Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

E logo, levando-me pela colina abaixo, o diabo rompeu a contar-me animadamente os cultos, as festas, as religiões que floresciam na sua mocidade. Toda esta costa do grande verde, então, desde Biblos até Cartago, desde Elêusis até Mênfis, estava atulhada de deuses. Uns deslumbravam pela perfeição da sua beleza, outros pela complicação da sua ferocidade. Mas todos se misturavam à vida humana, divinizando-a; viajavam em carros triunfais, respiravam as flores, bebiam os vinhos, defloravam as virgens adormecidas. Por isso eram amados com um amor que não mais voltará; e os povos, emigrando, podiam abandonar os seus gados ou esquecer os rios onde tinham bebido, mas levavam carinhosamente os seus deuses ao colo. "O amigo, perguntou ele, nunca esteve em Babilônia?" Aí todas as mulheres, matronas ou donzelas, se vinham um dia prostituir nos bosques sagrados, em honra da deusa Melita. As mais ricas chegavam em carros marchetados de prata, puxados a búfalos, e escoltadas de escravas; as mais pobres traziam uma corda ao pescoço. Umas, estendendo um tapete na erva, agachavam-se como reses pacientes; outras, erguidas, nuas, brancas, com a cabeça escondida num véu preto, eram como esplêndidos mármores entre os troncos dos álamos. E todas assim esperavam que qualquer, atirando-lhe uma moeda de prata, lhes dissesse: "Em nome de Vênus!" Seguiam-no então, fosse um príncipe vindo de Susa com tiara de pérolas, ou o mercador que desce o Eufrates no seu barco de couro; e toda a noite rugia, na escuridão das ramagens, o delírio da luxúria ritual. Depois o diabo disse-me as fogueiras humanas de Moloque, os mistérios da boa-deusa em que os lírios se regavam com sangue, e os ardentes funerais de Adônis...

E parando, risonhamente: "o amigo nunca esteve no Egito?" Eu disse-lhe que estivera e

conhecera lá Maricocas. E o diabo, cortês:

"Não era Maricocas, era Ísis!" Quando a inundação chegava até Mênfis, as águas cobriam-se de barcas sagradas. Uma alegria heróica, subindo para o sol, fazia os homens iguais aos deuses. Osíris, com os seus cornos de boi, montava Ísis; e, entre o estridor das harpas de bronze, ouviase por todo o Nilo o rugir amoroso da vaca divina.

Depois, o diabo contava-me como brilhavam, doces e belas, na Grécia, as religiões da natureza. Aí tudo era branco, polido, puro, luminoso e sereno; uma harmonia saía das formas dos mármores, da constituição das cidades, da eloquência das academias e das destrezas dos atletas; por entre as ilhas da Jônia, flutuando na moleza do mar mudo como cestas de flores, as nereidas dependuravam-se da borda dos navios para ouvir as histórias dos viajantes; as musas, de pé, cantavam pelos vales; e a beleza de Vênus era como uma condensação da beleza da Helênia.

Mas aparecera este carpinteiro de Galiléia, e logo tudo acabara! A face humana tornava-se para sempre pálida, cheia de mortificação; uma cruz escura, esmagando a terra, secava o esplendor das rosas, tirava o sabor aos beijos; e era grata ao deus novo a fealdade das formas.

Julgando Lúcifer entristecido, eu procurava consolá-lo: "Deixe estar, ainda há de haver no mundo muito orgulho, muita prostituição, muito sangue, muito furor! Não lamente as fogueiras de Moloque. Há de ter fogueiras de judeus." E ele, espantado: "Eu? Uns ou outros, que me importa, Raposo? Eles passam, eu fico!"

Assim, despercebido, a conversar com Satanás, achei-me no Campo de Santana. E tendo parado, enquanto ele desenvencilhava os cornos dos ramos de uma das árvores, ouvi de repente ao meu lado um berro: "Olha o Teodorico com o Porco-Sujo!" Voltei-me. Era a Titi! A Titi, lívida, terrível, erguendo, para me espancar, o seu livro de missa! Coberto de suor, acordei.

Topsius gritava, à porta do beliche, alegremente:

- Levante-se, Raposo! Estamos à vista da Palestina!

O Caimão parara; e no silêncio eu sentia a água roçando-lhe o costado, de leve, num murmúrio de mansa carícia. Por que sonhara eu assim, ao avizinhar-me de Jerusalém, com os deuses falsos, Jesus seu vencedor, e o demônio a todos rebelde? Que suprema revelação me preparava o Senhor?...

Desenrodilhei-me da manta; atordoado, sujo, sem largar o precioso embrulho da Mary; subi ao tombadilho, encolhido no meu jaquetão. Um ar fino e forte banhou-me deliciosamente, trazendo um aroma de serra e de flor de laranjeira. O mar emudecera, todo azul, na frescura da manhã. E ante meus olhos pecadores estendia-se a terra da Palestina, arenosa e baixa, com uma cidade escura, rodeada de pomares, toucada no alto de flechas de sol irradiando como os raios de um resplendor de santo.

- Jafa! - gritou-me Topsius, sacudindo o seu cachimbo de louça. - Aí tem o D. Raposo a mais antiga cidade da Ásia, a velhíssima Jepo, anterior ao dilúvio! Tire o barrete, saúde essa anciã dos tempos, cheia de lenda e de história... Foi aqui que o borrachíssimo Noé construiu a sua arca!

Cortejei, assombrado.

- Caramba! Ainda agora a gente chega, já lhe começam a aparecer cousas de religião!

E conservei-me descoberto, porque o Caimão, ao ancorar diante da Terra Santa, tomara o recolhimento de uma capela, cheia de piedosas ocupações e de unção. Um lazarista, de longa sotaina, passeava, com os ossos baixos, meditando o seu breviário. Sumidas dentro dos capuzes negros de lustrina, duas religiosas corriam os dedos pálidos pelas contas dos seus rosários. Ao longo da amurada úmida, peregrinos da Abissínia, hirsutos padres gregos de Alexandria, pasmavam para o casario de Jafa, aureolado de sol, como para a iluminação de um sacrário. E a sineta à popa tilintava, na brisa salgada, com uma doçura devota de toque de missa...

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2829303132...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →