, estradas e canais, promoveria a discussão de uma mensagem ao Governo Geral, em prol dos tais direitos das mulheres; além de que... Mas... tu bem vês que ela me está chamando; adeus!...
No entanto d. Carolina continuava a cativar todos os olhares e atenções; tinham notado, é verdade, que ela estivera alguns momentos recostada à efígie da Esperança, triste e pensativa. Fabrício jurava mesmo que a vira enxugar uma lágrima, mas logo depois, lhe desaparecera completamente a menor aparência de tristeza, tornou a brilhar o prazer em ebulição.
Todos tinham tido seu quinhão, maior ou menor, segundo os merecimentos de cada um, nas graças maliciosas da menina. Ninguém havia escapado: Fabrício era a vítima predileta, porque também fora ele o único que se atreveu a travar luta com ela.
Finalmente d. Carolina acabava de entrar outra vez no jardim, depois de ter cantado sua balada. De todos os lados soavam-lhe os parabéns, mas ela escapou a eles, correndo para junto de uma roseira toda corada por suas belas e rubras flores.
Fabrício, que ainda não estava suficientemente castigado e que, além disso, começava a gostar seu tantum da Moreninha, dirigiu-se com d. Joaninha para o lado em que ela se achava.
— É decididamente o que eu pensava, disse Fabrício, quando se viu ao pé de d. Carolina; e dirigindo-se a d. Joaninha: sim... sua bela prima ama as rosas, exclusivamente.
— Conforme as ocasiões e circunstâncias, respondeu a menina.
— Poderia eu merecer a honra de uma explicação? perguntou Fabrício.
Com toda a justiça e, continuou d. Carolina rindo-se, tanto mais que foi a V.S.a que me dirigi. Eu queria dizer que entre um beijo de frade ou um cravo defunto e uma rosa, não hesito em preferir a última.
Fabrício fingiu não entender a alusão e continuou:
— Todavia não é sempre bem pensada semelhante preferência; a rosa é como a beleza: encanta, mas espinha! V.S.a o sabe, não é assim?
— Perfeitamente, mas também não ignoro que a rosa só espinha quando se defende de alguma mão impertinente que vem perturbar a paz de que goza; V. S.a o sabe, não é assim?
— Oh! Então a sra. d. Carolina foi bem imprudente em quebrar o pé dessa rosa com que brinca, expondo assim seus delicados dedos: e bem cruel também em fazê-la murchar de inveja, tendo-a defronte de seu formoso semblante.
— Pela minha vida, meu caro senhor! Nunca vi pedir uma rosa com tanta graça: quer servir-se dela?
— Seria a mais apetecível glória...
— Pois aqui a tem... Querido primo, nada de ciúmes.
E Fabrício, recebendo o belo presente, em vez de olhar para a mão que o dava, atentava em êxtase o rosto moreno e o sorrir malicioso de d. Carolina. Ao momento de se encontrar a mão que dava e a que recebia, Fabrício sentiu que lhe apertavam os dedos; seu primeiro pensamento foi acreditar que era amado, mas logo se lhe apagou esse raio de vaidade, pois que ele retirou vivamente a mão, exclamando involuntariamente:
— Ai! Feri-me!...
Era que a travessa lhe havia apertado os dedos contra os espinhos da rosa. Mas a flor tinha caído na relva: Fabrício, já menos desconcertado, a levantou com presteza; e encarando a irmã de Filipe, disse-lhe em tom meio vingativo:
— Foi um combate sanguinolento, mas ganhei o prêmio da vitória!
— Pois feriu-se?… perguntou d. Carolina, chegando-se com fingido cuidado para ele.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. A Moreninha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16667 . Acesso em: 1 jan. 2026.