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#Dramas#Literatura Brasileira

Mãe

Por José de Alencar (1860)

JORGE - Tu és sempre boa, Joana!

JOANA - Não digas isso, nhonhô!

JORGE - Digo, sim! - D. Elisa, creio que minha mãe, a quem não conheci, não me teria mais amor do que esta segunda mãe, que me criou.

JOANA - Hô gente, nhonhô! Isso são modos de tratar sua escrava.

ELISA - O Sr. tem razão, Sr. Jorge.

JOANA - Não tem! Não tem!

ELISA - Basta ouvi-la falar do senhor.

JORGE - Ah! Ela falou-lhe de mim?... Que disse?...

JOANA - Nada, nhonhô.

ELISA - Em outras palavras, o que o senhor acaba de repetir.

JOANA - Iaiá... Eu disse que queria bem a meu senhor, como uma escrava pode querer... só!

JORGE - Como uma escrava!... Sentes ser cativa, não é?

JOANA - Eu!... Não, nhonhô! Joana é mais feliz em servir seu senhor, do que se estivesse forra.

JORGE - Bem sabes! Hoje é o dia de meus anos. Tenho um presente para ti.

JOANA - Nhonhô já me deu um este mês.

JORGE - Não faz mal. Pudesse eu dar-te quantos desejo. - Vamos à nossa lição, D. Elisa?

ELISA - Quando o senhor quiser.

JOANA - E eu vou cuidar da minha cozinha.

CENA VI

JORGE e ELISA

JORGE - Acho-a triste hoje.

ELISA - É engano seu. Nunca fui alegre.

JORGE - Perdão! Quando a conheci, a senhora tinha mais vivacidade do que tem hoje. Também não se diverte, não passeia.

ELISA - Sou pouco amiga de passear.

JORGE - Mas é necessário ter uma distração.

ELISA - Tinha uma de que muito gostava.

JORGE - Qual?

ELISA - A música, mas...

JORGE - Mas também enfastia. Não é?

ELISA - A mim, nunca.

JORGE - Pois está em suas mãos cultivá-la.

ELISA - Se estivesse!...

JORGE - Não a compreendo.

ELISA - Escute, Sr. Jorge. Há dias que tenciono dizer-lhe... porém falta-me o ânimo.

JORGE - O quê?... Diga, D. Elisa.

ELISA - Não posso continuar com as lições.

JORGE - Ah!... Tem outro mestre?

ELISA - Não seja injusto! Que melhor mestre podia achar do que O senhor? Eu é que não quero mais estudar.

JORGE - Por que, minha senhora?

ELISA - Não lhe posso dizer.

JORGE - Desculpe, se cometi uma indiscrição.

ELISA - Nenhuma... E demais, é preciso que o senhor saiba... Meu pai não pode... pagarlhe...

JORGE - A senhora me ofende, D. Elisa!... Exigi alguma coisa?

ELISA - Oh! não!... E é por isso que lho disse... Já lhe devemos seis meses.

JORGE - Não fale nisto! Nunca foi minha intenção receber paga de tão pequeno serviço. Ao contrário, tinha-me por feliz em poder prestá-lo.

ELISA - Mas eu é que não devo.

JORGE - Por que me recusaria isto? Assim, fique tranqüila. Continuaremos com as nossas lições.

ELISA - Como?... Não tenho piano.

JORGE - E este?

ELISA - Meu pai quer vendê-lo... Precisa...

JORGE - É só esse o motivo?... Eu lhe emprestarei o meu. Nunca toco.

ELISA - Ainda quando aceitasse, o que não devia, o seu delicado oferecimento, Sr. Jorge, era impossível continuar.

JORGE - Entendo D. Elisa. A senhora procura um pretexto para despedir-me; e eu estou torturando-a com a minha insistência.

ELISA - Sr. Jorge!...

JORGE - Desculpe. Se tivesse percebido, há muito que me teria retirado.

ELISA - Meu Deus! Não me obrigue a confessar-lhe tudo!

JORGE - Adeus, minha senhora!

ELISA - Mas, Sr. Jorge...

JORGE - Tenho a consciência de que nunca lhe faltei ao respeito que devia...

ELISA - Pois bem... O senhor quer. Eu preciso trabalhar!... Preciso ganhar para viver!

JORGE - A senhora, D. Elisa?

ELISA - Bem vê que não tenho nem tempo, nem vontade para estudar!

JORGE - Perdoe-me! Estava tão longe de suspeitar!

ELISA - Ainda supõe que seja um pretexto?

JORGE - Esqueça o que lhe disse.

ELISA - Só me lembro do que lhe devemos. (Pausa.)

JORGE - Ouça-me, D. Elisa, e sirvam-me as suas lágrimas de testemunhas perante Deus. Há muito tempo que trabalho para conseguir um posição digna de lhe ser oferecida. Quer dar-me o direito de partilhar a sua sorte?... Responda-me! Eu lhe suplico!

ELISA - Não!... Não posso responder-lhe!... Nem aceitar. JORGE - Porque é pobre?... Também eu o sou! Seremos dois a lutar.

ELISA - Meu pai... lhe dirá... Eu não!

JORGE - Era minha intenção falar-lhe; mas antes quero o seu consentimento. Recusa-me?

ELISA - Não sei!

JORGE - Elisa!...

ELISA - Fale!...

JORGE - Obrigado, minha mulher!...

ELISA - Não me chame assim!

JORGE - Esse título me impõe o dever de fazer a sua felicidade, e me dá o direito de velar sobre a sua existência.

ELISA - Se meu pai não se opuser.

(continua...)

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