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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

No dia seguinte a esta conversa, que sem dúvida ia ter uma grande influência moral no destino de minha filha, mandei preparar as malas e parti com ela para Petrópolis, combinando entre nós duas que de nada se daria parte ao pretendente. Manobra de guerra! Queria provocar o inimigo. A minha retirada brusca era simples negaça feita ao assaltante. Convinha que Leandro, desde logo, se fosse habituando ao meu sistema estratégico.

Produziu efeito. Ele, três dias depois, surgia-nos por lá, com um ar de hesitação solerte e um grande ramo de camélias frescas. Recebi por minha parte a visita um pouco friamente, e nenhuma de nós duas insistiu com ele para que se demorasse. O rapaz, logo à primeira despedida, foi-se, escabreado e vermelho de confusão.

Como no outro dia, encontrando-nos na rua, se embandasse conosco para um passeio à Renana e declarasse que passaria o resto do mês em Petrópolis, tocamos na manhã seguinte para a cidade, sem que ele desse pela nossa retirada. Palmira tentara interceder desta vez pelo namorado; arriscara mesmo a súplica de um dia mais de demora; eu, porém, cortei-lhe a palavra com um olhar, em que a pobre criança leu toda a inutilidade da sua pretensão.

Foi um mês depois disso que se deu o pedido de casamento.

Era domingo; tínhamos acabado de jantar e havíamos passado para o gabinete de trabalho que fora de meu marido, quando, depois de ouvir parar um carro à porta da rua, veio o criado anunciar-me que o Sr. Leandro, vestido de casaca, estava à espera na saleta do corredor e desejava falar-me.

Compreendi logo do que se tratava: César já me tinha preparado; mas nem por isso foi menos agudo o choque que senti no coração. Troquei um olhar com Palmira, que abaixou as pálpebras enrubescendo. Mandei que o criado conduzisse o visitante para o salão, e disse depois a minha filha, cujo crescente sobressalto lhe fazia arfarem os seios, que se não nos apresentasse sem ser chamada; passei-lhe com os olhos uma rápida revista da cabeça aos pés, fiz-lhe ligeiras correções no penteado, dei-lhe um beijo e saí do gabinete.

Ó meu Deus! ia travar-se o grande momento, que de antemão me fazia tremer de medo; medo de que o ridículo, num só instante, derribasse todos os meus castelos de mãe amorosa e sonhadora. O que iria passar-se naquela sala entre mim e o pretendente de minha filha?... Mas era preciso não hesitar no que estava por mim determinado, porque assim exigia a felicidade dela! Entrei um instante no quarto do oratório e, numa ligeira súplica, pedi coragem a Deus; segui depois até ao toucador, alisei melhor os cabelos sobre as fontes, corri os olhos rapidamente pela roupa, e fui ter com a visita.

Entrei na sala vagarosamente, afetando grande tranqüilidade; havia, porém, de estar ainda ofegante e pálida.

Leandro mostrava-se francamente comovido. Ao ver-me, precipitou-se ao meu encontro e balbuciou algumas palavras de cortesia, que lhe não passaram dos lábios.

Fi-lo assentar-se e assentei-me perto dele.

Com prazer notei que o belo moço, assim em alto trajo, mais belo ainda me parecia. Tinha aparado a barba, os dentes luziam-lhe como se fossem de um metal branco e polido, e os seus grandes olhos de safira pareciam jóias coruscantes. A casaca assentava-lhe muito bem, desenhando-lhe a cinta esbelta, fazendo sobressair o seu busto altivo, e deixando em desembaraço a rica musculatura das coxas. E a comoção enriquecia-lhe mais o rosto com uma austera palidez de mármore consagrado pelos séculos.

Depois que o meu espírito atingiu o seu pleno desenvolvimento, sempre achei o homem mais belo que a mulher; ou por outra: achei que a beleza do homem era mais valiosa que a beleza feminina, como de resto se observa geralmente nas várias espécies de animais inferiores.

A mulher tem encantos, mas o homem tem real beleza. Nos encantos da mulher há todos os perturbadores mistérios da volúpia terrestre, mas na serena e máscula beleza do homem há sempre um quê de divino e sagrado. Nenhum homem será capaz de impressionar-se pelos encantos físicos de uma mulher, sem que nisso entre o concurso dos seus sentidos; ao passo que qualquer mulher pode admirar um homem belo, sem desejá-lo sensualmente. É assim que nós mulheres amamos Jesus Cristo; e se Maria, a formosa Virgem Santíssima, não tivesse, para resguardar a sua enamorada e frágil boniteza de mulher, a celestial e sacrossanta auréola de mãe de Deus, o que seria de ti, ó doce, poético e venerando prestígio do Catolicismo?...

Cristo atravessa os séculos, todo nu, de braços abertos para a humanidade, e a sua nudez de homem jamais trouxe rubor de pejo às faces da donzela, nem acordou desejos no peito das mulheres.

Mas se despissem Maria das castas vestimentas que lhe escondem o divino corpo, ela deixaria de ser a piedosa e cândida rainha dos céus, e seria Vênus, a deusa do amor e do pecado.

Estas considerações fi-las eu defronte do homem a quem minha filha chamava, de braços abertos e lábios postos em beijo, através das alvas e rendilhadas pétalas do seu leito virginal — grande lírio branco, embalsamado e puro, que franqueava a sua urna de amor ao resplandecente inseto fecundante.

(continua...)

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