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#Romances#Literatura Brasileira

Bom-Crioulo

Por Adolfo Caminha (1895)

Ergueu-se trôpego, bambo, os olhos como duas tochas, uma equimose roxa na face, porque adormecera com a cabeça no joelho em posição de múmia indígena. Fez-lhe bem o ar livre da manhã; a luz que se esperdiçava no espaço reanimou-o; todo ele sentiu-se vibrar; oferecia-se ao castigo, sem medo, impávido e sereno, odiando intimamente, lá no fundo de sua natureza humana, aquela gente que o cercava exultando, talvez, com a sua desgraça. Não tinha ninguém por ele — era um abandonado, um infeliz... O próprio Aleixo onde estaria?

Essa lembrança o comoveu. Sim, o Aleixo era a causa de tudo... Enquanto vivera na companhia do grumete, nunca se embriagara positivamente: bebia, de longe em longe, um golezinho de cachaça para aquecer, e ficava satisfeito. Agora não, só se contentava com uma terça e gostava de repetir. — Ah! seu Aleixo, seu

Aleixo!...

Como da outra vez, na corveta, houve “mostra geral”, a guarnição inteira formou à ré, na tolda.

O castigo foi tremendo.

— Não se iluda a guarnição deste navio! perorou o comandante. Desobediência, embriaguez e pederastia são crimes de primeira ordem. Não se iludam!...

E, como da outra vez, Bom-Crioulo emudeceu profundamente sob os golpes da chibata. Apanhou calado, retorcendo-se a cada golpe na dor imensa que o cortava d’alto a baixo, como se todo ele fosse uma grande chaga aberta, viva e cruenta... Morria-lhe na garganta um grunhido estertoroso e imperceptível, cheio de angústia, comprimido e seco; dilatavam-se-lhe os músculos da face em contrações galvânicas; o sangue convulsionado, rugia dentro, nas artérias, no coração, no íntimo de sua natureza física, palpitante, caudaloso, numa pletora descomunal!

Ele sofria tudo com aquele orgulho selvagem de animal ferido, que se não pode vingar porque está preso, e que morre sem um gemido, com um olhar aceso de cólera impotente!

Errava na luz intensa do meio dia uma tristeza vaga e universal. Lá de fora, da barra, vinha, encrespando a agia, um arzinho fresco impregnado de maresia. A cidade, em anfiteatro, cintilava entre montanhas na lânguida apatia daquela hora calmosa. O vulto do couraçado, largo e imóvel no meio da baía, com seu enorme aríete, com sua cobertura de lona, resplandecia destacado, longe dos outros navios, longe de terra, fantástico, arquitetural!

À última chibatada, Bom-Crioulo rodou e caiu em cheio sobre o convés, porejando sangue. Ah! mas não havia no seu dorso uma nesga de pele que não fosse atingida pelo vime. Caiu fatalmente, quando já não lhe restava a menor energia no organismo, quando se tornara desumano o castigo e a dor sobrepujara a vontade.

Só então apareceu o médico, trêmulo e nervoso, dizendo que “não era nada, que não era nada; que trouxessem o vidrinho de éter e água, um pouco d’água...”

O comandante aproximou-se também, mas retirou-se logo com o seu desdenhoso aspecto de fofa nobreza: — “Não se iludam, não se iludam!”

E daí a pouco largava um escaler sem flâmula, conduzindo o marinheiro para o hospital.

Fica-te malvado, fica-te! exclamou Bom-Crioulo, voltando-se para o couraçado, em caminho: — Fica-te!

Aleixo nesse dia estava de folga, e muito cedo, cousa de um hora, veio à terra impelido por uma grande saudade que o fazia agora escravo da portuguesa. Receava encontrar Bom-Crioulo, ter de o suportar com seus caprichos, com o seu bodum africano, com os seus ímpetos de touro, e esta lembrança entristecia-o como um arrependimento. Ficara abominando o negro, odiando-o quase, cheio de repugnância, cheio de nojo por aquele animal com formas de homem, que se dizia seu amigo unicamente para o gozar. Tinha pena dele, compadecia-se, porque, afinal, devia-lhe favores, mas não o estimava: nunca o estimara!

Subiu devagar, pé ante pé, a escada do sobradinho, meticulosos, agarrandose à parede, ouvido alerta, comprimindo a respiração. — Felizmente a porta de cima estava aberta...

De vez em quando pisava em falso e os coturnos de bezerro gemiam surdamente. — Era o diabo se o Bom-Crioulo estivesse...

Foi andando sempre cauteloso, té à sala de jantar. Ninguém! Enfiou pela cozinha; e, da janela que abria para o quintal, viu lá baixo, vergada sobre um montão de roupa úmida, a portuguesa em tamancos, arregaçada e sem casaco, às voltas, cantarolando. O instinto fê-la voltar-se e olhar para cima; seu primeiro movimento foi um grito de surpresa e alegria: — Oh! o pequenino, o meu pequenino! já lá vou. Espera, sim?

Aleixo pediu silêncio, com o dedo na boca, e, indicando o sótão, perguntou, debruçando-se à janela, sem Bom-Crioulo estava...

— Qual Bom-Crioulo! rompeu D. Carolina alto e sem mistério, estabanadamente. Qual Bom-Crioulo! Tua negra está só, meu pequenino! Já lá vou.

Mas o grumete não se conteve: desceu ao quintal para examinar aquela fartura de mulher em trajos de lavadeira, que seus olhos viam extasiados.

Com efeito, a portuguesa estava irresistível para um adolescente nas condições de Aleixo, bisonho em aventuras dessa ordem, e cuja virilidade apenas começava a destoucar-se.

(continua...)

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