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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

Estava reunida a troupe sem faltar uma só pessoa. O visconde consultou o relógio: eram três e meia.

— Cedo — murmurou.

— Querem tomar alguma coisa? — ofereceu o secretário. — Um vermute, um conhaque, um copo de água gelada.

Ninguém queria; em todo caso foram repousar à sombra do caramanchão, enquanto o sol ainda estava quente.

Adelaide aparentava a mesma fisionomia naturalmente ingênua do costume. Evaristo sempre despreocupado, não adivinhou, através do seu rosto, a mais leve contrariedade. Já se habituara àqueles longes de melancolia, que eram a verdadeira expressão do olhar da esposa. D. Branca notou porém um tom cerimonioso na voz do Furtado, quando este se dirigia a Adelaide. Desconfiança, talvez, mas notara... e ela que conhecia bem o gênio do esposo, imaginou logo o fio de uma secreta história de amor...

As cinco horas, nova refeição desafiava o apetite do bacharel e do Raul, somente deles, porque as outras pessoas torceram o nariz à galinhola e à maionese de salmão; contentaram-se parcamente com uma fatia de queijo holandês, um pouco de marmelada e vinho de Bourgogne. O visconde acrescentou água de Selters, limpando o bigode com cerimoniosa fidalguia.

Evaristo e Raul é que não dispensaram a comezaina e entraram, de rijo, na asa de galinha e na maionese.

— Vocês não sabem o que estão perdendo! — excitava o bacharel, sem cerimônia, trincando as azeitonas. — Um bocadinho de maionese, Adelaide!

O Raul achava graça nas palavras e no apetite de Evaristo e ria mastigando, com um risinho dobrado e sonoro que fazia os outros rir.

— Então, D. Branca? Mostre ao menos que é filha do sul! — Não, senhor Evaristo, muito obrigada — sorriu corando a elegante fluminense.

— E o senhor visconde? e o amigo Furtado? Olha que gente!...

Abriam-se garrafas de vinho. O Antônio sempre alerta movimentava o quadro, exibindo as suas qualidades de copeiro que ama o ofício.

— Não vás indigestar... — advertiu o secretário ao filho.

No mesmo instante Adelaide recomendava ao marido que "tivesse cuidado com a maionese".

A luz do sol desmaiava num crepúsculo cheio de misteriosas paIpitações. Descia das montanhas um ar úmido; o som das cascatas vinha impregnado do aroma da floresta, como se dele fizesse parte, e evocava, aquela hora, longes de natureza tropical, saudosas ave-marias da infância... O parque com as suas árvores colossais, com os seus renques de palmeiras, com os seus túneis de verdura e com as suas planícies de grama, onde brotavam pequeninos eucaliptos e obscuros vegetais de famílias obscuras da Índia e do norte da América - o grande parque ia-se revestindo de melancolia e cada árvore com a sua etiqueta explicativa tinha um ar fúnebre de cemitério...

— Agora podemos ir - disse Evaristo —, mesmo porque vem caindo a noite...

Dirigiram-se todos para o portão do Jardim.

CAPÍTULO V

Adelaide recolheu-se triste naquela noite; por maiores esforços que fizesse, não podia esquecer a afronta do secretário aos seus brios de mulher casada, e o que mais a impressionava era o desplante, o cinismo audacioso com que ele a beijara... — Que coragem de homem, Senhor! Quase à vista de todos, em pleno Jardim Botânico, num lugar público! Eis aí quando a gente perde a cabeça e comete uma loucura, eis aí!

Depois falam, depois não dão razão, e uma mulher vê-se obrigada sofrer os maiores insultos, porque tem medo de que lhe aconteça pior...

Já há dias notara certas liberdades de Furtado, certa maneira de lhe falar, de lhe dizer as coisas baixando a voz, ameigando o sotaque, olhando-a insistentemente; já há dias notara... mas, palavra de honra como não supunha o marido de D. Branca um homem sem escrúpulos, um sedutor, um amigo desleal... Pobre Evaristo! nem sequer imaginava...

E caía-lhe n'alma um desgosto, uma tristeza, um cansaço da vida, um peso enorme. Oh, quanto mais para dentro da civilização, mais horrores, mais espinhos, como no interior de uma floresta de cardos, povoada de insetos venenosos. Homens e mulheres traem-se com a mesma facilidade com que se juram amar eternamente uns aos outros. Bem lhe diziam na província que o Rio de Janeiro era um centro de perdição, uma Babilônia de vícios, bem lhe diziam!... Melhor prova ela não podia ter: o Sr. Luís Furtado, aristocrata de Botafogo, pai de família, mostrava-se dedicado aos outros para poder abusar.. E assim era tudo.

O cérebro de Adelaide enchia-se de considerações, enquanto Evaristo mergulhava num sono calmo e reparador. O bacharel não esperou pela hora habitual de se deitar, fatigado do passeio, com uma invencível morrinha no corpo, os olhos ardendo, a vista turva, esvaziou uma moringa d'água fresca e estendeu-se na cama, na bela cama de casal. "Não era de bronze para resistir às conseqüências de um piquenique!" E dormia, o Evaristo, como o mais feliz de todos os bacharéis.

(continua...)

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