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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Excessivamente metódico, sempre, antes de sair, lavava cuidadosamente os bicos das penas de pato, para que não se estragassem. Tinha sobre a mesa pequenas caixas feitas de cartas de jogar, com dísticos em letra gótica que lhes designavam a serventia: caixa das penas, caixa da borracha, caixa do limpa-penas, caixa das obreias, etc. Era tão escrupuloso das coisas que lhe pertenciam, que fazia no alto dos seus lápis uma larga incisão onde escrevia o seu nome. Tinha casado novo e quando se referia a sua mulher, dizia sempre: a minha senhora. Fora ela que lhe bordara a almofada de veludo verde sobre que se sentava. Esta almofada era para ele objecto de uma veneração supersticiosa: antes de se sentar, espanejava-a cuidadosamente, e ao levantar-se, quando saía, cobria-a religiosamente com um pedaço de cassa. O seu terror Constante era que, na sua ausência, alguém se sentasse sobre a almofada de sua senhora; por isso, tinha preparado um letreiro que colava com uma obreia às costas da cadeira e onde se lia, escrito a tinta azul: «Pede-se que se respeite esta cadeira, que é do Dr. Pimentel». Isto, porém, incitava indivíduos facetos a sentarem-se com ferocidade sobre a almofada sagrada, e por vezes, ao entrar subitamente no escritório, o Dr. Pimentel ficava petrificado, vendo um corpanzil profano repoltreado sobre os veludos que sua senhora, com as suas próprias mãos, bordara amorosamente! Tais irreverências, para ele, eram crimes, e, com uma estrita ideia de justiça penal e a perversidade natural aos hipocondríacos, inventou uma desforra medonha: arranjou um prego, muito agudo, de cabeça muito chata, que colocava sobre a almofada de bico para o ar, de modo que se algum jocoso ousasse profanar a sua almofada, o horrível prego penetrava-lhe na carne, sendo assim o delito imediatamente seguido da penalidade. Não revelou a ninguém esta perfídia, nem sequer destruiu o aviso escrito a tinta azul, como se, para gozar melhor a vingança, quisesse facilitar a ofensa.

Foi por esse tempo que uma manhã em que o Dr. Pimentel saíra, o Desembargador Amado apareceu inesperadamente no escritório: tinha uma demanda com um vizinho, proprietário de Campolide, e vinha falar com o Dr. Vaz Correia, que nesse momento trovejava na Boa Hora.

Alípio, apenas avistou na porta o ventre enorme do Desembargador, precipitou-se a tirar-lhe o chapéu das mãos, a perguntar-lhe pelas senhoras; ofereceu-se mesmo para ir à Boa Hora buscar o Dr. Vaz Correia.

– Nada de incómodos – disse Amado – eu espero. Que, com este calor, até não se me dá de descansar...

– Quer V. Exª um copo de orchata? (o Dr. Vaz Correia tinha sempre, na saleta de dentro, uma caixa de orchata fresca, nos meses de Verão).

– Pois venha de lá a orchata. Vai de refresco. Alípio entrara na saleta e preparava.43 a bebida – quando um berro medonho vindo do escritório atroou a casa! Correu, aterrado. De pé, junto à poltrona do Dr. Pimentel, lívido, os olhos esgazeados, a boca aberta, exalando mugidos de dor, o Desembargador apertava nas duas mãos abertas as suas rotundidades posteriores!

– Que foi, Sr. Desembargador, que foi?

– Enterrou-se-me uma coisa!

O escrevente que acudira, pálido, aos mugidos do magistrado, teve um grito de horror:

– Deve ser o prego do Sr. Dr. Pimentel!

E desapareceu, aterrado decerto das consequências de tão grande crime.

Sem perder o sangue-frio, o nosso Alípio puxou o ferido para junto da janela, acocorou-se, levantou as abas do casaco, e logo descobriu a cabeça amarela de um prego reluzindo sobre a calça preta de S. Exª, cravado na carne.

O Desembargador, quase desmaiado, com camarinhas de suor frio na testa, não queria que Alípio arrancasse o prego: ouvira dizer que uma faca, um punhal, um ferro que se arrancam de uma ferida, causam imediatamente a morte pela hemorragia. E com gemidos roucos, pedia um médico.

Mas o escrevente desapareceu cobardemente – Alípio estava só no escritório. Então, com uma decisão brusca, como as que se contam de Dupuytren, de Nélaton, dos grandes operadores clássicos, Alípio puxou vivamente o prego. O Desembargador deu um mugido terrível, e Alípio, sustentando-o, amparando-o nos braços, levou-o até à poltrona amiga do Dr. Vaz Correia.

S. Exª, porém, arquejava de dor. Parecia-lhe que tinha ali uma brasa, sentia o sangue empapar-lhe a ceroula... Queria um médico.

Então, num relance, Alípio sentiu que tinha ali, ferido, necessitando auxílio, um magistrado, um proprietário, um cristão, um semelhante, o pai de Virgínia, e com uma voz repassada de cuidado e de solicitude:

– Não se assuste, Sr. Desembargador. Não é nada... Venha V. Exª comigo...

E amparando-o sempre, levou-o consigo a um quarto desabitado, que era a cozinha daquele primeiro andar: aí havia um lavatório e uma esponja dependurada na parede por um barbante.

(continua...)

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