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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- E olha que talvez! - exclamou D. Felicidade, batendo com o leque no braço de Luísa, jáesperançada.

Luísa sorriu, ia responder - mas viu o sujeito pálido de pêra longa que fitava nela os seus olhos langorosos, com obstinação. Voltou o rosto importunada. O sujeito afastou-se, retorcendo a ponta da pêra.

Luísa sentia-se mole; o movimento rumoroso e monótono, a noite cálida, a acumulação da gente, a sensação de verdura em redor davam ao seu corpo de mulher caseira um torpor agradável, um bem-estar de inércia, envolviam-na numa doçura emoliente de banho morno. Olhava com um vago sorriso, o olhar frouxo; quase tinha preguiça de mexer as mãos, de abrir o leque.

Basílio notou o silêncio. - Tinha sono? D. Felicidade sorriu com finura.

- Ora, vê-se sem o seu maridinho! Desde que o não tem está esta mona que se vê.

Luísa respondeu, olhando Basílio instintivamente:

- Que tolice! Até estes dias tenho andado bem alegre!

Mas D. Felicidade insistia:

- Ora, bem sabemos, bem sabemos. Esse coraçãozinho está no Alentejo!

Luísa disse, com impaciência:

- Não hás de querer que me ponha aos pulos e às gargalhadas no Passeio.

- Está bem, não te enfureças! - exclamou D. Felicidade. E para Basílio:

- Que geniozinho, hem!

Basílio pôs-se a rir.

- A prima Luísa antigamente era uma víbora. Agora não sei...D. Felicidade acudiu:

- É uma pomba, coitada, é uma pomba! Não, lá isso, é uma pomba.

E envolvia-a num olhar maternal.

Mas a família taciturna ergueu-se, sem ruído - e as meninas adiante, os pais atrás, afastaram-se lugubremente, sucumbidos.

Basílio imediatamente apossou-se da cadeira ao pé de Luísa - e vendo D. Felicidade a olhar distraída:

- Estive para te ir ver de manhã - disse baixinho a Luísa.

Ela ergueu a voz, muito naturalmente, com indiferença:

- E por que não foste? Tínhamos feito música. Fizeste mal. Devias ter ido...

D. Felicidade quis então saber as horas. Começava a enfastiar-se. Tinha esperado encontrar o

Conselheiro; por ele, para lhe parecer bem, fizera o sacrifício de se apertar! Acácio não vinha, os gases começavam a afrontá-la; e o despeito daquela ausência aumentava-lhe a tortura da digestão. Na sua cadeira, o corpo mole, ia seguindo a multidão que girava incessantemente, numa névoa empoeirada.

Mas a música, no coreto, bateu de repente, alto, a grande ruído de cobres, os primeiros compassos impulsivos da marcha do Fausto. Aquilo reanimou-a.

Era pot-pourri da ópera - e não havia música de que gostasse mais. Estaria para a abertura de São Carlos, o Sr. Basílio?

Basílio disse, com uma intenção, voltando-se para Luísa:

- Não sei, minha senhora, depende...

Luísa olhava, calada. A multidão crescera. Nas ruas laterais mais espaçosas, frescas, passeavam apenas, sob a penumbra das árvores, os acanhados, as pessoas de luto, os que tinham o fato coçado. Toda a burguesia domingueira viera amontoar-se na rua do meio, no corredor formado pelas filas cerradas das cadeiras do asilo; e ali se movia entalada, com a lentidão espessa de uma massa derretida, arrastando os pés, raspando o macadame, num amarfanhamento a garganta seca, os braços moles, a palavra rara. Iam, vinham, incessantemente para cima e para baixo, com um bamboleamento relaxado e um rumor grosso sem alegria e sem bonomia, no arrebanhamento passivo que agrada às raças mandrionas; no meio da abundância das luzes e das festividades da música, um tédio morno circulava, penetrava como uma névoa; a poeirada fina envolvia as figuras, dava-lhes um tom neutro; e nos rostos que passavam sob os candeeiros, nas zonas mais diretas de luz, viam-se desconsolações de fadiga e aborrecimento de dia santo.

Defronte as casas da Rua Ocidental tinham na sua fachada o reflexo claro das luzes do Passeio; algumas janelas estavam abertas, as cortinas de fazenda escuras destacavam sobre a claridade interior dos candeeiros. Luísa sentia como uma saudade de outras noites de verão, de serões recolhidos. Onde? Não se lembrava. O movimento então retraía-a; e encontrava em face, fitando-a numa atitude lúgubre, o sujeito de pêra longa. Debaixo do véu sentia a poeira arder-lhe nos olhos; em redor dela gente bocejava.

D. Felicidade propôs uma volta. Levantaram-se, foram rompendo devagar; as filas das cadeiras apertavam-se compactamente, e uma infinidade de faces a que a luz do gás dava o mesmo tom amarelado olhavam de um modo fixo e cansado, num abatimento de pasmaceira. Aquele aspecto irritou Basílio, e como era difícil andar lembrou - "que se fossem daquela sensaboria".

Saíram. Enquanto ele ia comprar os bilhetes, D. Felicidade, deixando-se quase cair num banco sob a folhagem de um chorão, exclamou aflita:

- Ai, filha! Estou que arrebento!

Passava a mão no estômago; tinha a face envelhecida.

(continua...)

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