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#Romances#Literatura Brasileira

Diva

Por José de Alencar (1864)

—Peço-lhe mil desculpas, Sr. doutor, pelo que acaba de acontecer. Mila teve uma educação muito severa... Minha falecida mulher era nesse ponto de um rigor excessivo; muitas vezes fiz-lhe ver o inconveniente disso... Mas, Sr. doutor, V.S. bem sabe quanto as mães são zelosas de sua autoridade. 

—Não se aflija, Sr. Duarte. Eu compreendi logo a razão do que se passou. Sua filha não estava prevenida... acordou sobressaltada... 

—É verdade! —Demais, eu sou para ela quase um estranho. Havia, portanto, motivos de sobra para o seu vexame. O recato é tão bela virtude em uma menina! —Mas em minha filha é em tal excesso, que já parece vicio. 

—Mudará com a idade. Agora convém que V. S. a convença da necessidade de consentir... 

—Tanto que lhe pedi já e roguei! Não quer ouvir falar de semelhante cousa. 

—É dos casos em que um pai deve interpor a sua autoridade. 

—Oh! sinto que não teria ânimo! Nunca até hoje ralhei com minha filha. Como o faria agora que a vejo tão doente? —Não será talvez necessário recorrer a esse extremo. Por meios brandos!... 

Duarte voltou ao quarto da filha. 

Esse homem, que representa na família um papel importante pela sua nulidade, é negociante; trabalhou toda a vida para enriquecer; depois de rico só vive para ser milionário. 

Essa febre nele não é ambição, mas destino. Quer a riqueza para seus filhos, parentes e amigos; para ele conserva a antiga mediocridade. Nunca até hoje o Sr. Duarte admitiu a menor alteração em seu sistema de vida, e nos hábitos do homem pobre e laborioso, que fora. 

A riqueza não o fez melhor nem pior; mudou de fortuna, não mudou de caráter, nem de sentimentos. O luxo, que desde muito tempo batia k porta de sua velha habitação, devia penetrá-la enfim, um belo dia, sem que ele tivesse consciência disso. Quase se pode afirmar que o não percebeu. Para ele essa grande revolução doméstica não passava de uma questão de pagamento, e portanto da competência do seu caixa. 

Em resumo, tem Duarte uma dessas naturezas essencialmente mercantis, que nascem predestinadas para o negócio, e só respiram livremente na atmosfera do armazém. De resto, uma boa alma, metódica e fria, como deve ser uma alma aclimatada ao balcão desde a infância, e educada exclusivamente para o juro e a conta corrente. 

Nessa alma, como nos canteiros regulares de um jardim, não brota a urze das paixões, mas vem bem e com simetria a flor cultivada dos afetos calmos. Duarte ama sua família e estima seus amigos com sinceridade, mas passivamente, sem iniciativa. Capaz de qualquer sacrifício que exijam dele, nunca teve a espontaneidade do mais insignificante favor. Não oferece, mas também não recusa seu dinheiro, como sua amizade. 

O negociante voltou acabrunhado: 

—Ela recusa! murmurou. 

—Deste modo não sei o que faça. Entretanto a moléstia é grave. 

—Por que não receita já,? —Não posso indicar um tratamento sem conhecer a moléstia. 

—Pois, Sr. doutor, eu também não posso usar de rigor com Mila, porque sei que isso seria matá-la mais depressa. 

Duarte deixou-se cair sobre uma cadeira, e sucumbiu à dor: as lágrimas saltaram-lhe dos olhos. 

—O que me parece mais acertado, é chamar V. S. um médico de sua confiança, habituado a tratar na família. 

—Já não existe! exclamou com um soluço, Qualquer outro que venha me responderá, o mesmo que o senhor! Meu Deus! Condenado a ver morrer minha filha, sem poder salvá-la. 

—Bem, Sr. Duarte. Eu tratarei de sua filha. 

A moléstia era realmente grave; nada menos do que uma pneumonia dupla. Tive de lutar contra a enfermidade rebelde e a tenacidade inflexível de um caráter singular de menina, habituada a ver satisfeitas todas as suas vontades, como ordens imperiosas. 

Emília tomara-me tal rancor, que não me deixou mais penetrar em seu aposento. Se adormecia, e eu advertido por Julinha ou por D. Leocádia me chegava ao leito, mal lhe tocava o pulso, ela acordava eom sobressaltos, volvendo os olhos inquietos pelo aposento. 

Ocultava-me então do lado da cabeceira, entre a parede e o cortinado, e dai esgueirava-me pela porta. Uma ocasião um olhar de Julinha traiu-nos; ela surpreendeu-me e gritou cobrindo o rasto: 

—Deitem fora este homem! D. Leocádia e o irmão se afligiam muito com os caprichos de Emília; mas não tinham nem a força nem a vontade de contrariá-Ia, embora temessem a cada instante que a minha suscetibilidade se ofendesse com aqueles modos ríspidos. 

Mas o meu orgulho de médico principiante estava empenhado nessa cura. Era ela que devia me dar a consciência da minha força ou talvez o desengano de uma carreira. Foi ela que decidiu do meu futuro. 

(continua...)

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