Por Martins Pena (1845)
Florência — Aí tem! Não digo? A chorar. De que chora?
Emília — De nada, não senhora.
Florência — Ora, isto é insuportável! Mata-se e amofina-se uma mãe extremosa para fazer a felicidade da sua filha, e como agradece esta? Arrepelando-se e chorando. Ora, sejam lá mãe e tenham filhos desobedientes...
Emília — Não sou desobediente. Far-lhe-ei a vontade; mas não posso deixar de chorar e sentir. (Aqui aparece à porta por onde saiu, Ambrósio, em mangas de camisa, para observar)
Florência — E por que tanto chora a menina, por quê?
Emília — Minha mãe...
Florência — O que tem de mau a vida de freira?
Emília — Será muito boa, mas é que não tenho inclinação nenhuma para ela.
Florência — Inclinação, inclinação! O que quer dizer inclinação? Terás, sem dúvida, por algum francelho freqüentador de bailes e passeios, jogador do écarté e dançador de polca? Essas inclinações é que perdem muitas meninas. esta cabecinha ainda está muito leve; eu é que sei o que me convém: serás freira.
Emília — Serei freira, minha mãe, serei! Assim como estou certa que hei-de ser desgraçada.
Florência — Histórias! Sabes tu o que é o mundo? O mundo é... é... (À parte:) Já não me recordo o que me disse o Sr. Ambrósio o que era o mundo. (Alto:) O mundo
é... um... é... (À parte:) E esta? (Vendo AMBRÓSIO junto da porta:) Ah, Ambrósio, dize aqui a esta estonteada o que é o mundo.
Ambrósio, adiantando-se — O mundo é um pélago de enganos e traições, um escolho em que naufragam as felicidades e as doces ilusões da vida... E o convento é porto de salvação e ventura, único abrigo da inocência e da verdadeira felicidade...
Onde está minha casaca?
Florência — Lá em cima no sótão. (AMBRÓSIO sai pela direita. FLORÊNCIA para EMÍLIA:) Ouviste o que é o mundo, e o convento? Não sejas pateta, vem acabar de vestir-te, que são mais que horas. (Sai pela direita)
CENA VI
Emília e depois Carlos
Emìlia — É minha mãe, devo-lhe obediência, mas este homem, meu padrasto, como o detesto! Estou certa que foi ele quem persuadiu a minha mãe que me metesse no convento. Ser freira? Oh, não, não! E Carlos, que tanto amo? Pobre Carlos, também te perseguem! E por que nos perseguem assim? Não sei. Como tudo mudou nesta casa, depois que minha mãe casou-se com este homem! Então não pensou ela na felicidade de seus filhos. Ai, ai!
CENA VII
Carlos, com hábito de noviço, entra assustado e fecha a porta.
Emília, assustando-se — Ah, quem é? Carlos!
Carlos — Cala-te
Emília — Meu Deus, o que tens, por que estás tão assustado? O que foi?
Carlos — Aonde está minha tia, e o teu padrasto?
Emília — Lá em cima. Mas o que tens?
Carlos — Fugi do convento, e aí vêm eles atrás de mim.
Emília — Fugiste? E por que motivo?
Carlos — Por que motivo? pois faltam motivos para se fugir de um convento? O último foi o jejum em que vivo há sete dias... Vê como tenho esta barriga, vai a sumir-se. Desde sexta feira passada que não mastigo pedaço que valha a pena.
Emília — Coitado!
Carlos — Hoje, já não podendo, questionei com o D. Abade. Palavras puxam palavras; dize tu, direi eu, e por fim de contas arrumei-lhe uma cabeçada, que o atirei por esses ares.
Emília — O que fizestes, louco?
Carlos — E que culpa tenho eu, se tenho a cabeça esquentada? Para que querem violentar minhas inclinações? Não nasci para frade, não tenho jeito nenhum para estar horas inteiras no coro a rezar com os braços encruzados. Não me vai o gosto para aí... Não posso jejuar; tenho, pelo mesno três vezes ao dia, uma fome de todos os diabos. Militar é que eu quisera ser; para aí chama-me a inclinação. Bordoadas, espadeiradas, rusgas é que me regalam; esse é o meu gênio. Gosto de teatro, e de lá ninguém vai ao teatro, à exceção de Frei Maurício, que freqüenta a platéia de casaca e cabelereira para esconder a coroa.
Emília — Pobre Carlos, como terás passado estes seis meses de noviciado!
Carlos — Seis meses de martírio! Não que a vida de frade seja má; boa é ela para quem a sabe gozar e que para ela nasceu; mas eu, priminha, eu que tenho para tal vidinha negação completa, não posso!
Emília — E
os nossos parentes quando nos obrigam a seguir uma carreira para a qual não
temos inclinação alguma, dizem que o tempo acostumar-nos-á.
(continua...)
PENA, Martins. O Noviço. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17004 . Acesso em: 29 jan. 2026.