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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)

Mostra-se claramente, segundo o que se contém neste capítulo atrás, que se começa a costa do Brasil além do rio das Amazonas da banda de oeste pela terra que se diz dos caraíbas do rio de Vicente Pinzon. Desse rio de Vicente Pinzon à ponta do rio das Amazonas, a que chamam o cabo Corso, são quinze léguas, a qual ponta está debaixo da linha equinocial; dessa ponta do rio à outra ponta da banda de leste são trinta e seis léguas. E ao mar doze léguas da boca desse rio estão ilhas, as quais demoram em altura de um terço de grau da banda do sul. Essas ilhas se mostram na carta mais chegadas à terra, o que é erro manifesto. Nessas ilhas há bons portos para surgirem navios, mas para bem hão se de buscar de baixa-mar, nordeste-sudoeste, porque nesta conjunção se descobre melhor o canal. A este rio chama o gentio de Mar Doce, por ser um dos maiores do mundo, o qual é muito povoado de gentio doméstico e bem acondicionado, e segundo a informação que se deste rio tem, vem do sertão mais de mil léguas até o mar; pelo qual há muitas ilhas grandes e pequenas quase todas povoadas de gentio de diferentes nações e costumes, e muito dele costuma pelejar com setas ervadas. Mas toda a gente que por estas ilhas vive, anda despida ao modo do mais gentio do Brasil e usam dos mesmos mantimentos e muita parte dos seus costumes; e na boca deste rio, e por ele acima algumas léguas, com parte da costa da banda de leste, é povoado de tapuias, gente branda e mais tratável e doméstica que o mais gentio que há na costa do Brasil, de cujos costumes diremos adiante em seu lugar.

C A P Í T U L O IV

Em que se dão em suma algumas informa-ções que se têm deste rio das Amazonas.

Como não há coisa que se encubra aos homens que querem cometer grandes empresas, não pôde estar encoberto este rio do mar Doce ou das Amazonas ao capitão Francisco de Orellana que, andando na conquista do Peru em companhia do governador Francisco Pizarro, e indo por seu mandado com certa gente de cavalo descobrindo a terra, entrou por ela adentro tanto espaço que se achou perto do nascimento deste rio. E vendo-o caudaloso, fez junto dele embarcações, segundo o costume daquelas partes, em as quais se embarcou com a gente que trazia e se veio por esse rio abaixo, em o qual se houveram de perder por levar grande fúria a correnteza, e com muito trabalho tornou a tomar porto em povoado, na qual jornada teve muitos encontros de guerra com o gentio e com um grande exército de mulheres que com ele pelejaram com arcos e flexas, de onde o rio tomou o nome das Amazonas. Livrando-se este capitão deste perigo e dos mais por onde passou, veio tanto por este rio abaixo até que chegou ao mar; e dele foi ter a uma ilha que se chama a Margarita, donde se passou à Espanha. Dando suas informações ao imperador Carlos V, que está em glória, lhe ordenou uma armada de quatro naus para cometer esta empresa, em a qual partiu do porto de S. Lucar com sua mulher para ir povoar a boca deste rio, e o ir conquistando por ele acima, o que não houve efeito por na mesma boca deste rio falecer este capitão de sua doença, de onde sua mulher se tornou com a mesma armada para a Espanha. Neste tempo — pouco mais ou menos — andava correndo a costa do Brasil em uma caravela, como aventureiro, Luís de Melo, filho do alcaide-mor de Elvas, o qual, querendo passar a Pernambuco, desgarrou com o tempo e as águas por esta costa abaixo, e vindo correndo a ribeira, entrou no rio do Maranhão, e neste das Amazonas, de cuja grandeza se contentou muito; e tomou língua do gentio de cuja fertilidade ficou satisfeito e muito mais das grandes informações que na ilha da Margarita lhe deram alguns soldados, que ali achou, que ficaram da companhia do capitão Francisco de Orellana, os quais facilitaram a Luís de Melo e navegação deste rio, e que com pouco cabedal e trabalho adquirisse por ele acima muito ouro e prata. Do que movido Luís de Melo, se veio à Espanha, e alcançou licença de el-rei D. João III de Portugal para armar à sua custa e cometer esta empresa, para o que se fez prestes na cidade de Lisboa; e partiu do porto dela com três naus e duas caravelas com as quais se perdeu nos baixos do Maranhão, com a maior parte da gente que levava; e ele com algumas pessoas escaparam nos batéis e uma caravela em que foi ter às Antilhas. E depois deste fidalgo ser em Portugal, se passou à Índia, onde acabou valorosos feitos; e vin-do-se para o Reino muito rico e com tenção de tornar a cometer esta jornada, acabou no caminho em a nau São Francisco, que desapareceu sem até hoje se saber novas dele.

C A P Í T U L O V

Que declara a costa da ponta do rio das Amazonas até o do Maranhão.

(continua...)

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