Por Raul Pompéia (1882)
Uma aragem igual e constante passava pelas árvores, produzindo um rumor comparável ao de muitos regatos ciciando em coro. Os lagos do parque afetavam um negror profundo, cortado de vez em quando pelo ziguezague sinuoso e brilhante do reflexo dos lampiões, dispersos nas alamedas como sentinelas perdidas.
Com toda a escuridão, a noite estava formosíssima e tinha apreciáveis encantos.
Sentiam-se perfumes, ninguém via as flores; ouvia-se um chocalhar que fazia sede, ninguém via a cascata; cantavam grilos, ninguém via os insetos...
Reinava a noite em toda a sua majestade. Somente resistiam-lhe os lampiões, os reflexos do lago, o turbilhão dos astros e uma chusma brincalhona de pirilampos que cabriolavam no mato como estrelas fugidas do céu...
O duque errou durante algum tempo pelo parque, embebido em pensamentos que lhe traziam sorrisos à flor do rosto. Refletia na sua força que o fazia triunfar dos homens e das mulheres. Era como um rei: rei pelo dinheiro e rei pelo sangue. Não havia conta para aqueles que o rodeavam como miríades de satélites, cada qual mais empenhado em causar-lhe alegria. Tinha visto o curioso espetáculo de todas as coisas que o comum dos homens apelida sagradas prostituírem-se-lhe aos pés. Vira a justiça despedaçar a venda dos olhos para buscar a que seria agradável a ele; vira a honra entreguar-se-lhe como uma taverneira sem vergonha; vira a dignidade feita baixeza; a honestidade feita impudor; a virtude feita hipocrisia; a hipocrisia feita descaramento; o descaramento feito arma de vitória... Vira o mundo transformado em torno dele... tudo somente pelo poder do seu nome! Era bem forte!
Contava mais vitórias do que Napoleão. E somente havia uma diferença entre o conquistador e ele. É que Napoleão triunfara da força e o duque triunfara da fraqueza. Os principais feitos do general se haviam passado no campo das batalhas e os do duque no segredo das alcovas.
Apesar de seus brilhantes precedentes, o fidalgo não estava totalmente seguro dos resultados dos cometimento que ia levar a cabo.
O Manuel fizera-lhe saber que a caça era arisca; tinha uma inocência petulante e esquiva, capaz de frustar a mais juanesca estratégia...
Muitas vezes, é certo, havia encontrado a inocência no seu caminho, mas conseguira levá-la de vencida com palmadinhas e sorrisos, achando por fim como última resistência algumas lágrimas sem significação.
Desta vez, contudo, o caso afigurava-se-lhe um pouco mais árduo; a inocência vinha armada de brejeirice e sarcasmo; com certeza seria difícil. Há, porém, frutos pelos quais se dá de boa vontade o incômodo de trepar à árvore.
Quantas vezes não se fere a gente em espinhos para tirar uma rosa?
Impelido por esta idéia, o duque de Bragantina tomou resolutamente a direção da casa do seu íntimo Manuel de Pavia.
De longe, pelo ar, vinham notas de bronze, sonolentas como bocejos... Marcavam meia-noite...
CAPÍTULO XIII
Vejamos o que ia pela casa do velho Januário...
Por volta das duas horas da tarde, aparecera Claudina, a filha de Pavia e camarada de Conceição convidando a amiga a ir à casa dela. Januário exultou, vendo que Pavia por seu lado trabalhava para facilitar o negócio. Apressou-se em fazer Conceição sair, admirando-se muito de não ser impedido pela resistência de Emília, com que contava. A nora mudara de modo de pensar... Conceição, muito alegre por haver curado a boa Emília com seus carinhos, achou muito a propósito um passeio à casa da amiga Claudina...
Não se preocupou mais com a doença da nora de Januário.
E foi-se, rindo de prazer, de mãos dadas com Claudina, prelibando as agradáveis surpresas que reservava-lhe o passeio...
Pelo resto do dia, Emília não sentia-se tão boa como esperava. Começou a sentir uma debilidade que dizia-lhe que as melhoras experimentadas haviam sido fictícias... Não quis admitir. A fraqueza progredia e ela resistia-lhe com todas as energias. Não quis afastar-se do serviço em que auxiliava a velha sogra. Trabalhou. Mas a fraqueza continuava, cada vez mais profunda, Reagiu ainda; não pôde com a moléstia.
Ocultou, enquanto pôde, o mal que a prostrava. Afinal sucumbiu.
— Precisava estar boa por amor da minha Conceição! — murmurou ela, ao voltar para o leito...
Com a recaída de Emília, voltaram os cuidados da mulher de Januário em relação ao peso do serviço com que se ia ver atrapalhada, caso morresse a sirigaita...
Tranqüilizou-se, porém, com esta reflexão:
— A Conceição já foi... o dinheiro está seguro... Teremos quem nos sirva...
À tardinha, a caridosa duquesa, visitando os moradores da aldeia da quinta, foi bater à porta dos velhinhos do beco.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. As joias da coroa. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17439 . Acesso em: 6 abr. 2026.