Por Raul Pompéia (1881)
Na ocasião em que passava pelo casebre de zinco, viu um molecote dos seus sete anos, vestido de riscado, cabeçudo como um feto, preto como o diabo, salientes os olhos, como se já não lhes houvesse lugar dentro do crânio. Sem se preocupar com Alexandre, o demônico, que levava na mão um objeto oculto, foi até à janelinha de peitoril, carcomido, onde, como era freqüente, cintilava a estrela Vésper e entregou-lhe... uma camélia vermelha.
Pouco lido na filologia das flores e em simbolismos de namoro o mancebo não adivinhou o sentido daquilo. Bem possível era que nada mais significasse do que simples oferta delicada de um galanteador, talvez mesmo de qualquer amiga da mocinha do casebre. Não sei que palpite o fazia pender para a primeira hipótese. Não havia dúvida! Com ou sem explicação gramatical, aquilo era uma frechada de Cupido!... Tinha notado que a mocinha se debruçara na janela, espiando para os pilares que abrem passagem do terreno pertencente às pedreiras para a rua da Assunção.
Aí devia encontrar a verificação da sua desconfiança. Enfrentou de repente com um rapagão alto, robusto, moreno, fisionomia farta de satisfações, tênues bigodes negros, lábios risonhos e grossos; tudo sob um pequeno chapéu de palha e acima de um peito largo, apertado casemiras. Trazia na mão um chicotinho com argola e corrente de prata ao cabo.
Alexandre ficou sombrio; e seguiu para sua residência, absorto em solilóquios mentais...
Três ou quatro dias depois, também à tardinha, de volta às pedreiras, Alexandre deparou outra vez com o tal rapagão, pouco distante do casebre da moça contemplando atentamente a muralha de granito.
- Que imensidade! Murmurava, quando Alexandre passou.
Implicante sujeito! Esse marmanjo era uma ameaça terrível para a costureirinha.
Alexandre pensou em intrometer-se no romance, tomar contas ao marmanjo. O nobre mancebo estava possesso de ciúme; mas o ciúme generoso que se sente, ao ver um garoto arrancando uma rosa ao pedúnculo para depois abandonar ao esgoto. Se era tão agradável apreciar-se a flor...
E bem garoto lhe parecia o marmanjo.
Desta ocasião em diante, o habitué dos pedreiros não tornou a ver, nem a sua Vésper, nem a sua estrela d'alva...
Isto causou desgosto a Alexandre. Os seus costumados passeios foram deixando de ser freqüentes. A vista daqueles lugares trazia-lhe à mente tristes recordações da rapariguinha do pardieiro de zinco, de quem Alexandre egoisticamente não se quisera lembrar.
Contudo, o moço de vez em quando lá ia...
Assim foi que, por um dia tempestuoso, ele se abalou de casa a visitar o sítio antigamente de sua predileção. Alexandre freqüentara a pedreira como quem freqüenta um jardim público, que não lhe fica longe de casa. Era um hábito adquirido, um hábito na verdade excelente como higiene.
O mancebo, porém, se desgostara um tanto com o seu hábito...
Eram cinco horas ou mais. O céu estava carrancudo como um homem perverso. Cúmulos enormes estampavam-se na abóbada. Moviam-se lento. Formavam monstruosos leões de escancaradas fauces que iam derramando pelo ar negras jubas de proporções fabulosas; formavam gigantes, que engordavam, avultavam a olhos vistos e dissolviam-se por fim em conglobamentos informes.
Ouviam-se uns estremecimentos sonoros, que chegavam das nuvens, como se lá em cima se afinassem os tambores da trovoada.
Apesar de tudo, Alexandre saiu a passeio. Se a tempestade desabasse, ele gozaria um espetáculo admirável nas pedreiras.
No fim de dez minutos estava o moço à raiz das colossais muralhas de macacos, dispostos como os lances de cantaria de uma fortaleza respeitável. Concedeu dous olhares a essas pilhas de paralelepípedos, aqui e ali desmoronados pelas alvanias, e tomou a ladeira de saibro grosso o cangica que, pelo meio de duas carreiras de lajedos, servia para a subida de veículos até dous terços da elevação das pedreiras.
Por fim, sentou-se num dos lajedos e olhou em torno. Tudo estava deserto. Apenas sentiam-se ao longe as marteladas férreas de um picão.
No espaço encontravam-se as eletricidades, abraçando-se em trovões e se beijando em coriscos. Na planície, em Botafogo, havia poucos rumores e muita escuridão difusa. As negruras do firmamento vazavam na terra uma noite precoce.
De improviso, caiu a chuva.
Pingos grossos como cusparadas, que num momento multiplicaram-se fazendo um aguaceiro cerrado, abundante, torrencial.
Alexandre abriu o guarda-chuva e abrigou-se por baixo de um penhasco cavado. Ouviu então o ruído de um desmoronamento.
- Mau! Mau! Murmurou, vamo-nos embora que ainda a casa nos esmaga...
E saiu correndo do abrigo que escolhera. Desceu a ladeira até que avistou uma espécie de barraca, feita de esteiras, debaixo da qual havia alguém.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.