Por Martins Pena (1838)
Manuel João − Sim, os pobres é que o pagam.
Escrivão − Meu amigo, isto é falta de patriotismo. Vós bem sabeis que é preciso mandar gente para o Rio Grande; quando não, perdemos esta província.
Manuel João − E que me importa eu com isso? Quem as armou que as desarme.
Escrivão − Mas, meu amigo, os rebeldes têm feito por lá horrores!
Manuel João − E que quer o senhor que se lhe faça? Ora é boa!
Escrivão − Não diga isto, Senhor Manuel João, a rebelião...
Manuel João, gritando − E que me importa eu com isso?... E o senhor a dar-lhe...
Escrivão, zangado − O senhor Juiz manda dizer-lhe que se não for, irá preso.
Manuel João − Pois diga com todos os diabos ao senhor Juiz que lá irei.
Escrivão, à parte − Em boa hora o digas. Apre! custou-me achar um guarda... Às vossas ordens.
Manuel João − Um seu criado.
Escrivão − Sentido nos seus cães.
Manuel João − Não mordem.
Escrivão − Senhora Dona, passe muito bem. (Sai o ESCRIVÃO.)
Manuel João − Mulher, arranja esta saia, enquanto me vou fardar. (Sai M. JOÃO.)
CENA VI
Maria Rosa − Pobre homem! Ir à cidade somente para levar um preso! Perder assim um dia de trabalho...
Aninha − Minha mãe, pra que é que mandam a gente presa para a cidade?
Maria Rosa − Pra irem à guerra.
Aninha − Coitados!
Maria Rosa − Não se dá maior injustiça! Manoel João está todos os dias vestindo a farda. Ora pra levar presos, ora pra dar nos quilombos... É um nunca acabar.
Aninha − Mas meu pai pra que vai?
Maria Rosa − Porque o Juiz de paz o obriga.
Aninha − Ora, ele podia ficar em casa; e se o Juiz de paz cá viesse buscá-lo, não tinha mais que iscar a Jibóia e a Boca-Negra.
Maria Rosa − És uma tolinha! E a cadeia ao depois?
Aninha − Ah, eu não sabia.
CENA VII
Entra Manuel João com a mesma calça e jaqueta de chita, tamancos, barretina da Guarda Nacional, cinturão com baioneta e um grande pau na mão.
Manuel João, entrando − Estou fardado. Adeus, senhora, até amanhã. (Dá um abraço.)
Aninha − Abenção, meu pai.
Manuel João − Adeus, menina.
Aninha − Como meu pai vai à cidade, não se esqueça dos sapatos franceses que me prometeu.
Manuel João − Pois sim.
Maria Rosa − De caminho compre carne.
Manuel João − Sim. Adeus, minha gente, adeus.
Maria Rosa e Aninha − Adeus! (Acompanham-no até a porta.)
Manuel João, à porta − Não se esqueça de mexer a farinha e de dar que comer às galinhas.
Maria Rosa − Não. Adeus! (Sai MANUEL JOÃO.)
CENA VIII
Maria Rosa − Menina, ajuda-me a levar estes pratos para dentro. São horas de tu ires colher o café e de eu ir mexer a farinha... Vamos.
Aninha − Vamos, minha mãe. (Andando:) Tomara que meu pai não se esqueça dos meus sapatos... (Saem.)
CENA IX
Sala em casa do Juiz de paz. Mesa no meio com papéis; cadeiras. Entra o Juiz de paz vestido de calça branca,
rodaque de riscado, chinelas verdes e sem gravata.
(continua...)
PENA, Martins. O Juiz de Paz da Roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17003 . Acesso em: 29 jan. 2026.