Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)
Firmino Vá rezar o seu rosário, tia Suzana; vá...
Suzana Vou: o meu rosário é a minha fortaleza, e com a inspiração do meu rosário hei de cumprir sempre o meu dever diante de Deus. Fiquem, se podem, na paz do Senhor. (vai-se)
Cena 3ª
Firmino e Tereza
Firmino
Quem esperaria por semelhante sermão de quaresma?... Tu és a culpada, Teodora, pois que nos comprometes ambos com imprudentes e importunas contestações.
Teodora Acabemos de uma vez com elas: enquanto minha tia ralhava, eu refletia pois que nenhum de nós cede ao outro, deixemos a Carlos e a Peregrino o empenho de conquistar o coração de Corina e a esta o direito de escolher entre os dois.
Firmino Acho muito razoável esse alvitre.
Teodora Ambos nos conservaremos absolutamente alheios à luta rival: nem tu apoiarás as pretensões de teu filho, nem eu as do meu.
Firmino Convenho; já deveríamos ter assim resolvido a questão.
Teodora Em oito dias obrigaremos Corina a decidir-se por Carlos ou por Peregrino.
Firmino Perfeitamente.
Teodora Eu te juro, sob minha palavra de honra, que serei em tudo fiel a este acordo.
Firmino Faço o mesmo juramento.
Teodora Vês? Acabo sempre por concordar contigo: muito bem: agora mais duas palavras sobre o batizado da boneca: teimas em não querer que a reunião seja numerosa?
Firmino Um batizado de boneca é um passatempo tão juvenil que concedido à uma moça de dezesseis anos, só se tolera em família e em sociedade de íntimos amigos.
Teodora É uma explicação; mas se Júlia exigir grande festa e baile?....
Firmino Júlia! Júlia! Tu a deitaste a perder...
Teodora Sim... fui eu!... Mas se ela exigir?...
Firmino Oh! Não lhe digas que resumimos os convites; deixa que ela sonhe com o baile.
Teodora Previno-te de que em caso de revolta direi a Júlia que se entenda contigo.
Firmino Não: é melhor iludi-la... Júlia é uma bonequinha... mas parece que a lembrança de Teófilo não lhe perturba o sono. (consulta o relógio) Dez horas da manhã!
Teodora Vou ver se as duas meninas já se resolveram a amanhecer. (vai-se)
Firmino
(seguindo-a) Até logo... saio; mas volto cedo.
Cena 4ª
Firmino e Peregrino
Firmino Ah! Pensei que não estavas em casa.
Peregrino Entrei agora mesmo: vim pedir a meu pai que não esqueça o meu amigo Simão de Souza na lista dos seus convidados para o batizado da boneca de Júlia.
Firmino Simão de Souza... que espécie de interesse...
Peregrino Ele me protege em meus negócios: ainda há três dias adiantou-me dinheiro para comprar quatro escravos que logo vendi com seiscentos mil réis de lucro.
Firmino Ah! Eu sempre o tive por homem de bem... ultimamente festeja muito Teodora, quando a encontra no teatro ou no baile. Vou mandar convidá-lo...
Peregrino O convite o exultará: o meu amigo pensa também, como outros, a respeito de Corina...
Firmino Em Corina?... Onde a viu?...
Peregrino Não a viu ainda, mas tem conhecimento de seu dote...
Firmino Não pode ser convidado.
Peregrino Meu pai, Simão de Souza começa a envelhecer, é feio e rude. Não há risco em deixá-lo vir; mas dada a hipótese de que fosse feliz, eu que receio não vencer a indiferença glacial de Corina, teria a consolação de vinte por cento do dote da noiva.
Firmino Então ele te propôs?...
Peregrino Isso é casar-me com uma sobrinha que possui cerca de trinta apólices de conto de réis.
Firmino Convidarei em todo o caso o homem. (vai à porta do interior)
Peregrino Obrigado, meu pai.
Firmino Teodora está no segundo andar: escutas, trata com atividade de agradar a Corina: eu tenho de fingir-me neutro, chama ao teu partido a filha do teu padrinho, que gosta muito da minha pupila... eu já vou falar ao compadre: nada disso seria preciso se eu não tivesse oposição em casa... mas Carlos.
Peregrino Carlos não me incomoda: é um excelente mancebo, que estudou suas letras, agora passa a vida, freqüentando as galerias das câmaras, fazendo versos e lendo romances e poesias. Está arrufado comigo porque soube que eu negociava em escravos.
Firmino E que tem isso?...
Peregrino
Carlos é um pobre e vão sonhador; há de proceder
como eu quiser.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de Macedo. Uma pupila rica.