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#Biografias#Literatura Brasileira

Como e por que sou romancista

Por José de Alencar (1873)

Mas um menino dos últimos lugares tinha saído poucos momentos antes com licença, e escapava-me esta circunstância. Assim, quando sorrindo eu esperava a palavra do professor para dar o quinau, e ao ouvir o sétimo adiante, perfilei-me no impulso de responder; um olhar de Januário gelou-me a voz nos lábios. 

Compreendi; tanto mais quanto o menino ausente voltava a tomar seu lugar. Não me animei a reclamar; porém creio que em minha fisionomia se estampou, com a sinceridade e a energia da infância, o confrangimento de minha alma.

Meu imediato e êmulo, que me foi depois amigo e colega de ano em São Paulo, era o Aguiarzinho (Dr. Antônio Nunes de Aguiar), filho do distinto general do mesmo nome, bela inteligência e nobre coração ceifados em flor, quando o mundo lhe abria de par em par as suas portas de ouro e pórfiro.

Ansioso aguardava ele a ocasião de se desforrar da partida que lhe eu havia ganho, depois de uma luta porfiada – Todavia não lhe acudiu a resposta de pronto; e passaria a sua vez, se o diretor não lhe deixasse tempo bastante para maior esforço do que fora dado aos outros e sobretudo a mim – Afinal ocorreu-lhe a resposta, e eu com o coração transido, cedi ao meu vencedor o lugar da honra que tinha conquistado de grau em grau, e conseguia sustentar havia mais de dois meses.

Nos trinta anos vividos desde então, muita vez fui esbulhado do fruto de meu trabalho pela mediocridade agaloada; nunca senti senão o desprezo que merecem tais pirraças da fortuna, despeitada contra aqueles que não a incensam.

Naquele momento, porém, vendo perdido o prêmio de um estudo assíduo, e mais pôr surpresa, do que eu traguei silenciosamente, para não abater-me ante a adversidade.

Nossa classe trabalhava em uma varanda ao rés do chão, cercada pelo arvoredo do quintal.

Quando, pouco antes da Ave-Maria, a sineta dava sinal da hora de encerrar as sulas, Januário fechava o livro; e com o tom breve do comando ordenava uma espécie de manobra que os alunos executavam com exatidão militar.

Pôr causa da distância da varanda, era quando todo o colégio já estava reunido no grande salão e os meninos em seus assentos numerados, que entrava em passo de marcha a sexta classe, a cuja frente vinha eu, o mais pirralho e enfezadinho da turma, em que o geral se avantajava na estatura, fazendo eu assim as vezes de um ponto.

A constância com que me conservava à frente da classe no meio das alterações que em outras se davam todos os dias, causava sensação no povo colegial; faziam-se apostas de lápis e canetas; e todos os olhos se voltavam para ver se o caturrinha do Alencar 2º (era o meu apelido colegial) tinha afinal descido de monitor de classe.

O general derrotado a quem a sua ventura reservava a humilhação de assistir à festa da vitória, jungido ao carro triunfal de seu êmulo, não sofria talvez a dor que eu então curti, só com a idéia de entrar no salão, rebaixado de meu título de monitor, e rechaçado para o segundo lugar.

Se ao menos se tivesse dado o fato no começo da lição, restava-me a esperança de com algum esforço recuperar o meu posto; mas pôr cúmulo da infelicidade sobreviera o meu desastre justamente nos últimos momentos, quando a hora estava a findar.

Foi no meio dessas reflexões que tocou a sineta, e as suas badaladas ressoaram em minha alma como o dobre de uma campa. 

Mas Januário que era acerca de disciplina colegial de uma pontualidade militar, não deu pelo aviso e amiudou as perguntas, percorrendo apressadamente a classe. Poucos minutos depois eu recobrava meu lugar, e erguia-me trêmulo para tomar a cabeça do banco.

O júbilo, que expandiu a fisionomia sempre carregada do diretor, eu próprio não o tive maior, com o abalo que sofri. Ele não se pôde conter e abraçou-me diante da classe.

Naturalmente a questão proposta e cuja solução deu-me a vitória, era difícil; e pôr isso atribuía-me ele o mérito, que não provinha talvez senão da sorte, para não dizer do acaso.

Momentos depois entrava eu pelo salão à frente da classe, onde me conservei até o exame.


III

Mais tarde, quando a razão, como o fruto, despontou sob a flor da juventude, muitas vezes cogitei sobre esse episódio de infância, que deixara em meu espírito, uma vaga dúvida a respeito do caráter de Januário.

Então o excessivo rigor que se me tinha afigurado injusto, tomava o seu real aspecto; e me aparecia como o golpe rude, mas necessário que dá têmpera ao aço. Porventura notara o diretor de minha parte uma confiança que deixava em repouso as minhas faculdades, e da qual proviera o meu descuido.

Este episódio escolástico veio aqui pôr demais, trazido pelo fio das reminiscências. Serve entretanto para mostrar-lhe o aproveitamento que deviam tirar os alunos desse método de ensino.

Sabíamos pouco; mas esse pouco sabíamos bem. Aos onze anos não conhecia uma só palavra de língua estrangeira, nem aprendera mais do que as chamadas primeiras letras.

(continua...)

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