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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

Pensativamente deixou a borda do terraço, como se a presença da Cidade, estendida na planície, fosse escandalosa. E caminhamos devagar, sob a moleza cinzenta da tarde, filosofando – considerando que para esta iniqüidade não havia cura humana, trazida pelo esforço humano. Ah, os Efrains, os Trèves, os vorazes e sombrios tubarões do mar humano, só abandonarão ou afrouxarão a exploração das Plebes, se uma influência celeste, pôr milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes converter as almas! O burguês triunfa, muito forte, todo endurecido no pecado – e contra ele são impotentes os prantos dos Humanitários, os raciocínios dos Lógicos, as bombas dos Anarquistas. Para amolecer tão duro granito só uma doçura divina. Eis pois esperança da terra novamente posta num Messias!... Um decerto desceu outrora dos grandes Céus; e, para mostrar bem que mandado trazia, penetrou mansamente no mundo pela porta dum curral. Mas a sua passagem entre os homens foi tão curta! Um meigo sermão numa montanha, ao fim duma tarde meiga; uma repreensão moderada aos Fariseus que então redigiam o Boulevard; algumas vergastadas nos Efrains vendilhões; e logo, através da porta da morte, a fuga radiosa para o Paraíso! Esse adorável filho de Deus teve demasiada pressa em recolher a casa de seu Pai! E os homens a quem ele incumbira a continuação da sua obra, envolvidos logo pelas influências dos Efrains, dos Trèves, da gente do Boulevard, bem depressa esqueceram a lição da Montanha e do lago de Tiberíade – e eis que pôr seu turno revestem a púrpura, e são Bispos, e são Papas, e se aliam à opressão, e reinam com ela, e edificam a duração do seu Reino sobre a miséria dos sem-pão e dos sem lar! Assim tem de ser recomeçada a obra da Redenção. Jesus, ou Guatama, ou Cristna, ou outro desses filhos que Deus pôr vezes escolhe no seio duma Virgem, nos quietos vergéis da Ásia, deverá novamente descer à terra de servidão. Virá ele, o desejado? Porventura já algum grave rei do Oriente despertou, e olhou a estrela, e tomou a mirra nas suas mãos reais, e montou pensativamente sobre o seu dromedário? Já pôr esses arredores da dura Cidade, de noite, enquanto Caifás e Madalena ceiam lagosta no Paillard, andou um Anjo, atento, num vôo lento, escolhendo um curral? Já de longe, sem moço que os tanja, na gostosa pressa dum divino encontro, vem trotando a vaca, trotando o burrinho?

-Tu sabes, Jacinto?

Não, Jacinto não sabia – e queria acender o charuto. Forneci um fósforo ao meu Príncipe. Ainda rondamos no terraço, espalhando pelo ar outras idéias sólidas que no ar se desfaziam. Depois penetrávamos na Basílica – quando um Sacristão nédio, de barrete de veludo, cerrou fortemente a porta, e um Padre passou, enterrando na algibeira, com um cansado gesto final e como para sempre, o seu velho Breviário.

-Estou com uma sede, Jacinto... Foi esta tremenda Filosofia!

Descemos a escadaria, armada em arraial devoto. O meu pensativo camarada comprou uma imagem da Basílica. E saltávamos para a vitória, quando alguém gritou rijamente, numa surpresa:

-Eh Jacinto!

O meu Príncipe abriu os braços, também espantado: -Eh Maurício!

E, num alvoroço, atravessou a rua, para um café, onde, sob o toldo de riscadinho, um robusto homem, de barba em bico, remexia o seu absinto, com o chapéu de palha descaído na nuca, a quinzena solta sobre a camisa de seda, sem gravata, como se descansasse num banco, entre as sombras do seu jardim.

E ambos, apertando as mãos, se admiravam daquele encontro, num Domingo de Verão, sobre as alturas de Montmartre.

-Ó! eu estou aqui no meu bairro! – exclamava alegremente Maurício. Em famíçia, em chinelos... Há três meses que subi para estes cimos da Verdade... Mas tu na Santa Colina, homem profano da planície e das ruas de Israel!

O meu Príncipe mostrou o seu Zé Fernandes:

-Com este amigo, em peregrinação à Basílica... O meu amigo Fernandes Lorena... Maurício de Mayolle, velho camarada.

Mr. De Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso, lembrava Francisco de Valois, Rei de França) ergueu o seu chapéu de palha. E empurrava uma cadeira, insistia que nos acomodássemos para um absinto ou para um bock.

-Toma um bock, Zé Fernandes! – lembrou Jacinto. – Tu estavas a ganir com sede! Corri lentamente a língua sobre os beiços mais secos que pergaminhos:

Estou a guardar esta sedezinha para logo, para jantar, com um vinhozinho gelado!

Maurício saudou, com silenciosa admiração, esta minha avisada malícia. E imediatamente, para o meu Príncipe:

-Há três anos que não te vejo, Jacinto... Como tem sido possível, neste Paris que é uma aldeola e que tu atravancas?

-A vida, Maurício, a espalhada vida... Com efeito! Há três anos, desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda visitas esse santuário?

Maurício atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um mundo:

-Ó! Há mais dum ano que me separei dessa bicharia herética... Uma turba indisciplinada, meu Jacinto! Nenhuma fixidez, um diletantismo estonteado, carência completa e cômica de toda a base experimental... Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e à Parola do 37, e à Cerveja ideal, o que reinava?...

Jacinto catou lentamente as suas recordações pôr entre os pêlos do bigode:

-Eu sei!... Reinava Wagner e a Mitologia Eddica, e o Raganarock, e as Normas... Muito Pré-Rafaelismo também, e Montagna, e Fra-Angélico... Em moral, o Renanismo.

(continua...)

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