Por Eça de Queirós (1870)
— Nunca viajei neste mar, capitão — respondi.- São portugueses, não F... Aquela luz é o farol de Ceuta. Era uma luz melancólica e humilde. Nenhum de nós se impor tava com Ceuta. Daí a momentos descemos à câmara. Eu estava surpreendido, nunca tinha ouvido à condessapalavras que ca racterizassem tanto o estado do seu coração. Achava-se naquele período em que um amor pode apoderar-se para sempre de uma existência.Que sucederia se lhe aparecesse um homem belo, nobre, forte, que lhe dissesse de joelhos, uma noite, sob o luar como há pouco, as coisas infinitas da paixão?
Na manhã seguinte avistámos o morro de Gibraltar. Desem barcámos. Numa praça, àentrada, um regimento inglês, de unifor mes vermelhos, manobrava ao som da canção do general Boum.
— Detesto os Ingleses — disse a condessa.- O quê?! — gritou o conde com uma voz indignada. — Os In gleses! Detestas os
Ingleses?E voltando-se para mim, com uma atitude profundamente pasmada e abatida — Detesta os Ingleses, menino!
II
Senhor redactor. — Em Gibraltar fomos para o Club House-Hotel, Os quartos abriamsobre a muralha do lado do mar; víamos defronte, afogada numa luz admirável, uma linha de montanhas, e mais longe, do lado do estreito, nas brumas esbatidas, a terra de África.Fomos passear logo num daqueles canos de Gibraltar que são dois bancos paralelos, costas com costas, assentes sobre duas rodas enormes, puxados por um cavalo inglêsrobusto, rápido, e tendo já adquirido nas convivências espanholas um espírito tei moso.
O belo passeio de Gibraltar é uma estrada, que, a meia verten te por cima da cidade, contorna a montanha, e é orlada de cottages, de jardins, de pomares, cheios já das estranhase poderosas vegetações do Oriente, aloés, nopais, cactos e palmeiras; e vê-se sempre, através da folhagem, lá no fundo, a azul imobilidade luminosa do Mediterrâneo.A condessa estava encantada; aquela luz ampla e magnífica, a água pesada pelo sol, o silêncio religioso do espaço azul, as brumas vaporosas e roxas das montanhas, a vigorosa força das vegetações, tudo dava àquela pobre alma contraída uma expansão inesperada. Ria,queria correr, tinha verve, e uma luz bailava-lhe nos olhos. Fomos sentar-nos no jardim de Gibraltar. Os senhores Ingle ses artilharam-no talvezum pouco demais. Não há fontes, mas há estátuas de generais; as pirâmides de balas estão encobertas pelas moitas de rosas, e a estúpida impassibilidade dos canhões assen ta sob arbustos de magnólias. Mas, que serenidade! Que silêncio abstracto e divino! Que ar imortal! Parece que as coisas, os seres vegetais, a terra, a luz, tudo está parado, absorto numa contempla ção, suspenso, escutando, respirando sem rumor! Em baixo está o Mediterrâneo, liso como um cetim, delicado, coberto de luz. Mais longe, vaporizadas,docemente esbatidas nas névoas azuis, as du ras formas d o monte Atlas. Nada se move: apenas as vezes uma pomba passa, voando com uma serenidade inefável. Um momen to veio-nos debaixo, onde passava um regimento de Highlanders, o som das cornemuses quetocavam as árias melancólicas das mon tanhas da Escócia. E os sons chegavam-nos doces, etéreos, como se fossem habitantes sonoros do ar.A condessa tinha ficado sentada, e imóvel, calada, penetrada daquela admirável serenidade das coisas, da beleza da luz, do sono da água, dos vivos aromas.
— Não é verdade — disse — que dá vontade de morrer, aqui, brandamente, só...- Só? — perguntei eu.
Ela sorriu, com os olhos perdidos na bela decoração do horizonte luminoso.- Só... — disse ela — não! — Ah! minha rica prima, cuidado! cuidado! — observei eu. — Começa-se cismando assim vagamente, vem um pequeno sonho bem inocente, acampa no nosso coração, começaa cavá-lo, e depois, querida prima, e depois...
— E depois vai-se jantar — disse o conde que tinha chegado ao pé de nós, radiante porter apertado a mão de um coronel inglês, e colhido um cacto vermelho. Descemos ao hotel. À noite passeávamos no Martillo. Era a ho ra de recolher; uma fanfarra inglesa tocava uma melopeia melan cólica. Ouviu-se no mar um tiro de peça.- Chegou o paquete da Índia — disse o nosso guia. E no alto do morro um canhão respondeu com um eco cheio e poderoso.
— Desembarcam, no dia em que chegam, os passageiros? — perguntei.- Os militares quase sempre, senhor. Vão desembarcar lá em baixo, com licença do governador.Quando pelas 10horas entrámos, depois de termos passeado ao luar nas esplanadas, sentimos na sala de Club-House, ruído, vozes alegres, estalar de rolhas, toda a feição de uma ceia de ho mens. A condessa subiu para o seu quarto. Eu entrei na sala, com o conde. Oficiaisingleses que vinham de Southampton, e que iam para a estação de Malta, tinham desembarcado, e ceavam.- Nós tínhamo-nos sentado, bebendo cerveja, quando tive ocasião de aproximar de um dos oficiais ingleses que estava próximo de mim, o frasco da mostarda. O frasco caiu, sujoume, ele sorriu com polidez, eu ri alegremente, conversámos, e ao fim da noite pas sávamosambos pelo braço, na esplanada que ficava defronte das janelas do hotel e que está sobre o mar. Havia um amplo e calado luar que espiritualizava a decoração admirável dasmontanhas, a vasta água imóvel.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.