Por José de Alencar (1853)
Precisamente ao tempo d'esta chronica, andavam os mares do Rio de Janeiro muito infestados pelos piratas; e havia na ribeira de S. Sebastião a maior actividade em se armarem navios para o corso, e municiarem os que já estavam n'esse mister.
Uma lembrança vaga d'esta circumstancia fluctuava no espirito de Ayres, embotado pela noite de insomnia.
Afagava-o a esperança de achar algum navio a sahir mar em fóra contra os piratas; e estava resolvido a embarcar-se n'elle para morrer dignamente, como filho que era de um sargento-mór de batalha.
Ao chegar á praia, avistou o cavalheiro um batel que ia atracar.Vinha dentro, além do marinheiro que remava, um mancebo derreado á popa, com a cabeça cahida ao peito em uma postura que revelava desanimo. Teria elle vinte dois annos, e era de nobre parecer.
Logo que abordou em terra o batel, ergueu-se rijo o mancebo e saltou na praia, afastando-se rapido e tão abstracto que abalroaria com Ayres, si este não se desviasse pronto.
Vendo que o outro passava sem aperceber-se d'elle, Ayres bateu-lhe no hombro :
—D'onde vindes a esta hora, e tão pezaroso, Duarte de Moraes?
— Ayres!... disse o outro reconhecendo o amigo.
— Eu vos contava entre os felizes; mas vejo que tambem a ventura tem suas nevoas.
— E suas noites. A minha creio que de todo escureceu.
— Que falas são estas, homem, que vos desconheço.
Travou Duarte do braço de Ayres, e voltandose para a praia mostrou-lhe um barco fundeado perto da Ilha das Cobras.
— Vêdes aquelle barco? Ha tres dias que ainda era uma formosa balandra. N'ella empreguei todo meu haver para tentar a fortuna do mar. Eis o estado a que a reduziram os temporaes e os piratas: é uma carcassa, nada mais.
Ayres examinava com attenção a balandra, que estava em grande deterioração. Faltava-lhe o pavez de ré e ao longo dos bordos appareciam largos rombos.
— Esmoreceis com o primeiro revez!
— Que posso eu? D'onde tirar o cabedal para os reparos? E devia eu tentar nova empreza, quando a primeira tão mal surtiu-me?
— Que contais então fazer do barco ? Vendel-o sem duvida ?
— Só para lenha o comprariam no estado em que ficou. Nem vale a pena de pensar n'isso; deixal-o apodrecer ahi, que não tardará muito.
— N'este caso tomo emprestada a balandra, e vou eu á aventura.
— N'aquelle casco aberto? Mas é uma temeridade, Ayres!
— -Ide-vos á casa socegar vossa mulher que deve estar afflicta; o resto me pertence. Levai este abraço; talvez não tenha tempo de dar-vos outro cá n'este mundo.
Antes que Duarte o pudesse reter, saltou Ayres no batel, que singrou para a balandra.
IV
A CANÔA
Saltando a bordo, foi Ayres recebido ao portaló pela maruja um tanto surpreza da visita.
— D'ora avante quem manda aqui sou eu, rapazes; e desde já os aviso, que esta mesma tarde, em soprando a viração, fazemo-nos ao largo.
— Com o barco da maneira que está ? observou gageiro.
Os outros resmungaram approvando.
-- Esperem lá, que ainda não acabei. Esta tarde pois, como dizia, conto ir mar em fóra ao, encontro do primeiro pichelingue que passar-me por d'avante. O negocio ha de estar quente, prometto-lhes.
— Isso era muito bom, si tivesse a gente navio; mas n'uma capoeira de gallinhas como esta?...
— Ah! não temos navio?... Com a breca! Pois vamos procural-o onde se elles tomam!
Entreolhou-se a maruja, um tanto embasbacada d'aquelle desplante.
— Ora bem! continuou Ayres. Agora que já sabem o que têm de fazer, cada um que tome o partido que mais lhe aprouver. Si lhe não tôa a dansa, póde-se ir a terra, e deixar o posto a outro mais decidido. Eia, rapazes, ávante os que me seguem; o resto toca a safar e sem mais detença, si não mando carga ao mar.
Sem a mais leve sombra de hesitação, d'um só e mesmo impulso magnanimo, os rudes marujos deram um passo á frente, com o ar destemido e marcial com que marchariam á abordagem.
— Bravo, rapazes! Podeis contar que os pechelingues levarão d'esta feita uma famosa lição Convido-vos a todos para bebermos á nossa victoria, antes da terceira noite, na taberna do Simão Chanfana.
— Viva o capitão!...
— Si lá não nos acharmos n'essa noite, é que então estamos livres de uma vez d'esta praga de viver!...
— E mesmo! É uma canceira! acrescentou um marujo philosopho.
Passou Ayres a examinar as avarias da balandra, e embora a achasse bastante deteriorada, comtudo não se-demoveu por isso de seu proposito. Tratou logo dos reparos, distribuindo a maruja pelos diversos misteres, e tão prontas e acertadas foram suas providencias, que poucas horas depois os rombos estavam tapados, o apparelho concertado, os outros estragos atamancados, e o navio em estado de navegar por alguns dias.
Era quanto d'elle exigia Ayres, que o resto confiava á
sorte.
(continua...)
ALENCAR, José de. Alfarrábios: O ermitão da Glória. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43220 . Acesso em: 30 jan. 2026.