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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

De há muito desejava Ângelo conhecer de perto este portento, que ele de longe admirava. Todavia nunca o seu desejo pudera ser satisfeito, pelas circunstâncias da vida de D. Maurícia, das quais informaremos o leitor, pelo maior, oportunamente.

Martins apressou-se a apresentar o amigo à cunhada.

— Ninguém me disse quem era V. Exa., mas eu quase dispensava que mo dissessem; porque, por uma como intuição, V. Exa. se me revelou ao espírito logo que entrei.

Esta amabilidade de Ângelo foi recebida com rápido sorriso por Maurícia, e não despertou nas outras senhoras ressentimento, porque fora dito a meia voz. Maurícia retorquiu:

— Não há que admirar. Posto seja esta a primeira vez que nos vemos, há muito que o senhor é meu conhecido. Martins e Eugênia concorreram para que, antes de lhe falar, já eu lhe rendesse a estima que se deve ao mérito distinto. Deram-me a ler trabalhos seus, que eu não conhecia ainda, e falaram-me sobre suas qualidades com tamanho alvoroço, que chegou para que eu compartisse dele sem os dois sentirem diminuição na sua parte. Eu não tenho competência para ajuizar de produções tão elevadas como o poema marítimo, que o senhor compôs, tendo diante dos olhos o Atlântico revolto e o céu em fogo; mas, a julgar pela impressão que a leitura me deixou, há no senhor um engenho poético de primeira grandeza.

Esta linguagem não se podia estranhar em Maurícia, cujo espírito fora enriquecido pelas jóias do estudo e da melhor educação literária. Seus pais, de costumes severos e de irrepreensível moralidade. Tais costumes e moralidade não haviam desaparecido com eles da família, antes se viam reproduzido nas duas irmãs; e se a Eugênia parecia ter cabido, em partilha, o maior quinhão desta honrada e preciosa herança. era porque, casando-se muito moça, sua vida tomara direção diferente da de Maurícia, segundo havemos de ver. Esta era mais hábil, incomparavelmente mais ilustrada, sem ser menos digna do que a irmã. O centro social, porém, onde se haviam polido os dotes do seu espírito, comunicara-lhe parte de suas propriedades como o vaso novo transmite o perfume de que é formado à água límpida que contém por algumas horas. Maurícia era, por isso, sonhadora, às vezes, arrebatada e irrefletida. Aceitava mais do coração do que do espírito a direção para as suas ações. Uma vezes, perdia; outras, ganhava por sua franqueza. Mas a honestidade, que deve ser a base do caráter da mulher, que não é a cortesã sedutora, ou a barregã desprezível, Maurícia guardava-a intacta, inatacável no fundo de sua alma, como o primeiro dos seus afetos.

As palavras de Maurícia, por inesperadas e quase violentas, deixaram o bacharel um momento silencioso e, para assim dizer, estático. Mas esta impressão cedeu logo o lugar ao espírito, que resgataria a perdida energia. Ângelo acudiu, então, em resposta:

— Minha senhora, este juízo, sobremodo benévolo, fornece-me antes a medida do seu coração do que a do meu engenho poético.

Nessa ocasião, Virgínia aproximou-se dos dois.

— Apresento-lhe minha filha — disse Maurícia ao bacharel. Não é feia e já é uma moça casadora. Não cores, Virgínia! O Sr. Dr. Ângelo não te quer para noiva. Demais já estás comprometida com Paulo.

— Como! — disse Ângelo. Repete-se agora aqui o inocente idílio da ilha da França?

Maurícia voltou-se para Ângelo:

— É singular o que lhe vou referir — disse.

— Mamãe! — advertiu Virgínia, mostrando as cores do pejo nas faces.

— Não sabia que o noivo de Virgínia se chamava Paulo? O acaso tem caprichos como se pertencesse ao sexo feminino. Mas a verdade é que estes novos namorados não desdizem os outros. O senhor não imagina quanto eles se amam, nem em que consistem as demonstrações dos seus afetos.

— Mamãe, se a senhora continuar a falar, eu vou-me embora.

E Virgínia voltou ao seu lugar.

— Dão para um poema — prosseguiu Maurícia — os inocentes amores destas crianças. São duas crianças como nunca vi outras tão ingênuas e tolinhas. Havemos de conversar sobre este assunto, porque preciso aconselhar-me com um advogado. O senhor está definitivamente morando em Recife?

— Sim, minha senhora; trato até de ir buscar minha família.

— Desejo que me dê parte de sua chegada.

— Meu pai tem muito bom coração e minha mãe é uma excelente amiga.

Terei o maior prazer em aproximá-los de V. Exa.

— Havemos de estreitar as nossas relações, Dr. Ângelo. Os nossos sentimentos parecem irmãos.

— Há simpatias irresistíveis, quase fatais.

— É certo; há. Eu posso dar testemunho disto.

(continua...)

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