Por Bernardo Guimarães (1872)
Um dia aconteceu-lhes um estupendo e singular incidente, que não posso deixar de referir.
A pequena Margarida, apenas na idade de dois anos, estando a brincar no quintal, desgarrou-se por um momento da companhia da rapariga que a vigiava, e da de seu camarada de infância. Quando este deu pela falta e foi procurá-la, encontrou-a assentada na relva junto de uma fonte a brincar... com que, Santo Deus!... a brincar com uma formidável e truculenta jararaca. A cobra enrolava-se em anéis em volta da criança, lambia-lhe os pés e as mãos com a rubra e farpada língua, e dava-lhe beijos nas faces. A menina a afagava sorrindo, e dava-lhe pequenas pancadas com um pauzinho que tinha na mão, sem que o hediondo animal se irritasse e lhe fizesse a mínima ofensa. Se o Gênesis não nos apresentasse esse terrível réptil como cheio de astúcia e malícia seduzindo a primeira mãe da humanidade e fazendo-a perder para si e para toda a sua descendência as delícias do paraíso terreal, dir-se-ia que até a serpente tem seus impulsos generosos e também sabe respeitar a fraqueza e a inocência da infância.
Mal o menino deu com os olhos naquele estranho e arrepiador espetáculo, rompeu logo em gritos.
— Mamãe!... mamãe!... bradava ele com quanta força tinha — olha cobra! uma cobra está comendo Galida!...
A mãe dele e Umbelina, que não andavam longe, ouvindo os gritos do menino acudiram logo pressurosas, pálidas e transidas de susto, armada cada uma de um comprido pau.
Ao avistarem a cobra enroscando-se nos braços e no pescoço da pobre menina estacaram horrorizadas, a testa se lhes inundou de suor frio, as pernas lhes tremeram, e pouco faltou para que rolassem no chão sem sentidos. Umbelina principalmente estava no mais angustioso transe; foi-lhe mister agarrar-se à estaca de um varal para não cair por terra. As duas mulheres não atinavam com o que deveriam fazer; atacando a cobra receavam assanhá-la e fazer com que mordesse a menina, ao mesmo tempo não podiam deixar; em tamanho perigo aquela pobre criança, que continuava a rir-se e a brincar com a cobra como se fosse uma boneca.
Passaram alguns instantes da mais cruel ansiedade, ao fim dos quais a serpente desenroscou-se e foi-se retirando tranqüilamente, e sumiu-se nas moitas.
Livres daquele primeiro susto, mas não de todo tranqüilas as duas senhoras correram apressadamente a revistar todo o corpo da criança, e tendo reconhecido que o terrível bicho não lhe havia feito nem a mais leve ofensa, levantaram as mãos ao céu derramando lágrimas de gratidão por tão singular benefício que tomaram por um milagre da Providência.
A senhora Antunes chamou logo em altos gritos os escravos, e ordenou-lhes que perseguissem e matassem a cobra. Umbelina, porém, não queria consentir que se fizesse mal ao animal que havia respeitado e afagado sua querida filha.
— É bicho mau, bem sei — dizia ela — mas esta... coitada!... parece não ser da laia das outras; a menina brincava com ela como se fosse um cão de fralda, e a bicha não lhe fez mal nenhum.
— Nada!... nada! — exclamava a outra. — Quem seu inimigo Poupa, nas mãos lhe morre. Sempre é um bicho que Deus excomungou. A comadre deve lembrar-se que foi uma serpente, que tentou Eva.
— Mas uma cobra, que em vez de morder lambe e afaga...
— Também a serpente do paraíso não mordeu Eva; arrastou-se a seu pés e afagou-a para melhor enganá-la.
— Ora, comadre, também a minha Eva ainda está muito pequenina para poder ser tentada pela serpente.
— É que já o bicho maldito a está pondo de olho para mais tarde fazer-lhe mal.
— Qual, comadre!... é porque até as cobras têm respeito à inocência... — Fie-se nisso!... por sim por não, esta não me há de escapar.
Dizendo isto, a senhora Antunes, com todo o cuidado e precaução sondava com os olhos a moita em que a cobra se tinha sumido. Tendo-a enfim descoberto, encarou-a fixamente, e sem despregar dela os olhos, levou as mãos aos atilhos da cintura da saia, que começou a arrochar cada vez com mais força, murmurando certas orações e esconjuros cabalísticos.
É esta uma simpatia de que usam as nossas roceiras para tornarem as cobras imóveis e pregá-las por assim dizer em um lugar, e dizem que é de um efeito imediato e infalível.
Talvez o leitor não creia nessas coisas que chamam abusões do povo; mas o certo é, que desde o momento em que a senhora Antunes pregou os olhos na cobra e começou a arrochar a saia da cintura, a bicha parou imediatamente e não se mexeu uma linha do lugar em que estava, até que um escravo, chegando com um varapau, veio dar cabo dela.
O rapaz, depois de ter-lhe machucado bem a cabeça, suspendendo a custo o enorme bicho na ponta da vara, arremessou-o no gramal.
A cobra veio cair aos pés de Umbelina, que soltou um grito agudo e deu um salto para trás.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.